Torne-se perito Entrevista

“Queremos fazer das indústrias criativas o motor do Barreiro”

Frederico Rosa, o novo presidente da câmara que o PS “roubou” ao PCP, assegura que a cidade vai mudar em 2018. Para já, muda a localização do terminal de contentores, garante o autarca que admite abrir os TCB a outros municípios.

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Barreirense “de corpo e alma”, não se define como ‘camarro’ (natural do Barreiro velho) por “respeito” aos que têm essa qualidade. Filho de empregados de escritório de fábricas no Barreiro, e pai solteiro, aos 38 anos é um dos mais jovens presidentes de câmara do país. A estatura média não o impediu de ser um bom jogador de basquetebol. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Católica, iniciou o doutoramento em Gestão, no ISCTE e fez especializações em Recursos Humanos nos Estados Unidos da América, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), e pós-graduação em Cambridge. Fundou e geriu empresas até decidir entrar na política, assume que foi eleito para mudar o Barreiro e garante que não tem medo de tentar.

A vitória do PS foi vista publicamente como uma surpresa, mas não ficou surpreendido. Porquê?
Pelo que a rua nos dizia. Percorremos todo o concelho num trabalho de três anos e sentimos a vontade de mudança. Não foi só ganhar a câmara, mas também a assembleia e freguesias. As pessoas convencerem-se de que valia a pena mudar, porque o que estava não era solução e nós percebemos que o ónus estava do nosso lado, que tínhamos de conseguir que as pessoas acreditassem que o PS poderia ser a solução. Foi fundamental termos gente da terra, ir além do voto de cruz no partido. Há muita gente que vota no PS, mas os resultados mostram que conseguimos entrar noutro eleitorado, que todos os partidos subiram, menos a abstenção, os votos em branco e a CDU.

Como descreve os primeiros dois meses à frente da câmara?
Extraordinários. Chegámos com um nível de preparação elevado porque fizemos dois trabalhos paralelos. Não preparámos apenas a campanha mas também a presidência. E agora trabalhamos todos os dias das 7h30 quase até à uma da manhã, saímos esgotados mas desejando o dia seguinte.

Mas que mudanças ou conquistas já há?
Temos preparado muita coisa, o que me permite dizer que 2018 vai ser um grande ano para o Barreiro em que já se vai sentir a mudança. Temos conseguido muita coisa.

Está a falar de restruturação da orgânica?
Sim. Estamos a trabalhar na orgânica. Assumimos isso, porque não faz sentido continuarmos o que estava feito. A nível de funcionários, de chefias, encontrámos gente muito competente, que acima de tudo quer trabalhar, desconstruindo a ideia que íamos entrar num ‘ninho de víboras’. As pessoas receiam a mudança, mas temos um propósito e estes dois meses nesse aspecto têm sido fabulosos.

E a CDU facilitou a transição?
Foi uma transição cordial. Encontrei-me com o anterior presidente, uma conversa de passagem de pasta cordial. 

Que orçamento vai apresentar em Janeiro?
Uma das coisas é a oferta dos livros escolares. Foi uma das nossas bandeiras e esta aposta na Educação é um sinal que queremos dar uma mais-valia a quem reside no Barreiro e tem os filhos cá a estudar. Há três grandes áreas onde vamos incidir, no Turismo, Cultura e Educação, sempre com ligação ao desenvolvimento económico. Por exemplo, vamos transferir já o posto de turismo que estava no centro da cidade, onde não há turistas, para o terminal da Soflusa, que é umas das portas do Barreiro. É um primeiro sinal de que queremos prosseguir este caminho. E queremos que as indústrias criativas sejam o motor de desenvolvimento económico e uma marca do Barreiro.

O que vai mudar na política cultural?
Ainda não temos as Grandes Opções do Plano fechadas, mas a grande diferença vai ser não encarar estas áreas como aquelas em que apenas se atribui subsídio, mas como motor de desenvolvimento e de conexão entre empresas e associações. Temos bons eventos culturais que são uma referência, mas que precisam de ganhar escala, e relevância. Muita gente que não vem ao Barreiro tem ideia que é uma terra cinzenta, distante e com poluição, mas não é assim. Esta percepção tem que ser alterada.

As ligações fluviais com Lisboa atingiram este ano um pico de degradação. Compreende os incómodos que têm sido provocados aos barreirenses?
Claro, e temos que estar activamente na procura de soluções, porque o barco para Lisboa é o grande transportador de barreirenses. Percebemos o incómodo, não temos dúvidas de que temos de estar sempre ao lado dos barreirenses e ainda recentemente a câmara aprovou, por unanimidade, uma moção sobre isso. Vamos encontrar uma solução, mas vamos ter que ser honestos; isto não aconteceu por geração espontânea, tem causas antigas, como a falta de manutenção e de renovação dos certificados de navegabilidade. Sabemos de onde o processo vem, em vez de atirarmos culpas, optámos por trabalhar para encontrar soluções, aproveitando a experiência do vice-presidente da câmara, João Pintassilgo, que já foi administrador da empresa, com que estamos em contacto estreito.

