O ano dos nossos monstros

Podemos continuar a gostar da arte feita por artistas acusados de assédio e violência sexuais? Historiadores de arte, críticos, filósofos, realizadores e biógrafos repensam o ano depois da revolução #MeToo.

Já este mês, uma petição lançada por nova-iorquinos pedia ao Metropolitan Museum of Art para retirar das paredes uma pintura de 1938 assinada por Balthus, <i>Thérèse Dreaming</i>, devido “ao clima actual de assédio sexual”
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Já este mês, uma petição lançada por nova-iorquinos pedia ao Metropolitan Museum of Art para retirar das paredes uma pintura de 1938 assinada por Balthus, Thérèse Dreaming, devido “ao clima actual de assédio sexual” GETTY IMAGES

Quando o realizador britânico Nick Willing decidiu fazer o documentário Paula Rego, Histórias & Segredos, estreado em Abril em Portugal, nada faria adivinhar a revolução que chegaria no final do ano, depois das denúncias em cascata de casos de assédio, abuso e violência sexuais que começaram em Hollywood com o poderoso produtor Harvey Weinstein. É perturbador rever agora o filme do filho da pintora portuguesa e encontrá-lo cheio de l’air du temps, com histórias que envolvem um violento e brutal primeiro encontro sexual nos anos 50 com o futuro marido de Paula Rego, o artista Victor Willing (1928-1988), pai do realizador. Uma Paula Rego virgem, umas cuecas que descem à pressa e sexo mais do que apressado com uma das então estrelas da Slade School, um homem casado que mal conhecia, numa experiência traumática que a artista depois retrabalhou nos seus quadros.

O filho de Paula e Vick relembra que a obra que a pintora fez sobre o primeiro encontro com o pai é The Wedding Guest (1999-2000): “Claro que agora é a primeira vez que sabemos que esta obra, muito famosa, é sobre aquilo. Quando a minha mãe fala sobre a sua vida, a sua biografia, conta sempre a mesma história, mas quando fazemos perguntas sobre a sua obra consegue contar sempre história diferentes. Hoje é uma história, amanhã outra, a força que tem The Wedding Guest é ser sobre um segredo. Através da pintura, ela está a tentar perceber essa experiência, a memória que ela tem — isto chama-se psicanálise e é uma coisa inventada por Sigmund Freud. Os artistas têm uma maneira única de resolver estes problemas, fazem os quadros para perceber melhor o que está nas suas mentes. É uma forma de exorcismo.”

Esse episódio, passado em 1952, não espelha, evidentemente, toda a dimensão da relação que Rego teve com o seu marido, “que foi o grande amor da sua vida”. Mas, acrescenta o realizador, “transmite a mente” da sua mãe, como ela faz “uma confusão entre essa violência, o sexo, o aborto e o amor”, porque nos anos 50 não havia contracepção e o sexo era uma coisa algo misteriosa. O documentário de também aborda como as alunas da Slade School, como Paula Rego, passarem por vários abortos, sem os seus parceiros sexuais se importarem muito.

Perguntámos ao realizador britânico se é possível olhar para o filme como um prelúdio do que aconteceu este ano, sobre a necessidade das mulheres falarem de um mundo em que as relações com os homens continuam desequilibradas, por vezes mesmo misóginas, onde o abuso e a violência emergem mais assiduamente do que imaginávamos. Se o podemos ver como uma antecipação do movimento #MeToo, o cirberactivismo que já juntou milhares de mulheres (e alguns homens) na denúncia de actos de assédio sexual de que foram vítimas.

“O que mudou, ou está a mudar, é que as pessoas agora ouvem os gritos das mulheres. O que aconteceu este ano não é uma grande surpresa, porque homens a tratar mulheres sem respeito acontece há muitos anos, mas o que é diferente é que agora as mulheres podem dizer alguma coisa, podem ficar escandalizadas, lutar e ganhar. Deixou de ser um segredo”, responde, ao telefone, num português quase perfeito.

