Opinião

A fotografia perdida de um sorriso

João, filho de Mário Soares, recorda “os segundos” de “emocionada ternura” depois do beijo que deu ao pai num corredor da prisão de Caxias, contacto fugaz apenas autorizado pelos guardas porque era o dia em que fazia 13 anos.

Em Lisboa, durante a campanha para as presidenciais de 1986
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Em Lisboa, durante a campanha para as presidenciais de 1986 Alfredo Cunha

Um ano.

Faz hoje, 7 de Janeiro, um ano que o meu pai, Mário Soares, morreu. No Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Onde, um ano e meio antes, a 7 de Julho, tinha morrido a minha mãe, Maria Barroso. Sua mulher, companheira solidária, durante 66 anos. Morreu, morreram ambos, rodeados pela ternura, e solidariedade indefectível, de filhos e netos. E também de amigos e outros familiares que apareceram durante esses dias finais, exprimindo a sua amizade por eles.

Os últimos três anos da sua vida, depois da encefalite que quase lhe provocou a morte, foram difíceis. Para ele, e para nós filhos e netos, que sempre, diariamente, o acompanhámos. A morte da minha mãe agravou a sua debilidade. Sinto que a ideia de a sua própria morte ser possível só se lhe tornou nítida depois de confrontado com a doença grave que o acometeu. O meu pai foi sempre um símbolo e um exemplo admirável de alegria de viver. De amor à vida, e às coisas boas da vida. Diria mesmo, único.

Nas circunstâncias mais adversas de um quadro sombrio de ditadura, que, como sublinhou Manuel Alegre, dominou a maior parte dos seus 92 anos de vida, Mário Soares foi sempre um exemplo de optimismo e confiança indestrutíveis. Por isso resistiu, como muito poucos, aos longos anos retrógrados que oprimiram a nossa terra.

Deixou, sobre esses tempos, um testemunho único. De alguém simultaneamente protagonista e narrador da história. Rasgou a mordaça que silenciava Portugal. Essa sua fibra marcou, também, de uma forma impressiva, para o bem, e algumas poucas vezes para o menos bem, a sua vida, depois do 25 de Abril.

Tinha uma cultura, inteligência e sensibilidade raras. Mas também uma coragem física, intelectual e política absolutamente únicas. A sua vida prova-o de uma forma admirável. A Isabel e eu, seus filhos, fomos testemunhas, próximas, dessas qualidades que o distinguiam e nos marcaram também a nós, muito. Parte delas, é justo que se sublinhe, vinham do seu pai, nosso avô paterno, João Soares. Um grande pedagogo, um homem de carácter e coragem excepcionais. Que o educou, formou e que o adorava.

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Família Soares Alfredo Cunha/Luís Vasconcelos

A sua mulher, nossa mãe, Maria Barroso, foi sempre um esteio afectivo de inteligência, beleza e dignidade, únicos, a seu lado. Sem o mais pequeno sobressalto relevante. Mas é importante sublinhar que o meu pai potenciou e valorizou esse ambiente, e as qualidades transmitidas por seus pais. Nas amizades que soube manter e criar, com portugueses ilustres que marcaram essa época. Todos, sem excepção, opositores da ditadura. Era um homem com amigos, muitos amigos e muitos bons amigos. Amigos que encheram, sempre, a nossa casa e nalguns casos fizeram o pleno de três gerações. Na casa do Campo Grande, a cozinha do Colégio, onde então havia internato, provinha ao sustento de quem a mais aparecesse para almoçar ou jantar. O meu pai foi sempre fiel às suas amizades, nos bons e nos maus momentos. Foi também um homem de família, profundamente ligado aos seus mais próximos. Nos últimos dias de vida, com uma consciência muito débil do que se passava à sua volta, nunca deixou de reconhecer aqueles que lhe eram mais próximos. Recordo com tristeza embevecida e ternura o carinho que teve com sua neta mais nova, nove anos na altura, quando ela, comigo, o visitou. Num dos últimos dias em casa, antes de ir para o hospital.

