Céline e o seu anti-semitismo voltam a incomodar a França

A Gallimard vai reeditar este ano os panfletos anti-semitas daquele que é um dos grandes escritores do século XX. O Governo já disse que preferia que não o fizesse. Previsivelmente, o debate instalou-se. Desde a Segunda Guerra Mundial que não eram republicados em França.

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Louis-Ferdinand Céline em 1932, depois de ganhar o Prémio Goncourt com Viagem ao Fim da Noite DR

Quando os grandes escritores são também fervorosos anti-semitas devemos deixar que a sua obra se esgote e desapareça das prateleiras de livrarias e bibliotecas ou devemos reeditá-la? E essas reedições devem poder contemplar tudo o que escreveu ou só aquilo que não tem vestígios dos seus comentários virulentos sobre os judeus nem das suas alegadas propostas para os erradicar durante a ocupação em França?

O debate à volta destas e de outras questões que envolvem o papel dos intelectuais em momentos obscuros da história está de regresso a propósito de um novo projecto da editora Gallimard e levou já a que muitos voltem a discutir se é possível, ou não, separar o criador da sua criação ou, neste caso, o homem do escritor.

Louis-Ferdinand Céline é esse homem e esse escritor. Em causa está o relançamento, este ano, dos seus panfletos da década de 1930, considerados dos mais violentos textos alguma vez escritos contra os judeus. Entre eles está Bagatelles pour un massacre (Éditions Denoël, 1937), republicado durante a Segunda Guerra Mundial, quando a França estava já sob o controlo de Hitler e das suas tropas, e desde então de reedição proibida por vontade expressa do seu autor, que morreu em 1961, e da sua viúva, a antiga bailarina clássica Lucette Destouches.

Desta vez, e surpreendentemente, a viúva, hoje com 105 anos, autorizou a inclusão do panfleto num volume de mil páginas em que a Gallimard, imune às petições públicas que pretendiam pressioná-la a abandonar a reedição e até a uma advertência do Governo francês, reúne vários textos da época. O prefácio da obra foi entregue ao jornalista, escritor e crítico Pierre Assouline, leitor voraz de Céline e autor de vários romances e ensaios sobre a França ocupada.

Diz o diário espanhol El País que a nova edição da Gallimard se deverá basear noutra, canadiana, organizada e anotada pelo professor de Literatura do século XX Régis Tettamanzi (Universidade de Nantes) sob o título Écrits polémiques (Éditions8, 2012), um volume que junta sete textos de Céline devidamente contextualizados e que pode ser categorizada como “científica” ou “crítica”.

Tal como a congénere canadiana, a edição francesa incluirá o panfleto que precedeu Bagatelles…, Mea culpa (1936), e o que lhe sucedeu, L'École des cadavres (1938), assim como Hommage à Zola (1933), Les Beaux draps (1941) e A l'agité du bocal (1948). A editora não dá grandes pormenores sobre o volume mas, segundo o jornal americano The Washington Post, Tettamanzi estará envolvido no projecto.

Editado originalmente há oito décadas, Bagatelles pour un massacre é visto como um manifesto de incitação ao ódio e à violência contra os judeus e, à época, lembrava recentemente o mesmo Washington Post, chegou até a impressionar um oficial nazi ligado à propaganda que, depois de elogiar os “conceitos raciais correctos”, definiu a linguagem usada como um “calão selvagem e ordinário”.

Em Bagatelles pour un massacre são bem visíveis as posições anti-semitas de Céline, mas são também abordados temas comuns na sua obra não panfletária: a literatura, o cinema, o álcool, o lado conservador da academia, o carácter estático da língua, a dança, a decadência da sociedade francesa dos anos 1930…

“Se Hitler me dissesse Ferdinand, esta é a grande partilha! partilhemos tudo! ele será o meu companheiro! os judeus prometeram partilhar e mentiram como sempre…” (tradução livre), escreve Céline em Bagatelles pour un massacre, no mesmo texto em que se refere desta forma ao meio artístico: “Quanto mais somos odiados, acho, mais tranquilos ficamos… Torna as coisas mais simples, não vale a pena ser polido, não faço questão de ser amado… não preciso de ternura…”

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor e médico francês a quem se deve um dos mais celebrados romances do século XX, Viagem ao Fim da Noite (1932), nunca escondeu a sua afeição pelo regime nazi, tendo festejado entusiasticamente a ascensão de Hitler ao poder. Justificava o seu repúdio aos judeus, diz a sua mulher num livro que escreveu com a investigadora Véronique Robert-Chovin (Céline secret, Grasset, 2001), com o argumento de estes promoverem a guerra, quando ele faria tudo para a evitar.

“Estes panfletos nasceram num contexto histórico determinado, numa época particular”, diz Lucette Destouches em Céline secret, garantindo que o marido os escreveu com objectivos pacíficos e explicando por que razão continuava sem autorizar, até então, novas edições. “A Louis e a mim só nos trouxeram desgraças. Nos nossos dias já não têm razão de ser. [Mas] ainda hoje, e precisamente por causa da sua qualidade literária, podem ter nalgumas mentes um poder maléfico que eu tenho querido evitar a todo o custo.”

Em comunicado, a Gallimard explicou recentemente que o seu objectivo com a nova edição é precisamente “situar no seu contexto uns escritos de grande violência, marcados pelo ódio anti-semita do autor”. E se há uns que preferiam mantê-los praticamente inacessíveis e estão disponíveis a combater o livro em tribunal, outros há que aplaudem uma edição crítica que permitirá aos leitores do escritor aceder a um volume que não custou uma fortuna num alfarrabista (mesmo a edição canadiana custa no gigante de vendas online Amazon 300 euros ou mais) e que não foi posto a circular em versões pouco fiáveis, física ou digitalmente, por organizações de extrema-direita.

Os mais moderados aceitam a publicação, mas preferiam que tivesse tido mais tempo de preparação, evocando como referência a edição crítica do manifesto de Hitler, Mein Kampf, pelo Instituto de História Contemporânea de Munique, em 2016. Entre eles está o filósofo Pierre-André Taguieff, co-autor de Céline, la race, le juif, que questiona, inclusive, a capacidade de discernimento de Lucette Destouches, que se encontra já muito fragilizada. À revista L’Obs, Taguieff lembra ainda que todos os cuidados são poucos quando se trata de voltar a disponibilizar um texto anti-semita com tamanha força. É que o contexto mudou, é certo, mas não mudou assim tanto, defende: “Tanto em França como no resto da Europa, ainda se matam judeus só por serem judeus.”

Em 2031 toda a obra de Céline entrará no domínio público.