Bannon diz que encontro com russos pode ter sido "traição". Trump diz que ex-assessor enlouqueceu

Presidente Trump diz que o ex-conselheiro enlouqueceu depois de ter sido despedido da Casa Branca. Bannon não poupa nas críticas ao filho do Presidente dos EUA em livro a lançar na próxima semana.

Steve Bannon voltou a dirigir o site Breitbart News depois de sair da Casa Branca
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Steve Bannon voltou a dirigir o site Breitbart News depois de sair da Casa Branca Reuters/JONATHAN BACHMAN
Bannon continua a ser uma das vozes mais influentes para Donald Trump
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Bannon continua a ser uma das vozes mais influentes para Donald Trump Reuters/CARLOS BARRIA
Além de Bannon, já deixaram a Casa Branca Michael Flynn, Reince Priebus e Sean Spicer
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Além de Bannon, já deixaram a Casa Branca Michael Flynn, Reince Priebus e Sean Spicer Reuters/JONATHAN ERNST

O ex-conselheiro da Casa Branca e principal estratega da candidatura de Donald Trump, Steve Bannon, está convencido de que a investigação em curso sobre a interferência da Rússia nas eleições dos Estados Unidos vai fazer uma vítima de peso: Donald Trump Jr, o filho do Presidente, que ao longo da campanha manteve vários contactos “pouco patrióticos” com agentes ligados ao Kremlin – que para Bannon podem, no limite, ser entendidos como “traição”.

“Eles vão partir Don Jr. ao meio como um ovo em directo na televisão”, comentou Bannon ao jornalista Michael Wolff, que se prepara para lançar o livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, assente em mais de 200 entrevistas com as figuras do círculo mais próximo de Trump.

Para o Presidente, a obra não tem a mínima credibilidade – tal como Steve Bannon, contra quem Trump se lançou numa primeira reacção às suas declarações no livro. "Steve Bannon não tem nada a ver comigo ou com a minha presidência. Quando foi despedido da Casa Branca, não perdeu apenas o emprego, também perdeu a cabeça", lia-se num comunicado assinado pelo Presidente.

O ex-conselheiro falou com Michael Wolff sobre a investigação do FBI às ligações entre a campanha de Trump e o regime de Moscovo, antecipando um desastre com a transmissão televisiva do depoimento do filho do Presidente sobre as suas reuniões na Trump Tower de Nova Iorque com advogados e outros intermediários do líder russo, Vladimir Putin, que lhe prometeram informações secretas que prejudicariam a candidatura de Hillary Clinton.

Para Bannon, mesmo os mais inexperientes operadores políticos perceberiam os riscos de tal reunião. “Mas tivemos três dirigentes de topo da campanha que acharam boa ideia reunir com representantes de um Governo estrangeiro dentro da Trump Tower sem a presença de advogados. Mesmo se não pensassem que era uma cena má, pouco patriótica, até mesmo traição – e eu penso que é tudo isso – o que deviam ter feio imediatamente era alertar o FBI”, observa, citado pelo The Guardian (que teve acesso a excertos do livro, uma semana antes da sua publicação).

Além do filho do Presidente, Bannon também considera que o genro de Trump, Jared Kushner, pode comprometer o Presidente no âmbito das investigações. A presença de Kushner, que também esteve presente nos encontros com os russos durante a campanha, na Administração, deixa Trump vulnerável a acusações deduzidas a partir de eventuais movimentos ou transferências de dinheiro. “Os investigadores vão focar-se na lavagem de dinheiro. Esse foi o caminho que eles encontraram para lixar Trump, e passa por Paul Manafort, Don Jr. e Jared Kushner”, diz.

Recorde-se que a primeira acusação deduzida pelo procurador-especial, Robert Mueller, em Outubro, foi contra Paul Manafort, o antigo director de campanha de Trump, foi precisamente por lavagem de dinheiro. O ex-conselheiro nacional de segurança, Michael Flynn, também foi acusado por ter mentido ao FBI.

Segundo a imprensa norte-americana, os investigadores já pediram ao Deutsche Bank para entregar documentação para acrescentar ao processo. O banco alemão emprestou centenas de milhões de dólares à família Kushner. “O papel de Kushner é duvidoso. Os investigadores não vão deixar passar nada em branco”, sublinha.

Bannon reassumiu a direcção do site Breitbart News depois de deixar a Casa Branca, e foi convocado a prestar declarações no Senado no âmbito da investigação sobre a interferência russa nas eleições. Numa entrevista ao site Axios, esta quarta-feira,  disse que as próximas semanas, até ao primeiro aniversário da tomada de posse de Donald Trump, serão “cruciais” para definir politicamente o seu mandato: na sua opinião, o Presidente não pode desperdiçar esta “última oportunidade” para consagrar as promessas de “pôr a América primeiro” feitas durante a intensa campanha de 2016.

Segundo o repórter Jonathan Swan, apesar de já não integrar a equipa da Casa Branca, Bannon continua a ser uma das vozes mais influentes para Trump. Há duas questões específicas em que o pensamento de Trump e Bannon são totalmente coincidentes, mas as suas ideias não têm sido aplicadas pela sua Administração: na relação dos EUA com a China, que ambos defendem deve ser mais agressiva tanto em matérias comerciais como na pressão à Coreia do Norte; e na reforma do sistema de imigração, que para os dois só se resolve com a construção do muro com o México.

Porém, no seu comunicado, Donald Trump apresenta uma versão muito diferente do seu relacionamento com Bannon, desvalorizando o seu papel na campanha eleitoral que conduziu à sua eleição e sublinhando que o seu ex-conselheiro não representa a sua base de apoiantes ou a sua agenda política. "Na Casa Branca, ele passava o tempo a passar informação falsa aos media, para fingir que era importante. Ele raramente participava em reuniões comigo, e continua a dizer que tem influência sobre mim para enganar pessoas sem noção, para os ajudar a escrever livros falsos", acusou.

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