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“Se violar é uma arte, dêem a Polanski todos os Césars”, gritavam através de um megafone, uma centena de mulheres à porta da Cinemateca Francesa, em Paris Chesnot/Getty Images

Se Nick Willing optou por falar sobre estes segredos, é porque eles estavam representados na obra da artista. Pensou muito quando fez o documentário — “seria uma coisa horrível fazer uma coisa sobre a minha mãe que fosse um desastre”, “sempre adorei as obras dela” —, mas não se tratava de ser “politically correct”: “Para mim, um artista é uma pessoa que explora as sensações mais extraordinárias, mais difíceis, mais inconscientes. É uma pessoa que sonha e que pinta o que sonha. Não é uma pessoa que hesita e fica a ponderar se isto ou aquilo é ou não uma boa ideia. E o que mete mais medo são as obras que lidam com as coisas mais honestas.”

Apesar de Paula Rego ter confidenciado ao filho que gostava de ter tido uma vida mais alegre, e provavelmente não pintar tão bem (nessa altura a conversa era sobre a recorrência da depressão na sua vida), o realizador não sabe se acredita nas palavras da mãe. Paula Rego “vingou-se” do pai nos quadros, de alguns amantes, que representou como mártires e chegou mesmo a matar, mas o deleite que agora temos com as suas obras nunca foi questionado, ou posto em causa, porque afinal retratam o sofrimento da artista e não exibem (ou escondem) feridas de terceiros. O mesmo, porém, não tem acontecido com uma série de artistas, principalmente homens, envolvidos em histórias de abusos sexuais denunciadas por um movimento que parece imparável.

O que fazer com a arte destes homens monstruosos? — perguntava Claire Dederer num artigo na Paris Review. Roman Polanski, Woody Allen, Bill Cosby, William Burroughs, Richard Wagner, Sid Vicious, V.S. Naipul, John Galliano, Norman Mailer, Ezra Pound, Caravaggio, etc. A lista era interrompida com algumas mulheres — a actriz Joan Crawford, por exemplo —, mas a autora, a preparar um livro sobre a relação entre mau comportamento e boa arte, voltava rapidamente ao género masculino, interrogando-se ainda sobre Pablo Picasso, Max Ernst ou Miles Davis. “Eles fizeram ou disseram coisas horríveis, mas também fizeram algo fantástico. Não conseguimos ver, ouvir ou ler essa grande obra sem nos lembrarmos da coisa horrorosa. Invadidos com informação sobre a monstruosidade, viramos a cara, vencidos pelo nojo. Ou... não o temos de fazer?” Claire Dederer relata que perguntou o mesmo a vários colegas e amigos, constatando que não sabemos como encarar estes génios monstruosos.

A mesma pergunta sobre a contaminação da arte pela vida tem reaparecido aqui e ali. As respostas diferem muito. Há os que, indignados, questionam com manifestações na rua a legitimidade de se fazer em Paris uma retrospectiva sobre Roman Polanski, um fugitivo da justiça norte-americana que o tenta extraditar há 40 anos para julgá-lo por ter violado Samantha Geimer, uma menor, nos anos 70. Outros que se refugiam no pequeno gesto, individual, de pôr de castigo, por uns tempos, as suas caixas com os discos do maestro James Levine ou os filmes do actor Kavin Spacey, ambos acusados por vários homens de terem sofrido abusos sexuais, conduta que durou várias décadas e terá envolvido, por vezes, também menores.