O novo executivo vai dar continuidade ao financiamento e modernização dos Transportes Colectivos do Barreiro (TCB)?
Claro. Fomos nós que lançámos o caderno de encargos para o concurso, quer para a renovação da frota a gás, quer para o abastecimento. Foi das primeiras coisas que fizemos, essa linha é para seguir, até porque tínhamos uma frota envelhecida e os TCB são uma marca do Barreiro.

Há quem veja a manutenção de uma empresa de transportes na propriedade do município como uma opção ideológica. Como vê essa questão?
Mais do que o cariz ideológico, acho que os TCB no Barreiro dão uma grande coesão territorial à cidade, temos transportes públicos de muita proximidade. O anterior executivo optou, e bem, por prever o alargamento a outros concelhos, mas cometeu um erro estratégico; não tínhamos capacidade operacional para o fazer, por causa da frota envelhecida. Uma coisa é prevermos o alargamento, outra coisa é operacionalizá-lo. Sou completamente favorável ao alargamento dos TCB a outros municípios com capacidade operacional, já com uma frota modernizada. O que não podia ter acontecido foi alargar a operação à Moita sem condições. Aliás, uma das surpresas que nós tivemos foi que a Câmara do Barreiro tinha cobrado zero euros, por este alargamento durante um ano e meio, à Moita. Nunca cobrou nada. São mais de 100 mil euros, que têm que ser facturados à Câmara da Moita, obviamente.

A estratégia da CDU, conjugada com outros municípios comunistas da região, era o de alterar o estatuto e até, eventualmente, a natureza societária dos TCB e transformar a empresa num operador regional de transportes. Concorda?
Tenho algumas dúvidas. Os TCB são uma marca do Barreiro e há uma ligação quase emocional, de amor-ódio dos barreirenses aos transportes colectivos, porque toda a gente quer o autocarro à porta de casa, à hora certa e, de preferência, o mais barato possível. Mas acho que a Câmara do Barreiro deve ter sempre controlo sobre os TCB,que são uma marca nossa. Quando tivermos a nova frota, temos de operacionalizar esse alargamento a outros concelhos mas, na nossa visão, aos dias de hoje, os TCB são os transportes do Barreiro.

Sem prejuízo da participação de outros municípios na empresa?
Sim. Diria que, não tendo um pensamento consolidado e definitivo, acho que é um caminho que deve ser trilhado, sem nunca abrir mão desta premissa.

A CDU era contra o aeroporto no Montijo. E o novo executivo?
Mantenho a posição que tinha antes das eleições. Existem constrangimentos para o Barreiro que nos preocupam, como os efeitos sobre a qualidade de vida, que temos de perceber, com ajuda dos estudos que estão a ser feitos, mas o concelho também não pode ficar apenas numa posição de protesto. Temos de perceber se, vindo para cá, o aeroporto pode ser realmente um motor de desenvolvimento económico para a região. E o Barreiro quer ter a sua quota-parte nesse desenvolvimento pelo que tem de ser proactivo. Não podemos ficar "orgulhosamente sós" a protestar.

E com o aeroporto no Montijo, ganha força a hipótese de uma nova ligação rodoviária Barreiro-Montijo?
É necessária a ligação rodoviária Barreiro-Montijo e Seixal-Barreiro. E digo isto sem prejuízo de achar fundamental a terceira travessia sobre o Tejo. Não vejo que uma coisa exclua a outra. É fundamental que o Arco Ribeirinho Sul (ARS) também tenha uma circular interna, que ligue estes territórios, incluindo a Moita. O Lavradio está a 800 metros do Montijo, e estamos a 300 metros do Seixal, e temos que fazer 16 quilómetros para lá chegar. É uma questão de coesão territorial que, como está, não faz sentido. Pode ser também por aqui a via de alargamento do Metro Sul do Tejo, que actualmente tem pouca escala e não dá resposta.

O PS teve um mandato no Barreiro, há 12 anos, e perdeu a autarquia para o PCP. Não tem medo que volte a acontecer?
Não, nenhum. Isso era o que muita a gente dizia na campanha, que ‘eles já lá estiveram uma vez’. Mas ‘eles’ quem? O PS já teve cá uma vez, mas o partido é feito pelas pessoas. E agora são outras pessoas. Sabemos muito bem o que vamos fazer, nós fomos eleitos para mudar, não para continuar o que está feito. Há uma expressão que gosto muito, ‘não se vira um petroleiro com uma guinada’, e nós temos uma autarquia grande, mas vamos mudar de rota, que ninguém tenha dúvidas disso. Podíamos desculpar-nos com o possível, mas temos a obrigação de mudar o rumo desta cidade. Por isso, não tenho medo nenhum, estou a fazer pela minha terra, sei a força e capacidade de trabalho que temos, e ficarmos cá vai ser apenas uma consequência.