Fotogaleria
Nik Wheeler/Getty Images
Fotogaleria
Supahnat Wongsanuphat/Getty Images
Fotogaleria
Fernando Borges
Fotogaleria
Fernando Borges
Fotogaleria
Getty Images

O Nilo e o mais belo pôr do sol da história

De Luxor a Assuão navegamos em história líquida, com vista para a história pétrea. Os templos avassalam-nos, as divindades confundem-nos, os mistérios deslumbram-nos e a faixa verdejante que rasga o ocre do deserto conquista-nos. No Vale do Nilo somos intemporais.

Há um momento de felicidade (e incredulidade) quando vivemos o primeiro final de tarde, o sol a afundar-se e a tingir o céu de laranja, uma explosão controlada sobre os montes ocre, e a carregar de excessos technicolor o verde das margens desenhadas a palmeiras. Algo de atemporal emana da paisagem que desfila lentamente perante os nossos olhos; nós na primeira fila de uma história sem tempo, a de um rio que dá vida a um deserto, a de um rio que deu vida a impérios, a de impérios que ainda dão vida à imaginação. Não, não surpreende, Rehab, saber que Cleópatra e Marco António passaram dois anos a subir e a descer o Nilo, de Alexandria a Assuão, Baixo e Alto Egipto.

A bordo de um dos muitos barcos-hotel que sulcam o Nilo, com turistas holandeses, espanhóis, sul-americanos, contemplamos o horizonte sempre apertado e caímos na tentação de imaginar que muito do que vemos não andará tão longe do que viu o casal, há mais de dois mil anos, o Antigo Egipto caminhava para a sua queda, Roma preparava-se para o império: deserto e oásis, aldeias, vilas, cidades, pequenos templos e altares escavados nas rochas, crianças a mergulhar, mulheres a lavar, homens encostados aos parapeitos do rio, búfalos (asiáticos) e burros a beber água. E, logo, as intromissões: carros, camiões, comboios, motos e bicicletas são novidade, as oclusas teriam sido bem-vindas para melhor controlar o antes imprevisível Nilo e os minaretes eram algo que os faraós, politeístas com excepção de uns poucos “hereges” adoradores de Aton, não conceberiam. Os vendedores que surgem em pequenos barcos a remos não se atreveriam a atirar mercadoria para os barcos reais, mas o movimento no Nilo doutros tempos até terá sido mais intenso — era a auto-estrada do reino, via de comunicação e de transporte, de comércio e de pesca, percorrida por reis e peregrinos.

Nós somos os novos peregrinos, já não devotos religiosos, mas devotos da história (ou apenas de um cruzeiro ao sol), parando nos mesmos santuários de outrora, colossos que resistiram durante milénios a invasões, queda em desgraça (e esquecimento) de deuses, ocupações, revoluções. Tem sido assim desde que Thomas Cook, no século XIX, inaugurou esta espécie de “regresso ao Egipto” com a organização dos primeiros cruzeiros no Nilo, animado, certamente, pelo mesmo espírito com que, mais de dois mil anos antes, Heródoto, historiador e viajante grego, havia afirmado “Quem não viu o Egipto não viu o mundo” — afinal, já gregos e romanos chegavam a estas paragens para contemplar a grandeza do mundo faraónico, turistas antes do turismo.

O mundo mudou, os viajantes também, mas nós embarcamos, como milhões antes de nós, Nilo acima, numa madrugada de Setembro em busca do mistério, dos mitos e do encantamento que o Antigo Egipto nos legou. Sim, Tutankhamon à cabeça mais a maldição que se abateu sobre os descobridores (profanadores?) do seu túmulo; os lânguidos amanheceres e entardeceres no deserto; as falucas a deslizarem de velas enfunadas; a história da pedra de Roseta e da decifração das palavras feitas arte; o resgate de templos das águas do Nilo; um panteão complexo onde o bem e o mal se misturam. Percorremos quase cinco milénios de história e temos relances mais além. Vamos de Luxor (antiga Tebas, capital no Império Novo) até Assuão, 210 quilómetros apenas na enormidade que é o Nilo (o rio mais comprido do mundo, cerca de 6650 quilómetros desde o interior de África até ao Mediterrâneo, de Sul para Norte), mas provavelmente os mais transitados pelo turismo. Entranhamo-nos no mítico Alto Egipto para descobrir o esplendor do Antigo Egipto: são cinco dias de maravilhas — sem igual.