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Robert Polanski Kacper Pempel&REUTERS
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Repulsa (1965), de Roman Polanski: o realizador é um fugitivo da justiça americana, estando acusado da violação de menores

“O assédio sexual não começou no ano de 2017. Nos seres humanos, e nos homens em particular, há um elemento violento e predador, que pode tomar formas cruéis e assustadoras e que não se manifesta apenas na agressão sexual”, diz a filósofa Maria Filomena Molder, num curto depoimento ao Ípsilon. Mas, “a menos que as obras de um artista sejam más, não me parece que o passem a ser por causa desse artista ter perseguido sexualmente alguém”. “Abismos e paradoxos”, continua Molder, “são o pão nosso de cada dia da vida humana”, ressalvando que nada disso “equivale a tolerar o exercício impune dessa violência, sobretudo quando as vítimas estão indefesas e/ou são crianças”.

Foi quando Claire Dederer começou a fazer pesquisa para um livro sobre Roman Polanski que a investigadora ficou impressionada com o tamanho da sua monstruosidade: “era monumental, como o Grand Canyon”, conta no mesmo artigo da Paris Review. Mas, mesmo assim, continuava a ver os filmes de Polanski, tentando separar o artista da arte. “Quando os via, a sua beleza era outro tipo de monumentalidade, impermeável ao meu conhecimento sobre a sua violência. Li exaustivamente sobre a sua violação de Samantha Geimer, com 13 anos de idade, procurando que nenhum detalhe ficasse desconhecido. Apesar desse conhecimento, ainda conseguia ver os seus filmes, e via-os repetidamente, principalmente os seus grandes filmes: Repulsa, A Semente do Diabo, Chinatown. Como todos os trabalhos dos génios, convidam à repetição. Detestava-os. Faziam parte de mim, como faz uma coisa que amamos.”

Porque é que há obras, ao contrário de outras, que resistem ao nosso juízo moral? A autora confessa que o que tinha levado mesmo a mal fora o envolvimento de Woody Allen com Soon-Yi Previn, a filha da sua companheira Mia Farrow, porque ele era uma espécie de seu alter ego na adolescência. E Soon-Yi, sublinha, era uma adolescente ao seu cuidado quando dormiram pela primeira vez juntos; ele era o realizador mais famoso do mundo.

Uma obra “antimulheres”

O filme Manhattan, em que Woody Allen namora com Mariel Hemingway, uma estudante de liceu de 17 anos, ficou sem ser revisto pela ensaísta vários anos, mesmo depois de outros terem sido visionados pela escritora. Até que chegou este Verão de 2017, quando já se pensa em monstros na época Trump, e Claire Dedere sentou-se no sofá determinada a manter a cabeça aberta. Mas, reconhece, este foi um Verão de “extremo desconforto”, depois de acontecimentos como a Marcha das Mulheres em Washington no início do ano, uma das muitas reacções às acusações de assédio sexual em que o próprio Presidente dos EUA também se viu incluído. O filme, considerado uma obra-prima, fê-la sentir “um pouco maldisposta” — porque Claire Dederer o sente como um filme “antimulheres” — mas a “autoridade” que controla o cânone diz que um trabalho deve manter-se “intocado” pela vida dos autores e que deve ser julgado pelo conteúdo estético. “A autoridade diz que a biografia é uma falácia.”

Woody Allen teve azar com a estreia do seu último filme, Roda Gigante, que chegou agora às salas. Foram canceladas as entrevistas de promoção do filme em que é difícil não voltar a pensar em Soon-Yi, como em Manhattan. O narrador, um banheiro de Coney Island chamado Mickey, apaixona-se pela enteada da protagonista, Ginny, papel desempenhado por Kate Winslet, enquanto tem um caso com esta. Ouvimos Kate Winslet dizer, num momento Blanche DuBois, que “mentimos a nós próprios para continuar a viver”, ao mesmo tempo que acusa o pai da enteada, um ex-alcoólico que parece um bom homem, de querer namorar com a própria filha, a enteada que sente como uma ameaça ao seu amor pelo narrador.

