Tratar a morte como uma coisa viva, através das artes

Os brasileiros Jackeline Stefanski e Felipe Antunes apresentam este domingo no Espaço Espelho d’Água, em Lisboa, uma performance em torno da morte, Ela. Às 18h.

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A morte, como imagem, é frequente na vida PAULO PIMENTA
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Jackeline Stefanski numa das suas performances, Toca DR
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Felipe Antunes DR

Quem assistiu, em Dezembro, à apresentação em Belém, no Espaço Espelho d’Água, do cantor e compositor paulista Felipe Antunes já conhece parte da história. O disco a solo que ele ali apresentou, Lâmina, foi lançado em 2016 no Brasil, no SESC Pompeia, num espectáculo com direcção de Jackeline Stefanski, uma artista, produtora independente e investigadora que agora se junta a Felipe num novo projecto. Chamaram-lhe Ela. Uma forma de mencionar a morte. O espectáculo que prepararam juntos, resultado de uma residência artística no Espaço Espelho d’Água, mistura música, teatro, dança, literatura e audiovisuais e é apresentado domingo naquele espaço em Belém, Lisboa, às 18h.

“O projecto Ela nasceu de um interesse pessoal”, diz ao PÚBLICO Jackeline Stefanski, num intervalo dos ensaios. “Eu trabalho, entre outras coisas, num hospital pediátrico de São Paulo, num grupo que faz teatro no hospital. O meu contacto com a morte se dá aí de várias maneiras.” A sua pesquisa, diz, dividiu-a em três frentes complementares: “A primeira é Lá onde Ela não está, um lugar que nós entendemos como o do genocídio de povos negros, indígenas, de devastação ambiental, e, pressupondo que a morte é a etapa final do ciclo natural da vida, essas acções são do homem, não são naturais; a segunda seria Lá onde Ela se demora, justamente a partir desse meu contacto com hospitais, cemitérios, que é já a morada da morte, onde ela se sente à vontade e onde ela exerce a sua acção na vida; e, por último, Lá onde Ela goza, que parte de uma frase de Lacan, vendo a morte como uma possibilidade de elaboração simbólica e artística.”

“Como se ela não existisse”

A apresentação será a primeira parte de um work in progress, diz Jackeline: “A partir de imagens que eu gravo, audiovisuais, ele [Felipe] traz uma composição em piano, uma improvisação e a gente vai dialogando e somando. A vontade é que a gente desenvolva também um espectáculo teatral ou até um álbum, em diálogo com outros artistas.”

Várias obras e autores foram usados na pesquisa para a construção de Ela: Hilda Hilst (“a poesia, com temas como desejo, morte, noite”), Abdias do Nascimento (o livro O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado), George Bataille (“na linha do erotismo”) ou Alan Moore (A Voz do Fogo). Jackeline destaca, deste último livro, um conto onde “ele escreve da maneira como ele imagina que seria a descoberta da linguagem, muitos anos antes de Cristo, na fala, na escrita, nos símbolos.” E isso reflecte-se no processo criativo de Ela: “Como a gente tem pesquisado a morte personificada, a gente também tem entendido ela como uma figura que tem curiosidade pela linguagem e pelas elaborações humanas, pelo raciocínio.”

Mas as referências que Ela convoca não são apenas literárias. Felipe aponta, por exemplo, a série televisiva Cosmos, criada por Carl Sagan. “Foi muito importante, porque nós temos tentado metaforizar a morte no cosmos, no universo. Tudo vindo do mesmo lugar, tudo indo para o mesmo lugar, tudo se transformando. Quase como se morte não existisse.”

“Não tenho medo da morte”

Há mais referências: a fotografia de Man Ray, por exemplo. Ou a dança, expressa em movimentos adequados ao tema e à performance. Há improvisos ao piano e há também uma canção nova, a primeira composta por Felipe e Jackeline juntos, e uma parceria em composição, num outro tema, com o rapper brasileiro Xis (Marcelo Santos, de São Paulo). Na performance participa ainda, improvisando, o violoncelista holandês Tjalle Rens, com o qual Felipe Antunes está a gravar um disco em Portugal, em Almada.

Quando Jackeline falou pela primeira vez a Felipe do projecto em torno da morte, ele recorda-se que lhe mostrou uma canção: “É uma música de que eu gosto muito, Não tenho medo da morte, do Gilberto Gil. Há uma versão ao vivo, linda, muito forte.” Começa assim, a canção: “Não tenho medo da morte/ mas sim medo de morrer/ qual seria a diferença/ você há de perguntar/ é que a morte já é depois/ que eu deixar de respirar/ morrer ainda é aqui/ na vida, no sol, no ar.” Pois é na vida que Ela se encontra. Este domingo, na performance de Jackeline e Felipe, para começar corajosamente o ano.