PÚBLICO -
Foto
Fernando Borges

O maior museu a céu aberto do mundo

Chegamos a Luxor de madrugada, depois de um longo dia que começa em Portugal, faz escala em Madrid e atrasa-se Cairo. O MS Amarco I será o nosso hotel flutuante durante quatro noites (porque vamos contra-corrente; o percurso inverso, Assuão-Luxor, leva apenas três noites a cumprir): já foi o melhor navio de cruzeiro do Nilo, em 2004, um ano depois da sua estreia, entretanto, foi remodelado, em 2015, e chega até hoje bem conservado. Com a vantagem, dizemos nós, de ter apenas 51 camarotes, menos do que os mais modernos (entre 100 e 150), o que empresta tranquilidade na vida a bordo; de resto, bares, discoteca, restaurante, pequeno spa, piscina e até loja (chamam-lhe bazar) fazem parte da oferta. Se o exterior, branco e azul, é todo náutico nos motivos, o interior é mais conservador, de madeiras escuras e dourados q.b. — a grande surpresa é a cabina onde ficamos, uma standard, confortável e inesperadamente espaçosa. São cinco decks, nós estamos no terceiro e despertamos virados para o cais.

A noite é curta. Como serão, aliás, todas as noites a bordo. Um cruzeiro pelo Nilo pode ser “duro”. É que madrugar (ou mesmo “pré-madrugar”) é imperativo para se poder visitar os templos antes que o calor se torne (mesmo) insuportável — não é à toa que o Verão é a temporada baixa no Egipto: este é um destino de Inverno, o de cá e o de lá. É, então, manhã bem cedo quando saímos do barco para conhecer a cidade a que chamam “o maior museu a céu aberto do mundo”. Em Luxor, a vida e a morte ocupam cada uma a sua margem do rio. Na ocidental, o Vale dos Reis e o Vale das Rainhas, necrópoles que são territórios de sonho de arqueólogos, espaço onde a imaginação de amadores anda à solta — quem não gostaria de “tropeçar” no túmulo de Nefertiti, por exemplo? Tantos dos tesouros egípcios, exibidos no Museu do Cairo e noutros por todo o mundo, vieram daqui, onde os túmulos do poderoso Ramsés II, do seu pai, Seti I (com fama de ser o mais belo do vale) ou do “pop” Tuthankamon (o único encontrado intacto e, portanto, rastilho do fascínio universal pelo rei-menino) podem ser visitados sob a tutela dos colossos de Memnón (as estátuas de 18 metros de Amenófis III). 

E os vales são um bom pretexto para nós voltarmos ao Nilo, já que como perdemos o primeiro dia do cruzeiro tivemos de fazer opções. A margem ocidental, mais distante, prosseguirá envolta nos seus mistérios, porque é na cidade que ficamos. Luxor pode ser a encruzilhada onde os deuses e os mortos se encontram, mas quando saímos do barco é vida (profana) que nos espera. O cais tem acesso limitado, porém, no longo passeio acima, elegantes varandins e candeeiros de ferro forjado e robustas palmeiras, vendedores, fotógrafos e caleches amontoam-se à espera de turistas.

Não vamos de caleche, vamos de minibus, mas poderíamos caminhar. O templo de Luxor, primeira paragem, fica a algumas centenas de metros do cais, também na Corniche do Nilo. No meio da cidade, portanto, as ruínas da antiga civilização perante uma quase indiferença dos locais e o deslumbramento dos visitantes, que a tornam uma autêntica meca para o turismo — se bem que este ainda não tenha recuperado da quebra brutal que sofreu em consequência da turbulência política do país e dos cíclicos atentados terroristas. Prova disso é a apertada segurança — da polícia e detectores de metais na entrada dos principais monumentos às escoltas policiais de autocarros turísticos; consequência disso é a redução de visitantes — mau para a economia, uma bênção para os turistas.