Manohla Dargis, uma das críticas mais conhecidas do New York Times, defende na sua review que geralmente não é boa ideia pôr um filme no sofá — “mas e se ele trepar para lá e começa a piscar?”. Confessa que se interrogou, e não é a primeira vez, sobre aquilo em que Woody Allen estava a pensar quando fez o filme e sobre as suas intenções, tratando-se de um realizador que assiduamente mistura factos e ficção: “Os críticos têm muitas vezes ignorado com dificuldade a sua história, mas ele próprio parece, perversamente, ter a intenção de a evocar.”

Com dúvidas parece também estar o crítico de música clássica do mesmo jornal sobre o que fazer com a arte dos monstros. “Devo guardar os discos de James Levine?”, titula Anthony Tommasini num artigo dias depois de todo o escândalo que levou à suspensão do maestro do famoso teatro de ópera nova-iorquino. O crítico, outra referência do jornal de referência, começa por dizer que agora não sabe onde colocar duas caixas com gravações históricas de Levine para a Metropolitan Opera, até aqui exibidas orgulhosamente no seu apartamento que partilha com o marido, numa homenagem ao génio do maestro. “Não vou desistir delas. Mas vou pô-las fora da minha sala.”

Podemos, então, gostar da obras artística de um homem (ou mulher) e ter fortes objecções à sua conduta? — perguntamos a um dos críticos do PÚBLICO, António Guerreiro, também nosso colunista. “Claro que sim”, porque “quando uma obra de arte não se sobrepõe ao seu autor — à contingência pessoal, de ordem biográfica, pessoal, política, etc. —, estão é porque é medíocre”.

António Guerreiro cita um texto da filósofa Hannah Arendt sobre o dramaturgo Bertolt Brecht que acha muito esclarecedor: “Ela acusa Brecht de grandes ‘pecados’ políticos, o louvor de Estaline e a justificação dos seus crimes, mas não deixa de reconhecer a grandeza da obra. E Hannah Arendt retira esta conclusão: ‘os poetas raramente têm dado bons cidadãos, cidadãos dignos de confiança’.”

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Os artistas e o seu exorcismo: Paula Rego, um violento e brutal primeiro encontro sexual com o futuro marido DR

Já o historiador de arte Joaquim Caetano começa por dizer que não sabe responder à pergunta se podemos gostar da arte feita por artistas acusados de assédio e violência sexuais? “A forma como olhamos as obras de arte é pessoal e não há uma maneira ‘certa’ de o fazermos. As obras funcionaram de uma maneira no seu tempo e continuam ao longo da sua história sendo carregadas de sentidos, ou perdendo outros.” Mas para este conservador de pintura do Museu Nacional de Arte Antiga a biografia dos artistas pouco conta, “sobretudo numa época em que eles se viam como criadores de emoções ou transmissores de ideias, sempre do ponto de vista da eficácia de quem as via, mais do que na transmissão de sentimentos próprios”. Os trovadores medievais, exemplifica António Guerreiro, não viviam os amores que cantavam: “A matéria da literatura estava codificada, por tópicos, temas e motivos.” O romantismo, acrescenta o crítico, é que traz o mito da obra do artista mostrar fragmentos da sua vida: “A partir da tua vida, construirás uma bela obra.”

Sobre se obra e artista devem ser separados, Caetano recorda a obra do renascentista italiano Carlo Crivelli (c.1430-1495), cuja pintura saída de Portugal numa rocambolesca história transpirava uma beleza doce e idealizada: “O mesmo criador dessa amável imagem foi julgado em Veneza por ter sequestrado e abusado repetidamente da mulher de um marinheiro ausente que mantinha prisioneira em sua casa. Fra Angelico achava necessário viver em Cristo para ser um bom cristão, mas as suas imagens não são mais piedosas do que as do devasso Fra Filippo Lippi.” Todas estas histórias, acrescenta o historiador de arte, foram tiradas do livro Born under Saturn, de Rudolf e Margot Wittkower, já publicado em 1963 e que fazia uma recolha de comportamentos desviantes em artistas do passado. Conseguimos encontrar em muito poucos traços da sua moralidade na sua obra, defende o historiador: “Toda a arte, da música à literatura, interrogou o homem na sua complexidade, fraquezas, medos, heroísmos. A não ser numa sociedade de andróides estará sempre na arte muito do que moralmente nos pode causar desconforto.”

