Quando os políticos fazem strip-tease

Aquilo a que assistimos foi a um strip-tease de cabaret barato que mancha a dignidade da nossa democracia e que tem de ser exemplarmente sancionado para que não possa mais acontecer. Daí a urgência imperativa de um veto presidencial, como tem sido amplamente defendido.

Preparava-me para uma retrospectiva do ano que hoje termina e uma perspectiva do ano que amanhã começa, mas, apesar da abundância de opiniões já emitidas sobre o tema e da minha concordância com a maioria delas, não pude impedir-me de ficar refém do indecoroso espectáculo clandestino que a classe política portuguesa acabou por dar nestes últimos dias de 2017 – e que, de facto, já se arrastava em segredo há longos meses. Pensava já ter visto tudo – e este mundo em que vivemos vem-nos habituando às mais extravagantes surpresas – mas confesso-me ainda assim estupefacto com o que aconteceu.

Como é possível que a maioria dos partidos portugueses – com a excepção de um exótico PAN e um CDS só aparentemente desperto à última hora de uma prolongada letargia – não se tivessem dado conta do escândalo, do desrespeito e da vergonha a que se expuseram perante os seus eleitores, a opinião pública e o regime democrático que supostamente representam, ao ocultarem durante tanto tempo e com requintes de secretismo quase mafioso um negócio corporativo para benefício próprio (independentemente de alguns motivos porventura justificáveis de racionalização do financiamento partidário)? A única explicação possível – se é que existe… – reside no temor de que a manobra pudesse ser desmascarada prematuramente, comprometendo os truques de ocultação e anonimato das propostas apresentadas pelos agentes da conspiração. Só que isso releva de duas coisas igualmente impensáveis: uma ingenuidade levada ao extremo do infantilismo, como se vivêssemos num regime quase ditatorial onde não haveria risco maior de descoberta e denúncia dessa manobra, ou um cinismo tão aberrante que desprezaria altivamente o discernimento e a inteligência dos cidadãos até ao ponto de achar que eles se estariam perfeitamente nas tintas para a encenação montada nos bastidores e a aceitariam pacificamente como facto consumado.

Como já tem sido sublinhado, o que está sobretudo em causa nesta história indigna de uma democracia adulta não é sequer o conteúdo das propostas aprovadas à socapa pelos partidos mas a forma deliberadamente sub-reptícia com que insistiram em levá-las por diante – numa confissão freudiana de que, afinal, duvidavam da sua legitimidade (ou de que esta só poderia estar protegida pelo segredo). É precisamente isto que retira toda a credibilidade às explicações posteriores avançadas pelos agentes da negociação secreta, sejam eles quais forem. Como é que partidos que se enfrentam agressivamente no Parlamento, tantas vezes com uma demagogia insultuosa para o mais básico senso comum, se mostram tão dóceis, colaborantes e amigos quando se trata de defender os seus interesses corporativos? Há uma única resposta para isso: é porque padecem de esquizofrenia aguda.

Como já aqui confessei, vivi uma experiência como deputado que não me deixou saudades, mas nunca imaginei que a duplicidade dos comportamentos parlamentares pudesse chegar a um tal nível de indignidade. Aquilo a que assistimos foi a um strip-tease de cabaret barato que mancha a dignidade da nossa democracia e que tem de ser exemplarmente sancionado para que não possa mais acontecer. Daí a urgência imperativa de um veto presidencial, como tem sido amplamente defendido.

Para entrarmos num novo ano lavados desta vergonha e resgatar a democracia portuguesa deste irresponsável convite às tentações populistas é preciso que um espectáculo tão ofensivo à ética e aos valores republicanos não volte a repetir-se. A classe política tem de fazer um acto de contrição.