Sentimo-nos imediatamente pequenos quando transpomos a recepção do Templo de Luxor — e será um sentimento recorrente no Vale do Nilo. Na esplanada, as paredes do templo de 3400 anos parecem muralhas, ainda que o pilone (o pórtico característico dos monumentos egípcios: porta colossal ladeada por duas torres maciças) esteja delapidado. Ramsés II flanqueia-o, sentado em monumental impavidez, contudo a “companhia” está mutilada ou ausente (e a ausência mais marcante é o segundo “obelisco de Luxor”, que se encontra na Praça da Concórdia, em Paris). Quando transpomos o que foi a porta e caminhamos entre os exageros de colunatas, que abrem praças e fecham-se em corredores, são os pormenores que retêm a atenção, com os baixos relevos e hieróglifos a ganharem vida, emergindo das pedras com uma nitidez penetrante — e na chamada colunata de Amenófis III é Rehab Sameer, a representante do Ministério do Turismo que nos acompanha, quem nos chama a atenção para os capitéis “em forma de papiro aberto”. Nas salas sagradas, ainda com tecto, do complexo, várias mulheres se concentram no minucioso trabalho de limpeza de hieróglifos, alguns ainda pintados nas cores originais. Não podemos tocar as pedras, “as mãos sujam”, mas houve quem deixasse o seu nome gravado nos santuários dedicados à “santa trindade” de Tebas, Amon, o deus maior, o criador do universo, Mut, a sua mulher, e Khonsu, o seu filho.

A mitologia egípcia confunde-nos, mas confirmámos posteriormente o que ouvimos do guia que, como (quase) todos, é egitpólogo (com licenciatura e muitas vezes doutoramento): uma vez por ano, no festival Opet (que os muçulmanos assinalam como Abu Haggag, dia de desfile de barcos), Amon chegava ao templo para o ritual de fertilidade com Mut. E vinha do vizinho templo de Karnak, o mais grandioso de Luxor, do Egipto, talvez do mundo, pela longa avenida de esfinges que segue pela beira-Nilo, como o leito de um rio sem água, sob pontes, entre prédios. Por estes dias decorre um grande trabalho para recuperar todo o corredor, parte dele ainda enterrado, no que é “um dos maiores projectos” da Luxor. Junto ao templo já se contam em muitas dezenas as esfinges descobertas, algumas mais corroídas pelas outras, e é fácil imaginar a grandiosidade original.

Não percorremos a pé os 2,4 quilómetros que separam os dois templos em linha recta, fazemos mais alguns de carro. Depois da recepção serão mais dez, 15 minutos a caminhar até à entrada do templo. Em redor, as casas e prédios de cores esbatidas da cidade moderna; o colosso vai desvendando a sua grandeza à medida que nos adiantamos na enorme esplanada até um segundo controlo de segurança. Aqui já estamos em confronto directo com uma espécie de cidadela (à beira deste, o pilone do templo de Luxor é um “anão”), pois é com esse rosto que se apresenta o templo de Karnak, casa de Amon, local onde, acredita-se, começou a ser venerado e se tornou o deus mais importante da mitologia egípcia.

Trinta faraós contribuíram para a construção de Karnak, que, mais do que um complexo religioso, representa também a aliança entre o monarca e Amon — este, o governante supremo do universo, o primeiro, o governante supremo da terra. Entre a glorificação religiosa e a tentação de eternizar o seu nome, os faraós não pouparam esforços ao longo de dois mil anos (entre 2040 a.C. e 30 a.C.), ainda que a maioria, e os mais imponentes, dos edifícios, entre templos, capelas, obeliscos, unidos por pátios, vestíbulos e corredores monumentais, tenham sido construídos durante o Império Novo — desde a construção da grande pirâmide de Gizé (2566 a.C.), o Egipto não via uma obra tão excessiva.

