Crítica

O Teorema de Lanthimos

A dimensão física, interpeladora e provocante, do cinema do grego Yorgos Lanthimos foi sacrificada, qual cervo sagrado, em favor de uma carga alegórica, e em grande parte moralista.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Foi com Canino, um filme duma selvajaria intrigante e muito física (no sentido mais slapstick do termo), que o mundo descobriu o cinema do grego Yorgos Lanthimos. A decorrente “internacionalização” parece estar a ter efeitos nefastos, e este Sacrifício de um Cervo Sagrado que vem muito na sequência do decepcionante A Lagosta (a começar na manutenção do mesmo actor principal, Colin Farrell), sugere que essa dimensão física, interpeladora e provocante, foi sacrificada, qual cervo sagrado, em favor de uma carga alegórica, e em grande parte moralista, que tenta preservar o “mistério” mas já só tem uma estilização, calculista e em grande parte inofensiva, para o sustentar — o que era “directo” em Canino, o que era in your face, parece, até ver, perdido.

Não que Lanthimos filme, em traços gerais, algo de muito diferente. É ainda o espaço familiar o seu objecto, através de uma história mais ou menos sobrenatural (para não dizer outra vez “alegórica”) e inspirada numa peça de Eurípides, que conta como o filho (Barry Keoghan) de um paciente que morreu às mãos do cirurgião interpretado por Farrell procura vingar-se, quid pro quo, da família, exigindo o sacrifício de um dos seus membros.

Podia ser — como na História de Violência de Cronenberg — um enésimo olhar sobre o “casulo” da classe média americana no momento em que ele abre fissuras, mas há um lado tão “genérico” na construção das personagens e na descrição dos ambientes que isso se perde sem alguma vez parecer próximo de se ganhar. Lanthimos quer estar “distante”, e está efectivamente “distante”, no ponto em que distância e sobranceria se confundem, e sem cuidar da integridade humana das suas personagens a implicação do espectador com elas é mínima ou inexistente (o que é o ponto, a juntar à moral punitiva, que mais justifica as várias comparações que se têm traçado entre Lanthimos e Michael Haneke). Podia ser, como num filme de título “grego” como Lanthimos (o Teorema de Pasolini), uma fábula severa sobre a destruição duma família burguesa às mãos dum elemento estranho e insidioso, portador de todos os germes da anarquia — mas também não é isso, falta a Lanthimos profundidade e vontade de lançar o espectador num desassossego descontrolado (porque aqui nunca saímos duma estufa, do exercício de estilo de causas e efeitos calculados e pré-programados). Mas falando de exercício de estilo, é notória a constante colagem a um universo vagamente kubrickiano, e sobretudo a vontade de que o espectador a veja — começa nas composições simétricas, nas lentes que deixam muito espaço em torno das personagens invalidando qualquer sensação de intimidade (como bem se vê na forma como Lanthimos filma o quarto do casal protagonista), e continua pela presença de Nicole Kidman, cujas cenas em roupa interior sentada no seu boudoir logo sugerem a lembrança de Eyes Wide Shut (mais ou menos confirmada, ou deformada, pelo olhar do realizador sobre as cenas de sexo, numa espécie de puritanismo enjoado). E o filme perde-se algures no meio disto, entre o que releva do excesso de cálculo e o que, mais idiossincraticamente, releva da prática de Lanthimos, que quer falar de coisas feias sem sujar as mãos.