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O quadro, The Wedding Guest (1999-2000) Paula Rego, Courtesy Marlborough Fine Art’

Tal como Joaquim Caetano, António Guerreiro pensa que, em princípio, qualquer obra de um artista deveria ser julgada de maneira completamente autónoma e sem interferências da pessoa do autor. “Submeter a obra às consequências do julgamento moral (ou criminal) do seu autor é estúpido, altamente pernicioso e, em última instância, coloca a arte na dependência de códigos históricos e sociais — portanto, próprios de uma época — de moralidade.” O crítico do PÚBLICO faz uma analogia como o que os regimes totalitários, tanto o nazismo como o estalinismo, fizeram às obras dos artistas que consideraram dissidentes, expulsando-as ou até queimando-as. 

Já em Dezembro, uma petição lançada por nova-iorquinos pedia ao Metropolitan Museum of Art para retirar das paredes uma pintura de 1938 assinada por Balthus, que representa uma rapariga com as cuecas à mostra (o artista francês é uma das referências de Paula Rego), devido “ao clima actual de assédio sexual”. O Met, que era acusado de “romanticizar o voyeurismo” e “objectificar as crianças” como Lolitas, recusou retirar a obra Thérèse Dreaming, afirmando que a arte deve reflectir vários períodos históricos e não apenas o actual.

Nicholas Fox Weber, biógrafo de Balthus, diz ao Ípsilon que a ideia “de remover a pintura das paredes do Met é chocante e indiscritível por palavras”. Quanto à razão do artista francês ser um alvo, o também director executivo da Fundação Josef e Anni Albers explica que Balthus sempre foi como que um “pára-raios” em vários episódios de censura. “Quando [em 1999] apareceu a minha biografia dele, a jornalista que fez a crítica no New York Times acusou-me de ser um pai irresponsável por ter levado as minhas filhas a conhecê-lo.”

Mesmo o Met, diz Nick Weber, “pode ser horrível nas suas políticas de censura”: “Espero que não cedam à pressão. Eles retiraram o meu livro The Clarks of Cooperstown [sobre a história desta família] das estantes do museu, porque trazia revelações sobre a homossexualidade do pai de um dos seus patronos. É tudo uma forma de loucura. Se eles retiram o Balthus, o que é que vão fazer com milhares de outros trabalhos no museu? Eu não entro no debate sobre o conteúdo erótico ou a capacidade de sugestão do trabalho de Balthus. Quem é que liga a isso? Venho de uma cidade onde um livreiro foi para a prisão por vender livros de Henry Miller nos anos 50. As pessoas enlouquecem com as suas manias de purificação.”

“O pessoal é político”

A pergunta que regressa ciclicamente, diz a historiadora de arte Filipa Lowndes Vicente, é: como é que o juízo estético convive com o juízo ético? Investigadora do ICS que tem trabalhado as questões de género em história da arte, diz que a pergunta tornou-se especialmente pertinente com os acontecimentos do último ano: “A prática de assédio sexual é inseparável de uma cultura de discriminação de género em que homens tendiam, e tendem, em estar do lado do poder e as mulheres numa posição subalternizada, profissional e economicamente. O assédio sexual foi identificado e denunciado a uma escala nunca antes vista e é importante termos consciência de ‘porquê agora’ e ‘porquê nos lugares onde aconteceu’.”