Desta, chegaram até nós cerca de 1,2 km2 divididos em quatro recintos dos quais apenas o dedicado a Ámon-Rá está aberto ao público. Acreditamos ser o mais grandioso — o que poderá superar o chamado grande salão hipostolio? O que aí vemos tira-nos o fôlego, sobrecarga os sentidos, confunde a visão: é uma floresta pétrea de colunas (134) geometricamente alinhadas, imensas em altura e largura, algumas ainda segurando as maciças traves (pedra) do telhado. Percorremos o corredor central como se estivéssemos num desfiladeiro; esquecemos o tempo entre as colunas onde os hieróglifos ainda contam histórias que não deciframos; imaginamos como terá sido este cenário pintado. Tão esmagador que o facto de “três catedrais de Notre Dame”, como ouvimos, aqui caberem nos deixa na mesma. Sem medida.

A perplexidade em Karnak segue labiríntica entre as ruínas mais ou menos conservadas. Sucedem-se capelas e templos — num deles os relevos parecem ter sido agora terminados —, passamos o obelisco de Hatshepsut (a primeira rainha-faraó), por todo o lado colunas solitárias, partidas, tombadas, paredes derrubadas, estátuas de deuses que representam faraós e estátuas de faraós em trajes régios e chegamos ao lago cerimonial. Aqui fazem-se filas para dar voltas a um escaravelho pétreo que representa o sol nascente e que concede desejos — já que estamos aqui, damos as sete voltas rituais. Ritualística foi também a construção, pelo menos, das entradas do complexo-manta-de-retalhos: estavam alinhadas com o nascer e pôr do sol nos solstícios de Verão e Inverno.

De Luxor além Tebas não vivemos muito. Percorremos as ruas cheia de carros, táxis brancos e azuis, as omnipresentes caleches, mulheres passam entre o trânsito com sacos à cabeça, os homens desfilam quase sempre de djellaba (a típica túnica comprida e larga), os mais velhos com o turbante. Mesquitas, igrejas protestantes, lojas de tudo, cafés e pequenas esplanadas com homens a fumar shishas, e o souk encontramo-lo quase deserto num emaranhado de ruas, com cobertura de madeira. Ainda não é meio-dia e no Verão é à noite que os mercados ganham vida, por isso circulamos mais desafogados que nunca entre as lojas que vão desde os souvenirs às livrarias, sem esquecer especiarias, roupa, fruta, latoaria... E somos arrastados daqui porque o barco não espera.

De Edfu a Kom Ombo

À nossa espera estão “as tardes” no barco. Se as manhãs são “duras”, as tardes são o seu revés, relaxadas, a navegar. A nossa aprendizagem destes ritmos começa logo neste primeiro dia — e à tarde estendemo-nos numa espreguiçadeira à beira da piscina com um livro na mão. Contudo, em pouco tempo rendemo-nos às evidências: o livro não avança, pois é a paisagem que lemos, em todas as suas minudências. É impossível concentrarmo-nos em algo mais, tal o sortilégio dessas tardes que terminam em longos pores do sol (talvez os mais belos que vimos) nas montanhas do deserto — são pescadores em barcos de remos, as crianças que acenam, as mulheres que passam em grupo levando trouxas à cabeça, os bandos de pássaros que pousam na água e se soltam em revoadas, as povoações brancas e ocres que desfilam. Primeiro, com um brilho dourado ténue que se vai carregando até toda a faixa tropical do deserto ser apenas um conjunto de sombras negras contra o laranja do sol a despedir-se do dia. E quando se escutam os muezzins chamar à oração é como se estivéssemos suspensos num tempo e lugar mágicos. Só agora o percebemos e aqui o assumimos: fomos enfeitiçados pelo Nilo.

