As tartarugas-verdes estão a mudar de sexo e a culpa é das alterações climáticas

O aumento da temperatura está a gerar populações predominantemente femininas, o que representa um risco para a sobrevivência da espécie.

Cerca de 90% da população observada a norte da Grande Barreira de Coral é feminina
Foto
Cerca de 90% da população observada a norte da Grande Barreira de Coral é feminina Reuters/HUGH GENTRY

O aumento da temperatura está a transformar praticamente todas as tartarugas-verdes na Grande Barreira de Coral australiana em fêmeas. A revelação surge num estudo publicado nesta segunda-feira na revista académica Current Biology. Uma vez que o sexo desta espécie é definido com base na temperatura da incubação dos embriões, as alterações climáticas e o consequente aumento da temperatura são as razões apontadas como principal justificação do fenómeno, alerta o estudo.

A determinação do sexo através da temperatura é um processo comum em várias espécies de peixes e répteis, dependendo da temperatura de incubação dos ovos.

Um estudo publicado na revista Nature em 2014 já alertava para o perigo do aumento das temperaturas nos oceanos e na atmosfera para a sobrevivência das tartarugas-verdes (Chelonia mydas). A observação mostrou que quando a temperatura era de 29º C, as probabilidades de nascerem fêmeas ou machos era de 50-50. Abaixo disso, o mais provável era nascerem tartarugas do sexo masculino. Quando a temperatura da areia ultrapassava os 30°C, aumentavam as hipóteses de as tartarugas nascerem fêmeas.

Tendo em conta as alterações climáticas, o grupo de investigadores já estava preparado para observar números onde a população feminina estivesse mais representada. No entanto, a discrepância que encontraram foi muito mais alarmante do que o esperado.

Foram observados dois grupos genéticos distintos de tartarugas naquela que é a morada da maior população desta espécie no mundo. Enquanto o grupo de tartarugas observado em praias de incubação mais a sul da Grande Barreira de Coral (com temperaturas mais frias) apresenta uma população equilibrada, com as fêmeas a representarem entre 65% a 69% da população, nas praias mais quentes a norte o desequilíbrio atinge proporções extremas, com as fêmeas a representarem cerca de 90% da população.

Uma observação mais detalhada mostra que a predominância de fêmeas está a aumentar rapidamente de geração em geração. Entre as tartarugas observadas nas praias mais quentes, a percentagem de tartarugas fêmeas adultas foi de 86,8%, enquanto na camada mais jovem da mesma espécie o número sobe para 99,1%

Os resultados observados mostram que “as tartarugas-verdes em Raine Island têm estado a reproduzir-se como fêmeas durante as últimas duas décadas e a completa predominância da população feminina é possível num futuro próximo”, lê-se nas conclusões da investigação, que aponta para um panorama alarmante. “Este é um cenário extremo. Mas um extremo em letras maiúsculas e com ponto de exclamação”, resumiu uma das investigadoras ligadas ao estudo, Camryn Allen.

Se o nascimento de mais fêmeas a médio prazo pode contribuir para o aumento da população — já que haverá mais fecundação e deposição de ovos —, a longo prazo esta predominância poderá traduzir-se na extinção da espécie. Além disso, as temperaturas elevadas podem conduzir ainda à mortalidade dos ovos, uma vez que os ninhos (escavados pelas fêmeas durante a noite) se transformam em fornos para os embriões. Um outro exemplo citado na ameaça à sobrevivência da espécie é o aumento do nível médio da água do mar, que inunda os ninhos e afoga os ovos.

A alteração da temperatura é um fenómeno que tem acompanhado a existência das tartarugas marinhas há 100 milhões de anos. Apesar disso e das décadas de ameaças com a caça, a poluição e a perda de habitat, a população desta espécie tem resistido. No entanto, a velocidade a que se têm verificado as recentes alterações climáticas torna difícil a adaptação das novas gerações de animais, destaca o biólogo marinho que liderou a investigação, Michael Jensen, citado pela National Geographic.

Classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza e pela CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora SelvagemAmeaçadas de Extinção) como uma espécie ameaçada, a importância da protecção da tartaruga-verde e criação de estratégias que garantam a sua reprodução são sublinhadas nas conclusões do estudo.