Pelo menos 21 iranianos já foram mortos nos protestos contra o regime

Começaram com slogans contra Rohani e ainda não pararam, gritando-se agora contra o Guia Supremo. Depois de 2009, nova vaga de manifestações sem fim à vista na República Islâmica.

Os confrontos nos portões da Universidade de Teerão
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Os confrontos nos portões da Universidade de Teerão EPA
Os protestos têm-se prolongado pela noite, quando os manifestantes por vezes erguem barricadas
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Os protestos têm-se prolongado pela noite, quando os manifestantes por vezes erguem barricadas Reuters

Pelo menos 21 pessoas foram mortas em várias cidades iranianas (nove dos quais durante a noite de segunda para terça-feira), após seis dias consecutivos de protestos, algo que não acontecia no Irão desde o Movimento Verde de 2009. Houve assaltos a  esquadras de polícia e quartéis, disse a televisão estatal e pelo menos um agente da polícia foi morto a tiro, diz um porta-voz das forças de segurança.

"Alguns manifestantes armados tentaram tomar esquadras e bases militares, mas enfrentaram forte resistência das forças de segurança", anunciou a televisão estatal, diz a Reuters. Mais tarde, foi avançado que um polícia morreu e três outros ficaram feridos – mas sem revelar onde tudo isto se passou. Já na manhã desta terça-feira houve então notícia de mais nove mortes e cem manifestantes detidos.

Estas manifestações, que começaram na quinta-feira, na segunda maior cidade do país, Mashad, que guarda o local mais sagrado do Irão (o mausoléu do Imã Reza), espalharam-se rapidamente a outras cidades, de Norte a Sul – há uma contabilidade não rigorosa de que serão cerca de 35 até agora.

Quem sai à rua são sobretudo jovens, gritam vivas ao deposto Xá da Pérsia, muitos são do sexo masculino. É uma população mais pobre, com menos formação do que em 2009, dizem vários analistas, e não dão provas de reverência para com os líderes reformistas do Movimento Verde, uma reacção contra a reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadin, em que suspeitava de fraude eleitoral.

“Um jovem iraniano que esteve activo nos protestos de 2009 disse-me que não é a sua gente [nas ruas] desta vez. São manifestantes com menor rendimento. Não têm nada a perder. Não partilham as mesmas preocupações. Diz que não também não se sentem confortáveis com estes protestos”, relata no Twitter a jornalista da irano-britânica da France 24 Sanam Shantyaei.

Inicialmente, a maioria dos slogans gritados nas ruas de Mashad e de cidades mais pequenas visavam um aumento recente nos preços de alguns bens básicos – desde que foi eleito, em 2013, o Presidente Hassan Rohani tem tentado inverter a grave crise económica em que Ahmadinejad e as sanções internacionais deixaram o Irão.

Com o acordo nuclear de 2015 e o fim das sanções, a inflação baixou muito mas o desemprego voltou a subir ao longo de 2016, em parte devido à retórica de Donald Trump, que ameaça rasgar o acordo e assim afastou bastante investimento externo. Entretanto, o desemprego entre os jovens, a maioria dos 80 milhões de habitantes, chegou aos 28,8% no ano que agora acaba, mais do dobro da média nacional.

Corrupção e política externa

Os iranianos também sabem que há uma corrupção endémica no regime da República Islâmica, com as elites religiosas e militares a beneficiarem de privilégios. Ao mesmo tempo, têm consciência que Teerão gastou dinheiro para ajudar Bashar al-Assad na Síria e no apoio que dá ao Hezbollah, a rebeldes no Iémen e noutros países, em confronto pela hegemonia regional com a Arábia Saudita, a potência sunita da região: também se tem gritado “Não a Gaza, não ao Líbano, a minha vida pelo Irão”.

No primeiro dia surgiu logo uma palavra de ordem particularmente dura: “Morte ao ditador, morte a Rohani”, de tal forma que se levantou a suspeita de que os protestos fossem promovidos pela ala mais radical dos religiosos – o Guia Supremo, ayatollah Ali Khamenei, nada satisfeito com o resultado obtidos nas presidenciais de Maio pelo moderado Rohani (reeleito com mais votos do que obteve em 2013), ou religiosos que têm a cargo a gestão dos bens sagrados da cidade de Mashar, alguns dos quais se posicionam já para suceder ao Guia Supremo.