Enquadra estas denúncias em cascata no movimento anti-Trump e, mais especificamente, na força avassaladora que tomou conta do país com a Marcha das Mulheres em Janeiro de 2017.  No seu número de Natal, a influente New York Review of Books chama-lhe uma “revolução”: “Todas as revoluções têm as suas armas de eleição — já foram mosquetes e guilhotinas, desta vez é a ‘partilha’ e a exposição mediática. Não rolaram cabeças, mas carreiras: contratos rasgados, negócios cancelados, agentes despedidos, contas de emails fechadas. A morte de uma carreira não é pouca coisa — é o equivalente moderno a perder tudo.”

Apesar de o movimento ter nascido na América mais progressista, sublinha Filipa Vicente, há um paradoxo muito visível nesta história, que é o facto de ter sido desencadeada pela conduta alegadamente criminosa de um apoiante assumido do poder democrático como Harvey Weinstein. “Esse aparente paradoxo talvez não o seja. Mostra que o assédio sexual e, em geral, a cultura de desigualdade, discriminação e misoginia em relação às mulheres não tem partido, ideologia, esquerda, direita. Tal como não é apanágio daquelas esferas que identificamos como sendo mais ‘masculinas’, ‘conservadoras’ ou ‘fechadas’. O mundo das artes, da criatividade ou da cultura em geral — do cinema, teatro, artes visuais, literatura, jornalismo — que o senso comum poderá julgar mais ‘progressista’, ‘aberto’, ‘igualitário’ não o é. E, paradoxalmente, esta tensão pode até servir para melhor camuflar a misoginia que julgaríamos mais banal em esferas como a política ou o mundo empresarial.”

Voltamos ao documentário de Paula Rego para falar dos cruzamentos entre vida e obra: “Paradoxalmente Paula Rego vai para Londres porque o pai, admirador da cultura britânica, dizia que Portugal não era um país para mulheres. Em Londres, encontra, de facto, um mundo muito diferente do português, mas em que persistiam muitas desigualdades e discriminações de género — e mesmo violência sexual —, mas mais camufladas, e legitimadas, nesse mundo artístico.” Décadas depois, sublinha a historiadora de arte, Paula Rego, Histórias & Segredos vem dar-nos um novo sentido ao lugar do aborto na biografia de Paula Rego: “O aborto como um resultado do assédio e da violência sexual a que os homens da Slade sujeitavam as alunas mulheres. A banalidade da violência sexual e da desigualdade de género exposta com a crueza, transparência e verdade com que Paula Rego sabe falar e pintar.” Como diz a frase feminista, lembra a investigadora do ICS, “o pessoal é político”.

Há muitos níveis de leitura de uma obra, acrescenta Filipa Vicente. “Não há respostas simples nem dualistas. Tenho mais dúvidas e interrogações do que respostas. Há diferenças entre autores já mortos situados no passado e autores no presente? O Caravaggio foi um assassino em fuga. Isso afecta a forma como vemos a sua obra? Como promover uma ética sem cair na censura?”

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O filme Manhattan (1979), em que Woody Allen namora com Mariel Hemingway, foi considerado uma obra-prima na estreia; hoje há quem o considera um filme “antimulheres”

O artista é um fingidor

E estamos de regresso à questão se obra e artista são indissociáveis ou completamente separáveis? António Guerreiro responde que isso depende do ponto de vista onde nos situamos. “Se fizermos uma análise munidos dos instrumentos analíticos do saber psicanalítico, vamos encontrar seguramente determinações interiores da pessoa do artista da obra.” Mas a ideia, acrescenta, “de que há via directa e necessária que conduz da vida à obra é uma ilusão: a ilusão biografista”.