A Isabel e eu testemunhámos publicamente, várias vezes, muitos momentos marcantes da sua vida que acompanhámos de perto. Mas importa procurar deixar, em textos como este, que me foi pedido pelo PÚBLICO, alguma história que tenhamos vivido.

Recordo dois ou três desses momentos que me marcaram e marcam.

A forma como nos contou a prisão que sofreu, depois da tentativa revolucionária de Beja, e a tortura do sono a que foi submetido, por vários dias e noites pelos esbirros da PIDE. Queriam saber onde estava Piteira Santos. Que, entretanto, deu sinal público de que tinha conseguido chegar, salvo erro a Marrocos. Enquanto não o souberam, os pides não o deixaram dormir. Ele sabia onde estava Piteira Santos. Tinha-o apoiado nos dias que antecederam a sua prisão. Mas não lhes disse nada, rigorosamente nada. Ele relatou-nos esses dias de tortura de uma forma serena, com um orgulho tranquilo. Sublinhando os pormenores ridículos no comportamento dos esbirros. Como noutras das suas mais de dez prisões. Lembro-me de Salgado Zenha dizer, várias vezes, que, quando a direcção do MUD Juvenil foi toda presa, quase só eles dois não falaram à polícia.

No dia em que fiz 13 anos, ele estava preso, em Caxias. Salvo erro por causa do Programa para a Democratização da República, em que teve, com Zenha, um papel muito relevante. Ele foi, desses presos então, o que passou mais tempo no Aljube, e depois em Caxias.

Já estava em Caxias nesse dia em que fiz anos. A pedido do meu avô, com mais de 80 anos, também já várias vezes preso, deixaram-me a mim, só a mim, miúdo que fazia anos, dar-lhe um beijo no corredor de acesso dos presos ao parlatório. Guardo desses segundos uma memória de emocionada ternura. E da alegria que esse momento lhe deu, também a ele.

Recordo depois já em 1968, quando foi libertado por poucos dias, antes de ser novamente preso, e depois deportado para São Tomé, a sua chegada inesperada, de táxi, a casa na Rua de Malpique. E o sorriso com que nos abraçou a todos, na rua, antes de pagarmos o táxi. A Isabel fotografou esse momento, eu não sei onde está essa fotografia, mas hei-de encontrá-la, porque ela mostra bem, nesse sorriso, a fibra excepcional de que era feito o nosso pai.

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Alfredo Cunha

Recordo também os momentos que a Isabel, o Eduardo, e eu vivemos a seu lado em Itália. Quando tínhamos ido ter com ele, e lhe demos a notícia de que tinha morrido o seu pai, nosso avô. De como, imediatamente, decidiu voltar a Portugal nessa noite. Com a perspectiva de uma prisão logo à chegada. Estávamos no Verão de 1970. Os pides, provavelmente por ordem do ditador Marcelo Caetano, deixaram-no entrar e assistir ao funeral. No dia a seguir, Pereira de Carvalho, um dos cérebros mais temíveis da PIDE, telefonou-lhe a propor um encontro num café. O meu pai recusou. Disse-lhe que ou o prendia ou o convocava formalmente a apresentar-se na sede da António Maria Cardoso. O que o esbirro fez. Dando-lhe, então, estava-se já no fim da manhã, até à noite desse dia para sair do país. Recordo a pequena reunião de amigos que chamou a nossa casa nesse inicio de tarde. Zenha, Gustavo Soromenho, Magalhães Godinho, Rego, Catanho de Menezes. Para decidir se saía, ou ia, mais uma vez, a 14.ª vez, para a prisão. Houve, entre os presentes, quem se pronunciasse nos dois sentidos. Ele, encarando sempre com firme serenidade a hipótese de nova prisão, optou por sair. Acompanhado, no carro, pela minha mãe, a minha irmã e eu. Estava claramente apostado em terminar o Portugal Amordaçado e em fundar o Partido Socialista.

Revelou nessa decisão, mais uma vez, a sua firmeza, sensibilidade, inteligência e sentido do tempo e da hora.

Há um ano, nos Jerónimos deixei-lhe, em público, um enternecido adeus.

Tenho muitas saudades do meu querido pai.

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