Joshua Ness/Unsplash
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O café da espontaneidade perdida

Quando nos acontece encontrar a colega de carteira da escola primária numa festa (real), por que razão não falamos com ela, não lhe dizemos um simples “olá, há quanto tempo!”? Perdemos a espontaneidade de um abraço, de um sorriso?

Nunca encontro as palavras certas para começar. Ainda que nascida no final dos anos 80, ainda hesito nas palavras como se fosse escrever uma carta à mão, com espaço de papel limitado a um A4 bem dobradinho para caber no envelope que viajaria por Portugal. E sim, tive o privilégio de viver um primeiro amor e uma grande amizade entre Porto e Lisboa, na ânsia adolescente de abrir aquelas cartas escritas numa caligrafia quase indecifrável que demoravam três a cinco dias a chegar. Depois veio o e-mail e já de vidas feitas, cursos a terminar e namoros made in Erasmus mantivemos a nossa preciosa amizade. A antecipação de ver aquelas letras adolescentes nos envelopes das cartas foi substituída pelo clique luminoso na caixa de entrada e pelos nicknames patético-pedantes do Messenger, muito em voga no início dos anos 2000.

 

Depois, aí por 2007, chegou à minha vida o Hi5 e um pouco depois o Faceboook, o grande irmão de Huxley do novo milénio, com promessas de comunicação 24 horas, mensagens instantâneas, vidas controladas, com o desinteresse desapaixonado de amigos perdidos que já não sabem muito bem quem são, nas amarras das redes sociais. De facto, hoje em dia, os algoritmos do Facebook não jogam muito a nosso favor e temos que pesquisar essas pessoas perdidas pelo nome. Mas, e então, quando nos acontece encontrar a colega de carteira da escola primária numa festa (real), por que razão não falamos com ela, não lhe dizemos um simples “olá, há quanto tempo!”? Porque perdemos a espontaneidade de um abraço, de um sorriso? E, en cambio, como dizem nuestros hermanos, não hesitamos em deixar um like, um comentário, na rede social do Grande Irmão quando ele ou ela postam alguma coisa?

 

Com 30 anos, a minha idade, olhamos com saudade apaixonada para os vinte e poucos. Naquela idade, tudo era vivido pela primeira vez, devorávamos todos os livros que pudéssemos comprar ou resgatar da velha biblioteca da avó, devorávamos filmes, frases de poetas sul-americanos para depois, garbosamente, as citar numa noite de copos. Queríamos comer o mundo numa só colherada, queríamos alimentar ao máximo essa paixão sem fim da juventude, que, um dia, se transforma inevitavelmente no Café da Juventude Perdida da amada Paris de Patrick Modiano.

 

Porém, ainda há esperança. Eis que reencontras no mundo real uma pessoa do café da juventude perdida, no meu caso, o Piolho, no Porto. Passaram-se dez anos e não sabes se o deves cumprimentar, se ele ou ela te reconhecerão, se não era melhor procurar a pessoa primeiro na Internet. A espontaneidade de deixar uma carta no correio, de escrever um e-mail, a espontaneidade de um reconhecimento físico parecem coisas antiquadas, quase ridículas, neste 2018, em que existe um sem fim de redes sociais que nos rouba a coragem.

 

Posto este desabafo de uma ainda jovem "velha do restelo", lanço o desafio: o que fazer quando queremos encontrar alguém de quem perdemos rasto há dez, 20 anos? De quem se perdeu o rasto, telefone, telemóvel, e-mail? Sei o que vão dizer: pesquisar no Google e depois Facebook. E é quase um devoir contemporâneo que qualquer pessoa tenha uma conta social, pois, se não tiver, não conta.

 

Recentemente decidi lançar-me neste desafio: encontrar essa pessoa do café Piolho que nunca usou redes sociais e de quem perdi o paradeiro. Não foi fácil e reconheço que a encontrei virtualmente, mas não através das redes sociais. O reencontro foi positivo, não porque tivéssemos a mesma cabeça voadora de ideias — as ideias e sentimentos tornaram-se mais materialistas —, mas sobretudo para perceber que somos mutáveis e não vale a pena fingir que somos o que já não somos.

 

Mesmo essas pessoas que vivem apartadas das redes sociais acabam por ser sugadas por esta onda 4.0 e aceitam que hoje em dia tudo é momentâneo, tudo é Instagram, tudo é uma InstaStory, só para inglês ver: coitadinhos de nós, não há tempo para nada, é verdade, e quando temos tempo queremos mostrar o melhor de nós, os nossos feitos, as nossa glórias contemporâneas, bastante materialistas. Neste encontros mediáticos, esquecemo-nos de contar a verdade, de nos mostrarmos como somos realmente, com todas as implicações que isso possa ter. Não tenho dúvidas que os bebés do milénio vão ser influenciados por esta realidade de aparências sócio-virtuais, que até cargos nos atribui e nos rouba a pouca espontaneidade que ainda nos resta.