Opinião

Barbara e os temores do mundo de hoje

Na vida da cantora francesa Barbara, pretexto para um filme agora em estreia, cruzam-se fantasmas do nosso tempo.

Dalida em Abril, Barbara em Dezembro. A tentação de passar ao cinema a vida de algumas das figuras de topo da canção francesa vai tendo, nos ecrãs portugueses, o correspondente reflexo. E o filme Barbara, de Mathieu Amalric, estreia-se esta quinta-feira em Portugal, com a cantora e actriz francesa Jeanne Balibar no papel principal. A mesma Balibar que Pedro Costa filmou em Ne Change Rien, de 2009. Mas se o cinema francês, ao contrário do americano (que “biografa” em filme tudo quanto mexe), pouco tem tocado nas figuras lendárias da chanson, há pelo menos dois registos anteriores e relativamente recentes: La Vie en Rose, de Olivier Dahan, com Marion Cotillard no papel de Edith Piaf, de 2007; e Gainsbourg, Vida Heróica, de Joann Sfar, 2010.

Não se espere porém, de Barbara, um biopic tradicional. Amalric, que também participa como actor, imaginou um filme dentro do filme: Balibar vai tentando corporizar Barbara para um filme de que Amalric é o “realizador” (sendo, no caso, realizador duas vezes: dentro e fora do filme). E é o vórtice desse processo, na obsessiva absorção da personagem, misturando filmagens, ensaios e vida real, que nos vai aproximando de Barbara, na sempre misteriosa sombra da sua existência.

Pois bem: enquanto o filme se estreia por cá e se anuncia a sua edição em DVD, em França, pela Gaumont, para finais de Janeiro de 2018, saíram em catadupa diversas edições relacionadas com a cantora e por motivos óbvios: completaram-se em 2017, precisamente em 24 de Novembro, vinte anos da sua morte. Uma delas foi o documentário Barbara, De la Chanteuse de Cabaret à l'Artiste de Légende, lançado pela Ina em DVD duplo, em Novembro. Mas foi em Outubro que se concentraram a maior parte das edições: Barbara - Ou Les Parenthèses, de Jacques Tournier, livro que inspirou o filme de Mathieu Amalric (aliás o prefácio é dele); Barbara, Claire de Nuit, de Jérôme Garcin, um livro-álbum ilustrado editado pela Gallimard; Barbara, Comme Un Soleil Noir, a integral da sua discografia editada pela Mercury, numa caixa com 22 CD; e, por fim, uma colectânea intitulada Barbara 1960-1964, L’Ascension, 3 CD remasterizados editados pela Sony. Uma invasão “bárbara”, mas merecida, dado o papel da cantora na história da música francesa.

Não só: na vida de Barbara também se misturam e cruzam fantasmas do nosso tempo. A sombra das guerras e das intolerâncias (a sua família, judia, em fuga da perseguição nazi) ou o pesadelo dos abusos sexuais, de que ela foi vítima, pelo próprio pai, em criança, como viria a revelar nas suas memórias, publicadas postumamente (Il était un piano noir... Mémoires Interrompus, 1999). E há ainda a luta, difícil e prolongada, que travou para chegar ao reconhecimento público. De seu verdadeiro nome Monique Andrée Serf, nascida em 9 de Junho de 1930 de pai francês (Alsácia) e mãe ucraniana, veio a adoptar o nome Barbara por analogia com o da sua avó, Varvara Brodsky. Tendo estudado canto e piano clássico nos anos 1940, não tardaria a sentir-se atraída pela música popular, o que a levou primeiro ao teatro (numa opereta) e depois a cabarés. Em Paris, Bruxelas e de novo em Paris, percorre uma via crucis que podia tê-la afastado da música, mas a que ela foi resistindo com tenacidade. Embora haja registos seus anteriores, o primeiro álbum da sua carreira foi Barbara Chante Brassens, em 1960, tinha ela 30 anos. Depois gravou Brel (1961) e, a seguir, um disco preenchido integralmente com composições suas, Barbara Chante Barbara, em 1964. Estava, finalmente, aberta a porta da fama. Mas mesmo aqui a ficção teve de se misturar com a realidade. Para a ter como convidada num célebre programa de TV, a apresentadora Denise Glaser, inventou-lhe um disco que ainda não tinha saído: forjou uma capa, com a canção Nantes, única forma de convencer a direcção de programas a deixá-la participar (era preciso ter um disco novo). Foi um êxito. A canção seria editada meses depois. Outra fantasia: nessa canção, Barbara citava uma rua inexistente em Nantes, “Madame soyez au rendez-vous/ Vingt-cinq rue de la Grange-au-Loup.” Pois este nome foi dado a uma rua do município, em 1986, em homenagem à cantora.

De Barbara ficam-nos a voz e os passos da sua travessia, a lembrar, como já se disse, temores do mundo de hoje. Um mundo no qual a França terá de saber honrar os seus melhores dias.