Rio insiste em “contas equilibradas” no país e critica estado do PSD

Candidato promete fazer das europeias como o primeiro sinal da vitória do partido, "sozinho", nas legislativas de 2019.

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Miguel Manso
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Há um refrão, num hino do PSD, que combina com o nome do candidato -  “nós somos um rio que não vai parar” – e foi esse mesmo que ficou a tocar no fim da demorada apresentação da moção de estratégia global de Rui Rio. No discurso, o candidato à liderança do PSD insistiu nas contas públicas equilibradas, alertou para o endividamento e defendeu a descentralização (sem se referir à regionalização) como um pilar da reforma do Estado. Na moção de estratégia global, apresentada esta quarta-feira, em Leiria, o retrato do PSD é o de um partido que perdeu representação nas autárquicas dos últimos 12 anos e que precisa de escrutinar os próprios candidatos escolhidos.

Na sessão, que decorreu na associação de empresários da região de Leiria, Rui Rio falou para dentro do partido e para fora – com algumas propostas para reformas como a do sistema político, embora sem nunca concretizar. Quase sem críticas ao Governo, o candidato só abriu uma excepção quando defendeu a necessidade de Portugal ter “contas equilibradas, um Orçamento de Estado equilibrado não porque a União Europeia diz, mas porque é preciso”. E apontou uma diferença entre si e o executivo liderado por António Costa: “O actual Governo, se Bruxelas deixasse, onde é que isto ia...” Foi um dos momentos em que recebeu uma das salva de palmas mais fortes das mais de duas centenas de militantes que compunham o auditório.

Na apresentação da moção – em que discursaram quatro coordenadores de áreas temáticas - Rui Rio insistiu em puxar a sua imagem para o que considera ser-lhe mais favorável, nesta corrida à liderança do PSD: a preferência dos portugueses. “É absolutamente vital que a escolha de 13 de Janeiro seja o mais o mais consentânea possível com a vontade dos portugueses fora do partido”, afirmou. Para dentro do partido, o candidato prometeu “criar novas formas de funcionamento” e “modernizar” o PSD, fazer crescer o número de militantes, apostar na formação política, mas não concretizou nenhuma proposta. O mesmo aconteceu com a reforma do sistema político de que o próprio reconhece falar “desde que se conhece”.

Na moção de estratégia global, que os candidatos à liderança do PSD são obrigados a apresentar, Rui Rio reflecte uma visão crítica sobre o estado do partido e, como solução, apela à renovação e a um reposicionamento do partido num centro político alargado, que vai “do centro-direita ao centro esquerda, de orientação reformista e com inspiração na social-democracia e no pragmatismo social”. Sem nunca falar em entendimentos permanentes, o candidato defende a necessidade de “compromissos” em duas áreas: na alteração da lei eleitoral para aproximar a política dos cidadãos; e na justiça.

No texto, Rui Rio coloca as eleições europeias em 2019 como um prólogo das legislativas do mesmo ano. Das eleições para o Parlamento Europeu – a primeira vez que uma eventual liderança de Rio irá a votos – o candidato promete fazer o “primeiro sinal” de que o PSD se vai tornar no “partido mais votado nas legislativas de 2019”. A referência é ao partido isoladamente, e não ao espectro do centro-direita. “Depois queremos começar a recuperação da implantação autárquica do PSD”, refere o texto.

A representação autárquica do partido é, aliás, um problema identificado. O texto sublinha a “tendência descendente” do PSD nas eleições autárquicas dos últimos 12 anos. “Quebrámos os laços mais fortes que nos uniam aos nossos eleitores, simpatizantes e militantes”, refere a moção que critica o comportamento dos partidos em geral dependentes da agenda mediática: “Hoje os partidos políticos portugueses estão cada vez mais fechados sobre si próprios e dependentes dos especialistas em ganhar as guerras internas - mas que não conquistam a confiança dos eleitores – e em explorar a exposição mediática: basta uns tantos debates televisivos, um lugar fixo de comentador ou uns artigos de opinião - seja sobre o que for - para se tornarem ‘figuras públicas’, logo candidatos potenciais a um lugar político”.

Num outro capítulo dedicado também ao partido, Rio considera que, “sempre que que o PSD privilegia a ortodoxia, aumenta a sua conflitualidade interna e a sua descredibilização externa”, sem concretizar com exemplos. Defendendo que o partido tem de “saber ouvir e interpretar e congregar” diferentes sensibilidades, o candidato defende que “o PSD precisa de quebrar o progressivo fechamento a que se votou”. O exemplo é, mais uma vez, as últimas autárquicas, considerando que “ficou bem demonstrado” que o PSD revelou “uma inusitada dificuldade em recrutar candidatos que pudessem interpretar os problemas”.

Depois de ter falado do “banho de ética” na apresentação da sua candidatura há três meses, Rio deu a um capítulo da moção o título “Por uma ética na acção política”. Aí, o candidato considera que “os partidos políticos deixaram de controlar o recrutamento dos seus quadros”. Por isso, o PSD deverá “dar o exemplo na forma como recruta e selecciona os seus candidatos” e fazer uma “avaliação rigorosa e sistemática e isenta” do seu desempenho.

A sessão, que começou à medida que se iam preenchendo os lugares no auditório, arrancou com um vídeo biográfico do candidato. Foi apresentado como uma pessoa de “personalidade marcada” como é “reconhecido pelos portugueses”.