Crítica

A saudável loucura de Maurice Ravel

L'enfant et les sortilèges é um divertido espectáculo que dá vida à imensa imaginação musical do compositor francês e que conta com um excelente elenco de jovens cantores.

NUNO FERREIRA SANTOS
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NUNO FERREIRA SANTOS

Será mesmo uma ópera, esta “fantasia lírica” de 1925 chamada L'enfant et les sortilèges ("A criança e os sortilégios"), de Maurice Ravel e Colette, agora em cena no Teatro Nacional de São Carlos? De início parece um concerto tradicional, mas como se víssemos um pouco dos bastidores. As actrizes fazem de técnicos, e a criança ainda não é criança – é só uma cantora com um longo vestido... Entra Joana Carneiro, aplausos e vénias, como de costume. Mas tudo já tinha afinal começado, e tudo se desmoronará em breve, com uma birra da criança depois do ralhete e do castigo da mãe (“Vai ficar sozinho até ao jantar!”, diz a Maman). Sozinha e “livre”, como grita de início, a criança verá surgirem os objectos, os animais e os medos sob novas formas. Uma cadeira e um cadeirão, o bule e o fogo, pastores e princesas, gatos, sapos, esquilos e surpresas. Tudo num redemoinho de sonho e imaginação, com a maravilhosa, sugestiva (e às vezes ilustrativa) música de Ravel a apontar o caminho. Muita coisa que passa num instante.

Há um relógio lá ao fundo que nos faz duvidar. Passou realmente este tempo? Tudo é tão rápido... E, no entanto, há momentos em que o tempo se suspende, na ardilosa forma de tecer os números musicais que descobriu Maurice Ravel. Há jogo, humor e magia em pequenas cenas, mas depois emerge o verdadeiro teatro, quer dizer, aquilo que nos toca pondo em cena os corpos, as luzes, os sons, as ideias – e há ideias nos sons que dançam, nas luzes que cantam, nos corpos que se acendem. Tudo isso emerge da tensão entre essas cenas, aparentemente soltas e fragmentadas. Por exemplo quando a criança, depois de perceber o que fez à “sua” princesa (“Mas rasgaste o livro, o que vai ser de mim?”), se questiona sobre o que lhe resta da magia rasgada: “Apenas me deixaste, como um raio de lua, um cabelo de ouro no ombro e os estilhaços de um sonho”, canta Raquel Luís com o seu belo timbre de meio-soprano. A cantora construiu vocal e gestualmente uma espantosa criança, entre preguiças, birras, lutas, medos e desejos. Nessa altura a criança cresce connosco, aprende em conjunto com os espectadores, entre os estilhaços de um sonho.

A principal qualidade da encenação de James Bonas é a capacidade que tem de articular estes momentos sem que a música se perca (é preciso explicar que a orquestra aqui está no palco e não no fosso, como é costume na ópera). Conjugando tantos elementos mas deixando ouvir a colorida, irónica e jovial música de um Ravel consagrado, mas que sabia levar as brincadeiras a sério e mostrar o sério a brincar. Assim vale a pena o jogo.

Joana Carneiro, ao centro, orientou muito bem a orquestra e toda esta aparente confusão da ópera de Ravel, segurando o todo sem desprezar os detalhes. Exigindo tudo, entendendo a música, mas deixando aos músicos a sua construção consciente. Não é isso o que deve um maestro fazer?

Se não podemos dizer tudo de um sonho, lembremos apenas alguns estilhaços em desordem: o divertidíssimo e maluco número da aritmética com o rigoroso tenor João Pedro Cabral como “velhinho”, acompanhado dos seus “números” (o óptimo Coro Juvenil de Lisboa); o delicioso encontro com os gatos, um dueto espantoso – mas tão breve! – de Ana Franco e Tiago Matos; a doida “chinesice” com línguas baralhadas muito bem cantada por Carolina Figueiredo (e João Pedro Cabral a fazer de Bule de chá!); o acutilante morcego de Carla Caramujo; as duas pastoras saídas de uma história rasgada (Ana Franco e Sónia Alcobaça), o espectacular Fogo feito por Bárbara Barradas (que aparece vinda do palco e depois reaparece em Rouxinol no relógio do São Carlos) ou o cadeirão e a cadeira Luís XV (!) que abrem as hostilidades dos objectos com vida (Ricardo Panela e Sónia Alcobaça); o coro do São Carlos a fazer de “Os animais” no final.

Um divertimento ligeiro que dá que pensar e que pode até emocionar quem quiser seguir não só a acção e o sonho, mas também a pintura em movimento que é a música de L'enfant et les sortilèges. Ravel disse que a música que tinha escrito era uma mistura suave de Bach até... Ravel. Com sentido de humor. E são precisamente o sentido de humor e a saudável loucura que fazem voar L'enfant et les sortilèges para bem longe do moralismo educativo. E a orquestração cheia de efeitos de Ravel traz-nos um colorido sonho acordado – onde se aprende sem ninguém a mandar. Apesar do fim conciliador, que não podia ser outro: “Mamã!”