Crítica

A cor do dinheiro

O argumentista de Uma Questão de Honra e A Rede Social estreia-se na realização com uma história verídica à volta do dinheiro e das portas que ele abre.

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Criador da série televisiva Os Homens do Presidente, argumentista de Uma Questão de Honra, A Rede Social ou Steve Jobs, Aaron Sorkin é um dos raros argumentistas contemporâneos a ter conseguido impor uma marca autoral própria, independentemente dos realizadores com quem trabalhou. Não seria por isso evidente que Sorkin quisesse passar para trás da câmara, passo que nem sempre os argumentistas dão com sucesso — mas ei-lo a estrear-se na realização com Jogo da Alta Roda, inspirado (como muitos dos guiões que assinou) numa história verídica. Esquiadora de nível olímpico reconvertida em organizadora de jogos de póquer clandestinos, apanhada por arrasto pela justiça americana em investigações sobre a mafia russa, Molly Bloom é uma personagem perfeita para Sorkin e para a sua visão do mundo. É uma mulher que subiu a pulso e se impôs sozinha num mundo de homens, desafiando os limites estabelecidos pelo patriarcado, alguém que não se fica quando é tratada com displicência — mas também uma vítima das circunstâncias cuja experiência às mãos do Estado revela os podres por trás do sonho americano. Isso torna Jogo da Alta Roda num filme que dialoga com o momento sócio-político actual, contado com aquele diálogo propulsivo, staccato, imparável que é a marca registada de Sorkin.

Jogo da Alta Roda é, então, um “filme de argumentista”, o que explica e justifica o alto nível geral das interpretações (a começar por uma Jessica Chastain impecável no papel de Molly, e a passar por um Kevin Costner a envelhecer muito melhor do que se esperaria). A pequena surpresa é que Sorkin não quis só fazer “filme de argumentista”, ou seja, não se quis limitar a ilustrar o guião. A referência mais evidente da sua encenação é Steven Soderbergh, na fluidez com que filma uma história sobre jogos de perícia (porque o póquer não é, exactamente, um jogo de sorte) como um exercício de prestidigitação formal. Não é por acaso que pensamos em Soderbergh — o tema recorrente do autor de Erin Brockovich e Ocean’s Eleven é o dinheiro e o modo como ele transforma a própria esfera social, e esse é também o subtexto de Jogo da Alta Roda. Tudo gira mais à volta do dinheiro enquanto significador de estatuto do que como moeda de troca, e de uma personagem que recusa essas regras para aplicar as suas próprias regras morais: Molly não quer ser rica ou famosa, não se quer aproveitar do jogo para ascender socialmente, o que a torna numa anomalia idealista e, mais uma vez, numa heroína perfeita para Sorkin, que explora permanentemente o confronto entre o idealismo e o pragmatismo.

Soderbergh, metteur-en-scène total, teria feito deste guião um grande filme; Sorkin deixa-se levar a espaços pelo efeito gratuito, descontrola-se no ritmo, estica a duração para lá do que deveria, sugerindo que Sorkin-argumentista ganhou aos pontos a Sorkin-realizador. Nada que impeça Jogo da Alta Roda de ser mais um exemplo das melhores virtudes clássicas do cinema americano que ainda vão resistindo à monocultura do grande espectáculo.