Em Esna fazemos tempo para entrar na eclusa, mas não saímos do barco. Vemos como o anoitecer transforma a cidade, desperta-a, enchendo-a de luz e som. É um espectáculo diferente, as noites vividas no Nilo: navegamos entre a música que chega forte ou abafada ao ritmo da largura do rio, as luzes que brilham nas margens, desde os minaretes abraçados por fitas de néon ao festival colorido de parques de carrosséis (cada cidade parece ter um), e a escuridão que tem nos contornos das palmeiras sentinelas silenciosas.

É em Edfu que amanhecemos e desta vez é de caleche que nos deslocamos. O destino é o templo dedicado a Hórus, o deus falcão — o “olho de Hórus” é um dos amuletos mais populares no país, encontra-se em vários materiais e, pelo sim, pelo não, trouxemos um na mala. Este cruzeiro é um curso intensivo de divindades (e dinastias) egípcias e, depois de Ámon-Rá, Hórus é o “deus do dia”, chamemos-lhe assim. Vamos vê-lo aqui e à tarde em Komb Omb (aí a dividir o protagonismo, lá chegaremos), então, abramos um parêntesis breve para contar a sua história, a da “família divina” do Antigo Egipto. Como em todos os mitos os pormenores confundem-se, mas, em traços gerais, Hórus é o produto de um grande amor, o protagonista de uma grande vingança e a encarnação de um poder ilimitado — onde é que já ouvimos isto?

Osíris apaixonou-se pela irmã Ísis (o incesto era comum no panteão egípcio, para manter o sangue puro), casaram-se com a bênção de Rá, mas os ciúmes do irmão mais velho, Set, levaram-no a assassinar Osíris, desmembrá-lo e espalhar cada pedaço por todo o Egipto. Isís passou anos a juntar os seus pedaços, o seu amor deu-lhes vida brevemente e Hórus foi concebido. Este, para vingar a morte do pai e governar todo o Egipto, mata Set e assume-se como rei do Egipto — o faraó era a representação de Hórus na terra.

PÚBLICO -
DR

E o templo Edfu simboliza a vitória de Hórus e o pacto deste com o povo egípcio, seu protegido. O bem e o mal, a vida e a morte no mais bem conservado templo egípcio, que emerge como uma fortaleza parda, extraída dos montes em volta, com casas encavalitadas. Mas quando estamos perante os gigantescos pilones (36 metros) e as ruínas adjacentes sentimo-nos como no meio do deserto acabados de fazer uma grande descoberta, não importa a multidão de turistas em volta. A área do templo, onde Hórus nos recebe em duas estátuas de granito negro, é modesta quando comparada com o que vimos em Luxor e, aliás, dois mil anos nos separam do dia anterior: este é um templo ptolomaico, a última dinastia egípcia, com acrescentos romanos. E a influência dos “gregos” ptolomeus é visível nas figuras, que agora mostram a beleza do corpo, aponta Rehab. Por outro lado, a arquitectura perde a sua (aparente) insustentável leveza, com muitas das colunas, por exemplo, a serem apoiadas em muros, ao contrário das mais antigas, ainda que tenham mais motivos decorativos: ao papiro que já havíamos visto, junta-se o lótus, por exemplo, e macacos a bater palmas — “eram os primeiros a saudar o nascer do sol”.

E o sol quando nascia reflectia no interior do templo, que se desembrulha num corredor-rampa atravessando salas cada vez mais pequenas (como se estivéssemos no interior de uma pirâmide) até ao altar, onde se perdeu a estátua de Hórus mas se mantém o barco, o seu meio de transporte eleito. Com o vaivém de gente que quer fotografar o barco, afastamo-nos para câmaras mais pequenas e numa vemos ainda as estrelas pintadas no tecto. Sobreviveu por protecção divina, atrevemo-nos. Outros tectos estão negros, sobretudo nas primeiras salas, e isso é efeito da posteridade: quando o templo foi abandonado, a areia do deserto foi reclamando o seu espaço, e as pessoas que procuravam abrigo tinham de subir as “dunas” no interior, ficando bem perto do tecto que escureceu pelas fogueiras que se acendiam. Claro que já não eram devotos, o panteão egípcio não sobreviveu e as imagens riscadas que vemos são eloquentes: “No início da cristandade as pessoas acreditavam que espíritos maus habitavam as figuras”, explica Rehab. Não sabemos por que riscavam umas e não outras, mas agradecemos quando encontramos um pátio estreito e comprido com paredes que parecem tapeçarias gravadas em pedra, mas na verdade são um gigantesco livro ilustrado, milhares de hieróglifos e imagens, um enigma cativante. Nas paredes externas são figuras gigantescas que contam histórias de encontros de Hórus e Hator — mas isso saberemos depois, por agora vemos como servem de pano de fundo para fotografias ao estilo walk like an egyptian.

