Opinião

O ano dos entretanto, à espera dos finalmente

Estando o Velho Continente — e dentro dele, Portugal — em fase de entretanto, o próximo ano pode surpreender-nos sobretudo a partir da América.

De 2017 escrevi que como ano político duraria apenas seis meses. Após a dupla hecatombe populista de 2016, com o “Brexit” e com a vitória de Trump, apenas um facto seria decisivo para o ano que agora está a acabar: saber o que aconteceria nas eleições presidenciais francesas, que foram no primeiro semestre. E lá decisivas foram essas eleições. Elas marcaram o momento em que se percebeu que o desmantelar do projeto europeu é um não-plano. Tudo o resto foi um posfácio bastante arrastado e contrariado (para alguns) a essa ideia elementar.

Se o projeto europeu não vai acabar, como é que preferimos passar os próximos dez anos: ocupados a transformar a UE para melhor ou sentados no nosso canto a resmungar porque o euro-apocalipse nunca mais chega? Enquanto essas escolhas não ficam claras para toda a gente, 2018 será o ano dos entretantos. Alguns esperarão que as eleições italianas tragam de volta o frisson do populismo, mas já nem os populistas italianos são o que eram. Se 2017 foi um posfácio à vaga populista, o ano de 2018 será um prefácio ainda vago e confuso aos anos que verdadeiramente contarão para a Europa — a partir de 2019, quando for necessário escolher uma nova Comissão e um substituto para Mario Draghi. O mesmo para Portugal: 2018 será o ano do entretanto enquanto se espera pelas eleições de 2019 e o que virá depois.

Estando o Velho Continente — e dentro dele, Portugal — em fase de entretanto, o próximo ano pode surpreender-nos sobretudo a partir da América. A investigação a Trump aproximar-se-á das suas conclusões e os democratas tentarão ameaçar Trump nas eleições congressionais de novembro. Entre uma coisa e outra, o grande imponderável é se Trump será capaz de ir para a guerra com a Coreia do Norte. Essa é a carta que pode baralhar tudo em 2018.

Caso isso não suceda, o facto é que com a tensão crescente provocada pelos fenómenos da globalização, da automação e da crise ecológica, decisiva mesmo será a década de 2020. Talvez uma das mais decisivas da humanidade desde o pós-guerra. Nestes tipos de textos fica bem citar Gramsci: “A crise consiste justamente em que o velho já morreu e o novo ainda não consegue nascer: no entretanto, surgem todo o género de fenómenos mórbidos.” Para não sermos tão dramáticos, citemos antes o saudoso Odorico Paraguaçú, protagonista da novela brasileira O Bem-Amado: “E porque não botar de lado os entretanto e partir logo para os finalmente?”

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