Opinião

O design na minha noite de Natal, 100 anos depois da Bauhaus

O casamento entre os vários personagens do design são parte da encenação da noite de Natal, pelo menos da minha.

Faz sentido, pelo menos para mim, iniciar este texto com os 100 anos do movimento Bauhaus.

Imagine-se! Já são 100 anos.

Aprende-se nas escolas que este movimento oferece um paradoxo interessante. E talvez até controverso, se olharmos para ele de forma fria e distante. Com, só e apenas, 100 anos de distância.

Don Norman, director do Design Lab, na Universidade da Califórnia, diz num artigo recente que o movimento é controverso porque na verdade a Escola da Bauhaus não conseguiu produzir qualquer objecto que mudasse a vida das pessoas de forma fundamental. E eu pergunto: conseguiu?

Sei que são épocas diferentes, quotidianos diferentes, tecnologias diferentes. Mas a verdade é que nenhum dos objectos mudou factualmente o quotidiano. O que mudou, talvez, foi o modo de pensar o design. Forma, função e estilo, seriam talvez estas as palavras de ordem que definiam o triângulo criativo para estes criadores.

Os designers desenharam (ou limitaram-se a redesenhar?) os objectos simples das nossas vidas. Jarras, taças e tacinhas, facas, garfos e colherzinhas, bancos, cadeiras e cadeirinhas.

Hoje, os designers saboreiam a oportunidade de inventar formas inteiramente novas de trabalhar, de viver, de sentir. Vejam-se as inovações tecnológicas alavancadas por inteligência artificial como as “home assistants” da Apple ou da Amazon, onde a palavra de ordem, arrisco eu, será o indivíduo. A pessoa! A pessoa, a experiência e a tecnologia.

Eu diria que o triângulo criativo que define, ou passará a definir o exercício do design, será composto por estes três elementos.

Don Norman especula ainda, no mesmo artigo, que talvez a Bauhaus não estivesse interessada nessas questões. Se bem que na época já existiam dispositivos electrónicos mais simples que equipavam o dia-a-dia, como fonogramas, rádios, telefones, máquinas de escrever, aspiradores e máquinas de lavar roupas, por exemplo. E a Bauhaus repensou como transformar estes dispositivos verdadeiramente complicados em compreensíveis? Conseguiu ir para além da forma?

Hoje o mundo é diferente. O mundo das coisas do nosso mundo não é o mundo das coisas de há 100 anos. Se há um século o foco estava na simplicidade da forma e da aparência, onde está o foco hoje?

Será na tecnologia? Será na experiência?

Se a Bauhaus foi uma das maiores e mais importantes escolas que se afirmou no domínio do design de móveis, o mundo do design hoje é muito maior do que o design de peças de mobiliário. É verdade!

Mas é também verdade que estes objectos também nos davam uma outra dimensão que talvez os de hoje, mais frios e mais tecnológicos, não nos dão: conforto. Conforto, regozijo e contentamento. Contentamento visual e táctil. Alegria. Continua a ser o mobiliário e o objecto táctil, visível e tangível que domina as nossas casas. Que são cúmplices por vezes, e noutras apenas testemunhas, das nossas alegrias. Participam nos jantares com os amigos, são espectadores da galhofa.

E claro, são figuras principais da galhofa em família das minhas noites de Natal.

O casamento entre os vários personagens do design são parte da encenação da noite de Natal, pelo menos da minha.

Tudo tem que ser perfeito!

As cadeiras do Eames devidamente alinhadas com os dois bancos altos de madeira desenhados para o primeiro IADE da Rua do Alecrim. A mesa do Espinho devidamente decorada com os vidros do Karim e com os talheres do Citterio. A mesa de apoio da linha cortez do Daciano serve de balcão para o bolo-rei, filhós e sonhos, estrategicamente colocada ao lado das cadeiras Barcelona do Mies. Estas devidamente decoradas com almofadas de seda com reproduções em serigrafia do Paul Klee e da Maria Keil.

Um perfeito casamento explosivo entre design e gastronomia, claro!

Quanto ao fim d’ano... os dois bancos corridos e a mesa maciça da adega do meu amigo Rui, metem inveja a qualquer designer. Seja ele da Bauhaus ou de outra escola qualquer.

O autor escreve em desacordo ortográfico.