Seguimos com Hórus, que matou Set; porém, em Kom Ombo está condenado a coexistir com um seu vassalo, Kobek, o deus crocodilo. Não vimos nenhum crocodilo no Nilo (e até mergulhámos nele), mas o deus crocodilo não perde o rio de vista, empoleirado que está o templo numa colina tão perto deste que ainda existe um “nilómetro”.

Tem uma localização fabulosa, portanto, este templo singular, uma espécie de dois-em-um, de um lado o bem, Hórus, do outro o mal, Kobek. É perfeitamente simétrico, muito mais pequeno do que os outros, mais gracioso na fachada onde o pórtico com claras influências greco-romanas se sobrepõe bastante aos pilones. Está também bastante mais arruinado, não fosse um sobrevivente de vários terramotos, o que nos liberta da sensação de subjugação perante a arquitectura e permite determo-nos mais na arte — continuamos na era ptolomaica e até nos deparamos com uma imagem de Cleópatra VII (sim, “a” Cleópatra que sempre imaginamos com o rosto de Elizabeth Taylor).

Os baixos-relevo de Hórus e Sobek nas colunas (algumas ainda com cor) parecem ter vida, os instrumentos cirúrgicos esculpidos nas paredes surpreendem, o calendário é uma maravilha alegórica onde as estações se distinguem por serem de cheias, de não cheias e de colheitas, e os animais, magros ou gordos, são os protagonistas, as imagens femininas são um tratado sobre a moda da época, desde o lenço sobre os ombros à cosmética. Caminhamos entre a simbologia da luta do bem contra o mal, tantas vezes representados por animais — “Os antigos egípcios acreditavam que os animais canalizavam os deuses. Se gostavam, representava um deus bom, se não, um mau” — e entre o céu e o rio — o céu nos restos do tecto, o rio na parte de baixo das paredes, os eventos diários, como o rei a pedir graças ou a fazer oferta aos deuses entre ambos. Detemo-nos num crocodilo mumificado e terminamos a olhar Roma, em estátuas sem cabeça. E quando nos preparamos para caminhar até ao navio, um pôr do sol cinematográfico entre as ruínas surpreende-nos. Avassalador.

No deserto com Ramsés II

Adormecemos já na cidade mais a sul do país, Assuão, nome talvez mais conhecido por ter emprestado o nome à famosa barragem que “domesticou” o Nilo e os seus caprichos que acabavam invariavelmente em terríveis inundações. E acordamos pouco depois, é dia de pré-madrugar para nos embrenharmos no deserto, até às margens do artificial lago Nasser. É aí que se ergue Abu Simbel. “Em dias claros vê-se o Sudão”, há-de dizer-nos um dos funcionários. São 40 quilómetros até à fronteira, 300 quilómetros desde Assuão. “Por que razão veio o rei para aqui?” é a pergunta em todas as cabeças, que Rehab verbaliza. O rei é o grande Ramsés II, um dos nomes mais escutados nesta viagem.

Assuão está adormecida e nós quase, quando partimos em direcção ao grande nada. Percebemos que há pontos de controlo nas estradas e os carros de segurança vão-se sucedendo, como se fôssemos o testemunho passado numa estafeta. A escolta policial, que para nós foi constante em toda a viagem no Egipto (afinal, íamos na comitiva Miss Portuguesa), é obrigatória para autocarros turísticos que vão para locais mais remotos, como Abu Simbel (ouvimos um diplomático “Cada país tem diferentes maneiras de mostrar que se preocupa com os seus turistas”, quando mencionamos a questão da segurança).