Se a intenção era encostar Rohani à parede, quem quer que o tenha planeado parece ter perdido o controlo, o que não é difícil se pensarmos no país como uma panela de pressão, fechada há oito anos e meio, quando muitos jovens e académicos foram detidos por protestarem contra umas eleições que consideraram fraudulentas. O pipo nunca parou de apitar e, mais dia, menos dia, uma nova vaga de protestos parecia inevitável. Mesmo porque alguns grupos, como as mulheres, nunca deixaram de sair à rua para exigir mais liberdades, nomeadamente em relação ao uso do véu islâmico (hijab), obrigatório na rua.

"O que está a acontecer pode parecer uma ameaça, mas pode ser transformado numa oportunidade para percebermos onde estão os problemas", sublinhou o Presidente Rohani, que se reuniu esta esta segunda-feira com os líderes de várias comissões do Parlamento, citado pela agência semi-oficial Fars.

O que aconteceu é que rapidamente o “ditador” da palavra-de-ordem começou a ser Ali Khamenei. “Abaixo o ditador”, gritou-se domingo no centro da capital. “Khamenei, devias ter vergonha, deixa o país em paz”, ouviu-se em Khorramabad, no Ocidente do país.

O Presidente norte-americano tem incentivado, no Twitter, os protestos iranianos: "O irão está a falhar a todos os níveis, apesar o terrível acordo que a Administração Obama fez com eles", afirmou Donald Trump no Twitter. "O grande povo iraniano está a ser reprimido há muitos anos. Estão ansiosos por liberdade e por alimentos. Tal como a riqueza do Irão, os direitos humanos estão-lhes a ser roubados. Chegou o tempo de mudar!"

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não se coibiu também de interferir: divulgou um vídeo a "desejar sucesso" aos manifestantes iranianos, com legendas em inglês para ajudar na comunicação.

January 1, 2018Iran is failing at every level despite the terrible deal made with them by the Obama Administration. The great Iranian people have been repressed for many years. They are hungry for food & for freedom. Along with human rights, the wealth of Iran is being looted. TIME FOR CHANGE!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump)">

Primeiras vítimas

Na sexta-feira, os protestos estalaram em Teerão e em quase todas as grandes cidades, sábado continuavam e há imagens (Centro para os Direitos Humanos no Irão, de Nova Iorque) da polícia antimotim em confrontos com estudantes junto aos portões da Universidade de Teerão. As detenções começaram logo na quinta-feira, com umas 50 pessoas detidas em Mashad, e têm continuado.

Nalguns protestos, parece que são os manifestantes a atacar a polícia e a tentar “destruir propriedade pública”, mas desde o início que as autoridades têm usado canhões de água e gás lacrimogéneo.

Soube-se das primeiras vítimas mortais no sábado à noite. Foram mortas a tiro na cidade de Izeh, no Sudoeste, num protesto que fez vários feridos, noticiou a agência de notícias ILNA, citando um membro do parlamento local.

Sobre os protestos de domingo, que juntaram dezenas de milhares de pessoas, algumas fontes referiam dois mortos, outras quatro, mas a televisão estatal desfez as dúvidas: “Nos acontecimentos da última noite, infelizmente foram mortas um total de dez pessoas em diferentes cidades”, noticiou-se, sem mais pormenores.

Desagrado profundo

Entretanto, Rohani defendera o direito dos iranianos “à crítica”, mas avisara que “o Governo não vai demonstrar tolerância pelos que destruírem propriedades, violarem a ordem pública ou criarem agitação na sociedade”.

E, transportando-nos para 2009, quando as redes sociais foram fundamentais na organização dos protestos (dois anos antes das revoltas árabes), o Governo anunciou a restrição temporária do acesso ao Instagram e à aplicação de mensagens Telegram. Há relatos de áreas em que o acesso móvel à Net estará bloqueado.

Quando os manifestantes começaram a sair à rua, na quinta-feira, “não se esperava mais nada para além dos slogans contra a administração e contra o Presidente”, diz à Al-Jazira Negar Mortazi, jornalista do Iran International, um serviço independente de notícias online. “Mas parece que o desagrado entre a população iraniana é muito mais profundo e tudo isto ultrapassou a presidência e chegou até ao Guia Supremo, o que é muito preocupante para todas as facções do establishment”.