Os corais de todo o mundo estão a morrer a um ritmo inédito

Pela primeira vez, os cientistas analisaram a frequência do fenómeno de branqueamento de corais em 54 países nos últimos 40 anos. É agora cinco vezes mais frequente do que no início dos anos 80.

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Imagem aérea do Norte da Grande Barreira de Coral, na Austrália Centro de Excelência para o Estudo dos Recifes de Coral/Terry Hughes

Um dos ecossistemas mais ameaçados pelas alterações climáticas são os recifes de coral. Nos últimos tempos, têm sido muitas as notícias que nos chegam por estarem a perder a cor que tanto os caracteriza. A edição desta semana da revista científica Science volta a alertar para a gravidade deste fenómeno: os cientistas concluíram que o fenómeno de branqueamento é agora quase cinco vezes mais frequente do que há quatro décadas, passando assim de apenas uma ocorrência a cada 25 a 30 anos no início dos anos 80 para uma ocorrência a cada 5,9 anos em 2016.

O branqueamento de corais acontece quando a água do mar aquece mais do que seria de esperar. Depois, as algas que vivem em simbiose com os corais (e lhes dão cor) começam a produzir substâncias tóxicas e deixam de fazer a fotossíntese. Os corais expulsam assim as algas e a cor esbranquiçada do seu esqueleto fica visível. Este fenómeno, além de deixar os corais esbranquiçados, também os pode levar à morte. Se a temperatura baixar, os corais que tenham passado por um branqueamento moderado ainda podem sobreviver. Caso isso não aconteça, podem mesmo morrer.

Uma das imagens mais fortes que temos do branqueamento dos corais é na Grande Barreira de Coral – um ecossistema com 3000 recifes e 900 ilhas, que se estende por cerca de 2400 quilómetros da costa Leste da Austrália. A Grande Barreira de Coral já passou por quatro branqueamentos em massa: em 1998, 2002, 2016 e em 2017.

Agora, pela primeira vez, os cientistas analisaram os registos de branqueamento de corais em 100 locais de 54 países entre 1980 e 2016. Observaram então que o risco de fenómenos de branqueamento, e em particular de casos graves, aumentou cerca de 4% em cada ano desde 1980. “O tempo médio do retorno de fenómenos de branqueamentos graves tem tido uma redução constante desde 1980 e agora é de apenas seis anos”, lê-se no artigo científico. Os investigadores olharam ainda só para os dados de 2015 e 2016 e perceberam que mais de 30% dos episódios de branqueamento desses dois anos são considerados “graves”.

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Diferença entre um coral branqueado e outro saudável na Grande Barreira de Coral Laura Richardson/ARC

E onde é que os corais branquearam mais? Se nos primeiros anos desta análise o branqueamento era mais frequente nas regiões do Atlântico Oeste (que começou a aquecer), ao longo do tempo a frequência de branqueamento aumentou bastante na Australásia (que inclui a Austrália) e no Médio Oriente.

Como as alterações climáticas têm progredido e o planeta aquece cada vez mais, os cientistas destacam que hoje a temperatura das águas tropicais à superfície é mais alta, mesmo quando ocorre o fenómeno de La Niña, em que as temperaturas do oceano são invulgarmente baixas no Pacífico equatorial. E ainda referem que o El Niño – transporte de uma massa de água quente desde a Austrália até às costas da América do Sul –é um dos grandes responsáveis pelo branqueamento de corais e poderá tornar este fenómeno ainda mais frequente nas próximas décadas.

“O branqueamento de corais é uma resposta ao stress causado pela exposição dos recifes às elevadas temperaturas oceânicas”, salienta em comunicado Andrew Baird, do Centro de Excelência para o Estudo dos Recifes de Coral (ARC), na Austrália, e um dos autores do artigo. “O clima aqueceu rapidamente nos últimos 50 anos, primeiro tornando os El Niños perigosos para os corais, e agora estamos a ver o surgimento do branqueamento dos corais a cada Verão quente”, nota ainda outro dos autores do trabalho, Mark Eakin, da agência dos oceanos e da atmosfera dos Estados Unidos (NOAA).

Devorados por estrelas-do-mar

“Os nossos resultados revelam que os recifes de coral entraram numa era diferente dominada pelos humanos caracterizada como o Antropoceno [época geológica sem estatuto oficial e que representa o impacto que a humanidade tem na transformação da Terra]”, refere o artigo. Como tal, Terry Hughes, director do ARC e uma das caras da investigação do branqueamento de corais, deixa um apelo: “Esperamos que os nossos resultados impressionantes estimulem acções mais fortes para se reduzirem os gases com efeito de estufa na Austrália, nos Estados Unidos e noutros lugares.”

Além dos humanos, há mais perigos à espreita na Grande Barreira de Coral, como é o caso da estrela-do-mar Acanthaster planci, também conhecida como “coroa-de-espinhos”. Esta estrela-do-mar come os corais projectando o seu estômago sobre eles e usando enzimas digestivas para desfazer os seus tecidos. O Governo australiano anunciou esta sexta-feira que estamos perante o maior surto de sempre destas estrelas na Grande Barreira de Coral.

No último mês, encontraram-se coroas-de-espinhos em grandes proporções no Parque Nacional de Recifes de Swain, situado na ponta Sul da Grande Barreira de Coral. O Governo australiano revelou que já em Dezembro as autoridades do parque já tinham destruído algumas destas estrelas-do-mar e que iriam fazer outra missão este mês.

Desde os anos 60 que já assistimos a quatro grandes surtos destas estrelas-do-mar na Grande Barreira de Coral, que tem conseguido recuperar de cada surto porque tinha sempre populações saudáveis de peixes herbívoros. Geralmente, os surtos são desencadeados pela presença de muitos nutrientes na água, mas a razão para este último ainda é desconhecida, disse Hugh Sweatman, investigador no Instituto Australiano de Ciência Marinha, à rede de televisão pública da Austrália (ABC) e citado pela agência Reuters. E, como sabemos, os corais ainda têm de se preocupar com o seu branqueamento.

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Cientistas estudam os corais mortos na Oeste da Austrália Chris Cornwall

As más notícias vindas dos oceanos não terminaram aqui. Na mesma edição da Science, um outro estudo revela que as áreas dos oceanos com água sem oxigénio – as “zonas mortas” – aumentaram quatro vezes nos últimos 50 anos, colocando em risco peixes e corais. Os cientistas destacam que em zonas costeiras, como estuários, os sítios com baixos níveis de oxigénio aumentaram mais de dez vezes desde 1950. O estudo vem acompanhado por um mapa que destaca três sítios em Portugal em que os níveis de oxigénio são muito baixos: a ria de Aveiro, o rio Mondego e a ria Formosa.

Se o planeta continuar a aquecer, alertam ainda os cientistas, a quantidade de oxigénio na água continuará a descer até nas áreas que ainda não foram afectadas. Tudo isto parece ter causas que todos já conhecemos: as alterações climáticas e a poluição.