São 7h, o sol já morde quando novamente o Egipto nos volta a assoberbar. O mau-humor pela privação de sono dissipa-se quando nos vemos frente a frente com Ramsés II vezes quatro colossais estátuas do faraó sentado que vigiam a entrada do templo escavado na colina mirando os cinco mil quilómetros quadrados do lago Nasser. E ainda falta olhar para o lado, para a colina que acabámos de contornar — aí é o “modesto” templo, também como que apenas esculpido na rocha, que Ramsés construiu para a sua mulher preferida, a mítica Nerfertari, que se exibe em seis estátuas marciais (pé esquerdo à frente), quatro do faraó, duas da rainha, a emoldurar a pequena entrada. E que dizer do facto de ambos os templos terem sido desmontados e voltados a montar para escapar ao enchimento do lago? E ainda de terem sido remontados em colinas artificiais porque o templo principal está alinhado com o sol nos dias de aniversário e coroação de Ramsés? Foi um empreendimento quase tão grandioso como a sua construção original, realizado entre 1963 e 1966, com a contribuição de 50 países e tutela da UNESCO.

O interior dos templos é pequeno, mas precioso, por isso não se permitem tirar fotografias (o que não impede a organização Miss Portuguesa de o fazer, causando atritos com os seguranças locais). O principal, dedicado a Amón, Rá-Horakhty e Ptah tem a sala hipostila coberta de baixos relevos que relatam diversas batalhas travadas pelo faraó, num corredor vemos Amon Rá a “soprar” vida no rei, e na sala do altar, minúscula (só podemos ver de fora), alinham-se os três deuses e o rei — é aqui que sol incide nas datas especiais, deixando fora da luz Ptah, o deus da escuridão, do submundo. Uma parte do templo tem a decoração incompleta, o que permite ter ideia do método de trabalho dos artistas, dividindo a parede em grelhas, desenhando, esculpindo e terminando com a pintura — “Se alguém se enganava era o pânico, tinha de apelar aos deuses”, brinca (ou, provavelmente, não) Rehab. O templo menor é dedicado a Hator, deusa da beleza e do amor, e a rainha Nefertari tinha ambos de sobra. Esta obra, por si, é paradigma da devoção de Ramsés por ela (e poucas são as rainhas que mereceram tal honra), mas no altar ainda vemos o faraó a oferecer-lhe os órgãos, o que na simbologia egípcia significa amor; e a sua beleza, tal como a de Nefertiti, é lendária, as imagens que cobrem o seu túmulo, no Vale das Rainhas, provam-no à exaustão. Nas duas câmaras que constituem o templo, merece destaque um “segredo”: se iluminarmos a imagem de Ámon-Rá, vêem-se, todavia, os dourados que a cobrem.

Outros dourados vindos de Rá cobrem a paisagem desértica ferida pela água: para sul estende-se o território da Núbia e do lendário enclave cristão da Macúria, durante séculos resistente ao Islão e absorvido por este já no século XVI. A antiga civilização núbia vive há milénios no vale do Nilo em territórios que hoje são parte do Sul do Egipto e Norte do Sudão. No Egipto, são um dos grupos étnicos mais marginalizados, constantemente forçados a moverem-se das suas terras pela construção de barragens e albufeiras no Nilo, e, talvez por isso, a visita a uma aldeia núbia seja uma das excursões turísticas incontornáveis em Assuão. 

Vamos num pequeno barco, passando o templo Filas, um santuário à deusa Ísis que foi deslocado para uma ilha vizinha da original pela subida do caudal do rio. Entre os juncos e ervas altas, erguem-se as ruínas do que terá sido um dos últimos santuários pagãos a resistir ao cristianismo. Depois de Assuão, o Nilo não permite a navegação de navios cruzeiros: estreita-se em margens rochosas, povoa-se de ilhotas que às vezes apenas dão passagem a corredores aquáticos e aproxima-se das cataratas. Subimos o rio quase que como numa gincana e passamos pela sandy beach, onde dezenas de pessoas se banham. É a água mais limpa do Nilo, assevera Rehab. Nós acreditamos e pedimos para parar: a ideia era molhar os pés, mas acabamos a atirar-nos ao rio da cobertura do barco — e que refrescante é a água do Nilo.

