Final de ano com médicos e doentes esgotados numa urgência sobrelotada

Desde o dia de Natal, a urgência do Hospital de São João, no Porto, nunca atendeu menos de 560 utentes por dia - mais cem que a média do resto do ano. Há pessoas que passam cerca de dez horas nos corredores. "Os médicos estão perfeitamente esgotados".

Fotogaleria
Mesmo na sexta-feira, em que a afluência foi menor, o serviço estava sobrelotado Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta
Fotogaleria
Paulo Pimenta

Nas vésperas da passagem de ano, o serviço de urgência do Hospital de São João, no Porto, está sobrelotado. O reforço de profissionais de saúde é comum para a época, assim como a persistência em ir às urgências por situações menos graves. Os excessos do período festivo e a descida da temperatura nos primeiros dias do ano têm tudo para aumentar o número de doentes que acorrem às urgências e os tempos de espera. 

Um serviço de urgência não estica. "Colocar mais médicos não ia resolver nada" quando o espaço é limitado e a área de influência, ainda que muitas vezes injustificada, cresce a par e passo, diz João Sá, director da urgência do Hospital de São João, no Porto, traçando o cenário de um serviço que à semelhança de vários outros no país viu, a partir de dia 25, os seus tempos de espera médios ultrapassarem as duas horas para os casos urgentes - o dobro do recomendado pela triagem de Manchester. O problema é que, "embora os doentes menos graves não beneficiem com a vinda à urgência, eles vêm e o tempo de espera aumenta para todos".

Acontece todos os invernos. Mais tarde ou mais cedo, as filas alongam-se, os tempos de espera aumentam, deixa de haver cadeiras para todos os que esperam à porta e nos corredores da urgência. A culpa? O tempo frio que agudiza as complicações dos doentes crónicos e o aumento dos casos de infecções respiratórias. 

Mesmo assim, como se explica a sobrelotação dos serviços quando os casos de gripe são ainda esporádicos e muito abaixo da incidência gripal registada no ano passado, segundo consta nos boletins do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge? A questão é que o chip nunca muda, diz o director da urgência do São João. "Não há nenhum benefício para as pessoas com situações menos graves em virem às urgências, porque não são atendidas mais rapidamente nem melhor, antes pelo contrário", garante João Sá.

A situação pode voltar a piorar nos primeiros dias do ano, prevê o médico, face aos excessos comuns na passagem do ano - quer seja de álcool, sal ou doces - e ao adiar da ida ao médico em épocas festivas, que se soma à descida das temperaturas prevista para 1 e 2 de Janeiro. O que leva João Sá a insistir: "Os utentes não têm que recear ir aos centros de saúde."

Os centros de saúde têm horários alargados nesta altura do ano e podem desmarcar consultas programadas para garantir a resposta.

A sobrelotação levou também a que o PÚBLICO não conseguisse falar com médicos nem doentes no interior da urgência, de modo a não perturbar o funcionamento do serviço, a pedido do seu director.

Afluência "absolutamente excessiva"

Acreditando que o serviço neste hospital tenta e consegue "não prejudicar aqueles doentes que são mais graves", João Sá diz que a afluência às urgências em situações menos graves é, por esta altura, "absolutamente excessiva". Desde dia 25 de Dezembro, o serviço nunca atendeu, por dia, menos de 560 utentes - mais cem que a média do resto do ano. No pior dia, a 27, foram mais de 600 os doentes agudos. 

O que "cria stress quer nos profissionais, quer nos próprios utentes que têm a expectativa de ser mais rapidamente atendidos". Entre as esperas para a triagem, atendimento e exames há pessoas que passam cerca de dez horas nos corredores. Tendo em conta que há utentes a serem encaminhados para os centros de saúde logo na triagem, "é provável que tenham passado por aqui cerca de mil pessoas", diz João Sá.

Mesmo num dia, como nesta sexta-feira, em que a afluência foi menor do que no resto da semana, o serviço está sobrelotado. A meio da tarde, o número de doentes muito urgentes atingia o dobro da capacidade. O de utentes com pulseira amarela (urgentes) chegaria ao triplo, apurou o PÚBLICO. 

Espera-se de pé, por impaciência ou falta de espaço. Pelas 15h30, os casos urgentes (a quem é atribuída uma pulseira amarela) esperam cerca de duas horas, uma hora a mais que o recomendado. À entrada as filas sobrepõem-se, mas nunca deixa de ser claro o corredor desimpedido pelo qual entram os doentes em situação mais urgente. Existem as filas para a triagem - numa, mais de 30 pessoas já são mais que as cadeiras disponíveis, noutra alinham, já pelas 16h, cinco macas com casos mais urgentes.

"Os médicos estão perfeitamente esgotados"

Contando um ou dois acompanhantes por doente, o cenário leva-nos às cotoveladas, "com licenças" e "se faz favores" para conseguir passar a porta da urgência. Os acompanhantes esperam numa segunda porta pela vaga no interior do serviço. Dentro e fora já se espera de pé.

Há outros exemplos. A meio da tarde, a sala laranja, destinada aos doentes muito urgentes, tinha cerca de 30, num espaço pensado para metade, onde esperavam cerca de uma hora e meia.

Até às 16h, passaram pela triagem cerca de 360 pessoas, quase metade das quais continuava por essa altura nas salas de pequeno trauma. Sobrelotadas, é aqui que são acompanhados os doentes com pulseira amarela ou verde, a terceira e quarta em cinco estados de prioridade definidos pela triagem de Manchester.

A sobrelotação tem consequências muito claras: "Os médicos estão perfeitamente esgotados e completamente fartos", contou ao PÚBLICO um médico deste serviço, que não quis ser identificado. O director da urgência vai mais longe: "A manter-se ritmos e afluências desta forma exageradas, abeiramo-nos de situações de burnout dos nossos profissionais."

Há falta de médicos? O período de frio e festa justificou um reforço das equipas, que João Sá não quantifica. "O serviço funciona, mesmo que sobrelotado, e está extremamente organizado. Mas os espaços e a capacidade de integrar profisisonais são limitados."  A urgência, que já é uma das maiores do país, teria que crescer fisicamente. 

Já o médico com quem o PÚBLICO falou garante que há "muito menos profissionais do que havia há dois anos", apesar das recomendações contrárias de entidades como a Administração Central do Sistema de Saúde.

E há outro problema de retaguarda identificado por ambos os médicos: o "encaminhamento indevido" para o São João de doentes que recorrem à linha SNS 24 e aos centros de saúde fora da área de referência deste centro hospitalar. Ainda assim estes são uma minoria. Apenas 2,7% dos utentes atendidos na urgência em Dezembro foram encaminhados pela linha de saúde (808 24 24 24) e 5,7% pelos centros de saúde.