Editorial

Quatro grandes perigos para 2018

Populismo, aquecimento global, desigualdade e tecnofundamentalismo são os cavaleiros do apocalipse para 2018.

Infelizmente sabemos que, daqui a um ano, os grandes problemas do mundo não estarão resolvidos. Como já se distinguem com maior clareza, podemos identificar as quatro linhas genéricas de ameaça à nossa forma de vida – que se cruzam entre si para fazer surgir problemas com que nos confrontamos diariamente.

A doença de que as democracias padecem chama-se populismo. É um vírus de escala global, altamente contagioso, que ataca especialmente em momentos de fraqueza institucional da sociedade aberta e democrática. Numa década que começou em plena crise económica e que está a enfrentar os efeitos da globalização acelerada, o populismo encontrou terreno para crescer e tem feito sentir os seus efeitos em todo o lado, tendo especial impacto para nós o que acontece na União Europeia. Se o “Brexit” foi a consequência directa de uma opção populista, o que está a acontecer na Áustria, na Polónia e na Hungria pode ter consequências bem mais graves a médio prazo do que as opções britânicas.

O aquecimento global pode não ser um tema novo, mas não é pela duração temporal que se torna menos grave – é precisamente o contrário. E, como os efeitos são pouco óbvios, a inacção é maior. A incapacidade planetária está a ajudar a acelerar uma bomba-relógio com efeitos devastadores que já está a mudar comportamentos e a desequilibrar perigosamente o ecossistema. A situação é de tal forma grave que só um abandono completo do petróleo e do carvão poderia mudar o paradigma, mas mais depressa chegaremos a Marte...

A globalização serviu para tornar o planeta mais pequeno e reduzir a distância entre economias, aproximando a humanidade. Mas dentro de cada sociedade a desigualdade só aumentou. Hoje há fenómenos gravíssimos de pobreza, nomeadamente um número crescente de cidadãos destituídos em sociedades ocidentais a que se somam todos os que não beneficiaram com a globalização nos países em desenvolvimento. E o problema da redistribuição ganha nova urgência com a emergente tecnologia que já começou a extinguir empregos nas faixas menos qualificadas.

Um novo problema, que 2017 deixou claro, foi a forma como o crescimento desmesurado das grandes empresas tecnológicas está a pôr em perigo o equilíbrio global. Os riscos têm-se manifestado essencialmente a três níveis: na acumulação desmesurada de capital sem correspondente investimento em factor humano, criando um excedente financeiro que os esquemas normais da economia não conseguem processar; na destruição de uma cultura que privilegia o método científico e que valoriza o mérito, propagando informação falsa que manipula as massas numa escala sem precedentes; na criação de desigualdades regionais reforçadas por práticas monopolistas que engendram mecanismos de dependência que cruzam fronteiras e sustentam uma nova diplomacia.

Nenhuma destas questões estará resolvida daqui a 12 meses, até porque o ritmo da humanidade não se compadece com o calendário. É até provável que se compliquem, porque as interacções destas realidades contribuem para tornar mais difícil e instável a vida em comum no planeta. Bom 2018, na medida do possível.

Nota: Correcção efetuada na designação do calendário.