Chegamos, portanto, ainda encharcados à aldeia que se avista colorida no topo de uma longa escadaria. É uma espécie de aldeia-museu e somos recebidos no que parece ser a casa principal — pelo menos não imaginamos que todas as casas tenham um crocodilo num tanque nem filhotes para serem manipulados por visitantes (os núbios são uma espécie de “encantadores” de crocodilos). Este está no pátio interior, coberto de areia e palha, do edifício simples pintado de azul forte e imagens do deserto. Várias gerações da família fazem as honras da casa, com chá de menta e pinturas de hena. Rehab só as faz aqui, nunca no Cairo, e nós seguimos-lhe o exemplo (pedimos as menos duradouras e estas desapareceram no período indicado).

A aldeia de terra batida sobe e desce ao ritmo das derivas topográficas desenhadas por arquitectura simples que por vezes surpreende com buganvílias a decorá-la. O comércio abunda, mas afastados do núcleo perto do cais quase não se vê, nem ouve, ninguém. Não deixa de ser melancólica, a visita, pensando como os núbios aqui habitam um simulacro do seu modo de vida tradicional para entreter turistas que se concentram num café-esplanada sobre o rio.

É outra esplanada que entretém Assuão, a corniche do Nilo, o (concorrido) passeio público da cidade. Nós também nos entretemos, ainda que não tenhamos visto as famosas pedreiras da região (de onde se extraía o granito rosa que construiu tantos templos do Antigo e Egipto e onde se encontra o obelisco que, a ser terminado, teria sido o maior do reino), o mosteiro copta (onde os peregrinos a Meca encontravam sempre alojamento) e uma multiplicidade de templos que vão do Império Novo ao império romano. Assim, observamos como pessoas de todas as idades afluem a este ponto de encontro, com árvores e bancos, e se deixam ficar em conversas com vista para as dezenas de barcos atracados em ambas as margens ou para a mansidão das falucas e dahabiyya a deslizarem sobre a água. Na rua, as caleches competem por atenção e espaço entre os carros. No entanto, não há pressas aqui, não parece haver muita pressa em Assuão. Nem mesmo no souk, local de bulício permanente no mundo árabe. Vamos ao final de tarde, noite já a cobrir as terras, e está cheio, sim, mas sem sobressaltos. Há quem vá em ritmo de passeio, quem esteja às compras, produtos egípcios misturam-se com africanos, os vendedores são insistentes apenas q.b., persegue-nos o cheiro a comida.

Diferentes odores encontramos no Palácio dos Perfumes Philae. Se pressentimos o cheiro do nosso perfume, não é por acaso. Os vendedores, pressurosos e atentos, perguntam-nos que perfume usamos e logo nos trazem a essência equivalente: por cada nome comercial, um nome árabe — entre os de faraós e rainhas, ficam o “segredo do deserto”, a “noite das arábias”, o “perfume de harém”, por exemplo, e respectivas “instruções de uso” — o “nosso” é mais prosaico, “esfinge” é a essência do perfume que usamos.

Contudo, não são esses cheiros engarrafados que reteremos. São as fragâncias que se misturam livres ao longo do vale do Nilo e não se conseguem isolar dos cenários. São, na verdade, sensações que conjuram todos os sentidos, numa sinestesia inelutável. É o Egipto que imaginámos dos livros a ganhar uma vida que é, afinal, muito melhor do que a nossa imaginação. No início da viagem queríamos voltar para visitar o Vale dos Reis, no final queremos voltar para ser novamente enfeitiçados. Pelo antigo Egipto no novo Egipto. Intemporais.

A Fugas viajou a convite da Autoridade de Turismo do Egipto integrada na comitiva Miss Portuguesa

Sugerir correcção