Irão bloqueia redes sociais para controlar manifestações

Uma das aplicações bloqueadas era utilizada para combinar horas e locais de manifestações, e também para partilhar imagens e vídeos dos protestos. O Presidente Rouhani disse que os iranianos têm direito a protestar, mas não com violência.

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Para controlar as manifestações, o Irão anunciou que cortou temporariamente o acesso à rede social Instagram e à aplicação de conversação Telegram, uma das mais utilizadas pelos activistas e pelos iranianos. A informação foi avançada por uma fonte na televisão estatal iraniana, escreve a Reuters. As autoridades suspeitam que as redes sociais são o motor que dá força a algumas destas manifestações contra o regime, a crise económica e o desemprego no Irão.

Já no sábado, um canal da aplicação Telegram tinha sido bloqueado; as autoridades diziam que o canal estava a incitar à violência (algo que os seus administradores negaram), horas antes de o Governo bloquear por completo o acesso à aplicação. Segundo a AP, mais de metade dos 80 milhões de habitantes do Irão utilizam a aplicação, que permite destruir automaticamente mensagens após um certo período de tempo, tornando-a popular entre os activistas. É também no Telegram que têm sido partilhadas informações com locais e horas dos protestos de todo o país, assim como vídeos e imagens dos motins. Já o Instagram também tem é bastante utilizado no país; a rede social é detida pelo Facebook, que está banido no Irão desde 2009.

No sábado, alguns analistas estranhavam que ainda não tivesse sido cortado ou desacelerado o acesso à Internet, um procedimento habitual no Irão e noutros regimes repressivos.

Segundo o jornalista do Guardian Saeed Kamali Dehghan, nem todas as províncias do Irão estão já a ser afectadas pelo corte nas redes sociais. A aplicação, diz o jornalista no Twitter, continua a funcionar em alguns computadores, mas não em dispositivos que utilizem dados móveis.

Este corte nas redes sociais aumenta a dificuldade em obter imagens dos protestos, assim como informação em primeira mão, já que também as agências de notícias e outros órgãos de comunicação ocidental foram saindo do Irão ao longo dos anos. Nos confrontos deste sábado entre os estudantes iranianos e a polícia na Universidade de Teerão, as redes sociais tinham sido um dos principais veículos de informação, sendo partilhadas fotografias e vídeos dos protestos.

As autoridades disseram que dois manifestantes, possivelmente estudantes, foram mortos a tiro após o início dos protestos, que começaram na quinta-feira. O vice-governador da província de Lorestan, Habibollah Khojastehpour, responsabilizava “agentes estrangeiros” pelas duas mortes. “Não houve disparos da polícia e das forças de segurança. Encontrámos provas da presença de inimigos da revolução, grupos Takfiri e agentes estrangeiros neste confronto”, justificou.

Rouhani quebra silêncio de dias

"As pessoas têm todo o direito de criticar o Governo e de protestar, mas as suas manifestações devem ter como objectivo melhorar a situação no país e nas suas vidas", disse o Presidente, Hassan Rouhani neste domingo, citado pela agência IRNA, falando pela primeira vez após dias de silêncio por parte do Governo. "A crítica é diferente da violência e de danos à propriedade pública", acrescentou.

Os manifestantes já atacaram bancos e edifícios do Governo e queimaram uma moto da polícia. O Governo iraniano referiu que os manifestantes que infrinjam a lei sofrerão um preço elevado. "Aqueles que danificarem propriedade pública, violarem a lei e a ordem e criarem agitação são responsáveis pelas suas acções e devem pagar o preço", disse o ministro do Interior, Abdolreza Rahmani Fazli, citado pelos meios de comunicação estatais.

Segundo a AP, estas manifestações são as de maior relevo (e dimensão) desde a onda de contestação após as eleições presidenciais de 2009, na altura da polémica reeleição do então Presidente Mahmoud Ahmadinejad. 

O Presidente Rouhani reagiu ainda aos comentários de Donald Trump (em apoio dos manifestantes, referindo que o dinheiro dos iranianos é utilizado para fins terroristas): "Este homem na América que está a simpatizar com o nosso povo esquece-se que chamou terrorista à nação iraniana há uns meses. Este homem, que está de tal forma contra a nação iraniana, não tem qualquer direito de simpatizar com os iranianos."

Ao longo dos últimos dias, o Presidente norte-americano tinha partilhado alguns comentários sobre as manifestações iranianas no Twitter: “Grandes protestos no Irão. As pessoas estão finalmente a tomar consciência da forma como o seu dinheiro e riqueza estão a ser roubados e esbanjados em terrorismo. Parece que eles não aguentarão muito mais tempo. Os Estados Unidos estão a acompanhar de muito perto as violações aos direitos humanos!”, escreveu Donald Trump neste domingo. “O Governo iraniano devia respeitar os direitos dos seus cidadãos, incluindo o direito de se expressarem. O mundo está a ver” dizia o Presidente dos EUA no sábado.