Opinião

Talvez devêssemos pôr a mão na consciência

Devemos exigir mais de nós próprios quando temos como função exigir mais daqueles sobre os quais escrevemos.

1. Por uma razão qualquer, a polémica em torno das leis de financiamento dos partidos atirou-me para um passado já longínquo, no tempo em que os animais falavam e uma simples máquina de fax era recebida na redacção do Expresso como uma verdadeira revolução tecnológica. Estávamos em meados dos anos 1980 e ainda batíamos furiosamente nas teclas das velhas máquinas de escrever. Os artigos iam para a gráfica dentro de um canudo preto, transportado a grande velocidade por um estafeta de mota. Passaram a ir por fax. Tínhamos conta no Fumaças e na Buchholz, onde comprávamos as revistas estrangeiras e encomendávamos livros de Paris e de Londres que nos permitissem ir obtendo os conhecimentos necessários para entendermos um pouco melhor a realidade sobre a qual escrevíamos. Nas campanhas eleitorais, tínhamos de recorrer ao telefone de um café de aldeia para ditarmos as crónicas. Enfim, este breve ataque de nostalgia apenas serve para lembrar outras memórias, que talvez ajudem a compreender (não a justificar) as razões pelas quais os deputados de todos os partidos resolveram adoptar o total secretismo para negociarem as alterações às respectivas leis de financiamento, agora que todos os adjectivos disponíveis na língua portuguesa para desancá-los já foram utilizados pelos comentadores.

2. O que a minha memória me diz é que, de cada vez que havia a intenção de aumentar os vencimentos dos deputados e dos políticos em desempenho de outras funções, os jornalistas lhes caiam em cima com uma fúria idêntica à que estamos agora a assistir. O país era pobre, por que razão os políticos tinham de ganhar mais? Tive grandes discussões na redacção sobre isso. Numa altura em que os jornalistas ainda eram bem pagos (antes da proletarização acelerada a que hoje assistimos), não me parecia lógico que ganhássemos mais do que um deputado cuja função é de suprema relevância numa democracia liberal. O mesmo para os ministros ou o próprio Presidente da República. No tempo espartano de Eanes, a presidência queixava-se de ter apenas dinheiro para oferecer aos convidados um arrozinho de tomate a acompanhar uns pastelinhos de bacalhau. Se queríamos que a política atraísse os melhores (como aconteceu logo depois do 25 de Abril), então teriam de ganhar razoavelmente, em vez de se manterem, muitas vezes, ligados aos grandes escritórios de advogados ou a outras actividades privadas igualmente rentáveis. 

3. O que quero dizer é que a responsabilidade pelo clima que levou deputados experientes a tentarem alterar as regras de financiamento dos partidos num pequeno grupo secreto, com todos amarrados às pernas da mesa, também é nossa. Deveríamos ter a humildade de o reconhecer. Antes do populismo, que agora invocamos a torto e a direito, havia a demagogia. E a demagogia não ficava à porta das redacções. Era a mesma que levava muita gente a acusar Mário Soares de gastos sumptuários quando se deslocava ao estrangeiro em visitas oficiais, levando consigo o que de melhor o país tinha para mostrar. Ouvi-o responder muitas vezes a esta crítica com uma simples frase: “Nunca me apresentarei lá fora de chapéu na mão.” Desta vez, houve uma pequena diferença: antes de desancar nos políticos, a maioria dos comentadores teve o cuidado de lembrar que, sem partidos, não há democracia — uma verdade de La Palice que nunca é demais recordar. Mas este cuidado aparente acabou por ser um pormenor, esmagado pela violência das críticas.

4. A crise das democracias europeias, com a emergência de forças populistas e nacionalistas, é um problema sério, talvez o mais sério que a Europa enfrenta, mas tem razões profundas e exige mudanças igualmente profundas, que aliás já estão a ocorrer. O partido que levou Emmanuel Macron ao Eliseu foi criado há pouco mais de um ano, colocando-se no centro político e não abdicando dos valores sobre os quais a Europa se reconstruiu, em vez de ceder ao populismo para estancar o crescimento dos populistas. Vimos partidos portadores de uma longa história, como o PS francês, desaparecerem de um dia para o outro, substituídos por um movimento progressista, integrado maioritariamente por gente que cresceu fora das máquinas partidárias, que vem dos sectores mais dinâmicos e mais jovens da sociedade e que pode corresponder a uma outra forma de organização partidária, talvez mais conforme com o mundo em que vivemos. Vai ser interessante acompanhar a vida dos “Republicanos em Marcha” ou dos pequenos grupos de deputados do centro-direita que se organizaram autonomamente, rompendo com os Republicanos de Sarkozy, para estabelecerem pontes com o partido de Macron nas matérias em que estão de acordo. Seja como for, os partidos, uns e outros, novos e velhos, precisam de se financiar. O ideal seria a subvenção pública, mas ainda não estão reunidas as condições para que isso aconteça, ao mesmo tempo que a fragmentação política está a criar novas organizações ainda não devidamente legitimadas pelos votos como fenómenos duradouros. A qualidade dos políticos, nomeadamente por cá, também não tem melhorado muito, graças à contenção dos salários mas também ao desgaste inerente a uma atenção mediática permanente (sobretudo das redes sociais, óptimas a contar histórias que não têm nada a ver com a realidade), o que seria uma coisa positiva, caso não fosse, mais vezes do que o desejável, uma suspeita permanente.

5. Também é conveniente sabermos onde é que estamos. A economia corre bem, afastando um terreno fértil para o debate político. O PSD está a viver num limbo, que não recomenda insistir demasiado no passado recente. Há dias, passando numa livraria, deparei-me com o título do que creio ser o mais recente livro de João César das Neves e que fala por si: As Dez Questões do Colapso que Portugal Poderá Sofrer em 2016-2017. Talvez por isso, enquanto esperamos que a crise volte, deixámo-nos cair no debate público pendurado numa sucessão de palavras que, sabe-se lá por quê, todos repetimos e que vão mudando quase todos os dias. Passámos da Raríssimas, que não permitiu derrubar um ministro, ao pernil de porco, do pernil de porco ao financiamento dos partidos, do financiamento dos partidos para qualquer outra coisa que chegue amanhã de manhã. E já me esquecia da “reinvenção” do país que Marcelo nos recomendou como mote do ano que agora começa e que já toda a gente parece disposta a adoptar. Temos o dever de acompanhar a realidade, mas não precisamos de fazer de cada pequeno episódio uma guerra total, todos os dias.

6. Faz hoje um ano sobre o desaparecimento de Mário Soares. Uma das características que mais o distinguiu foi precisamente a sua enorme coragem política. É de coragem que a política precisa se quer estar à altura dos tempos de mudança em que vivemos. Precisamos de gente que dê a cara, como ele. Que diga a verdade sobre a crise das democracias, que tente inovar a forma como os partidos se organizam, que já não parece servir uma sociedade que deixou de estar dividida em classes, que é hoje muito mais fragmentada mas também mais qualificada e mais informada. A demagogia é o pior dos vícios da democracia, porque se apresenta com uma capa moralista, embora se sirva dos instintos mais primários de cada um de nós. Devemos exigir mais de nós próprios, quando temos como função exigir mais daqueles sobre os quais falamos e escrevemos.