A obra de um escritor ou de um artista pode ser feita numa relação muito estreita com os factos pessoais da sua vida, e pode ter como matéria a sua vida interior, “mas não deixa por isso de permitir uma leitura, uma elaboração interpretativa, que não tem isso em conta”. O biografismo, lembra, foi repudiado nas metodologias críticas da segunda metade do século XX: “Escritores como Kafka e Pessoa mostram bem como é falacioso estabelecer uma relação directa e imediata entre a obra e o artista: há muitos Kafka contraditórios entre si e Pessoa é uma legião.” Ou seja, mesmo quando o artista afirma explicitamente que é a sua vida, que é a sua pessoa que está a ser plasmada na sua obra, nós, que vamos ler ou ver a sua obra, podemos ignorar isso. “A passagem da vida à obra, da obra ao artista, existe certamente, mas os seus mecanismos são muito mais complexos do que as interpretações e leituras que nos prometem que, conhecendo o homem, ficarás também a conhecer a obra. Ou então, podes chegar a decifrar o enigma do homem através da sua obra.

“Se violar é uma arte, dêem a Polanski todos os Césars”, gritavam através de um megafone, na descrição do Le Monde, uma centena de mulheres com cerca de 30 anos, representantes da nova geração de feministas, sem grandes dúvidas sobre a sua militância, e que querem marcar o affaire Weinstein como o início de uma nova época. Protestavam em frente à Cinemateca Francesa, em Paris, contra a retrospectiva dedicada a Polanski, no dia em que o realizador foi convidado a apresentar, no final de Outubro, em ante-estreia, A Partir de uma História Verdadeira, que esta semana chega às salas portuguesas.

“Não acreditamos na dissociação do homem e do artista que a Cinemateca reivindica”, afirmou ao Le Monde no final de Outubro uma das porta-vozes do grupo Osez le féminisme. No dia seguinte, no programa de televisão C à Vous, dedicado ao tema “Podemos celebrar Roman Polanski?”, Raphaëlle Rémy-Leleu, também porta-voz do Osez le féminisme, disse que as comparações com Céline, que faz parte do cânone francês ao mesmo tempo que é acusado de ser anti-semita e de ter colaborado com a nazismo, não pode servir para tudo. “Nós temos que assumir a história, não reescrevê-la, mas podemos escrevê-la de maneira diferente. O Polanski hoje na Cinemateca nega totalmente a violência masculina. É muito duro em relação às mulheres que têm tentado falar.”

Não se trata de reclamar uma imunidade especial para o artista, defende no jornal francês Wassim Béji, o produtor do filme de Polanski. Uma homenagem na Cinemateca, contrapõe um jornalista da Première, Éric Naulleau, no mesmo programa de televisão, “não impede as mulheres de falarem”. Mas devemos condenar uma obra em que nos interrogamos de que forma faz a apologia do sexismo, da violação ou da pedofilia? Devemos queimar as obras de todos aqueles que a vida não foi um modelo de virtude?

A Cinemateca Francesa insurgiu-se, em comunicado, contra a “lógica de linchamento popular”. José Manuel Costa, director da Cinemateca nacional, diz que faria, “com certeza”, uma retrospectiva do Polanski em Lisboa. “Não vejo nenhuma razão para não o fazer. Não tenho qualquer dúvida sobre o nosso trabalho em relação a essas obras, como de qualquer museu em relação à obra de um pintor. A decisão de fazer uma retrospectiva ou de divulgar a obra tem apenas a ver com a sua importância na história da arte.” Defende que a instituição tem o dever de trabalhar a obra de Polanski. “Fazer o contrário seria apagá-la para o público das novas gerações em função de factores que não têm directamente a ver com a própria existência dessa obra. Não é nosso papel apagar a história.”

Essa também é a posição da Cinemateca em relação às questões ideológicas, em que há muito mais casos. Quando em 2015 se celebrou o centenário de O Nascimento de uma Nação, de D.W.Griffith, a Cinemateca voltou a fazer uma grande sessão com uma obra da história do cinema que hoje é considerada como racista. “É apenas uma das obras fundamentais da história do cinema, absolutamente decisiva para evolução do cinema na América e depois no mundo. O filme é acusado de posições racistas, e obviamente tem-nas, em relação à Guerra Civil Americana. Hoje é considerado por muita gente uma obra indesejada, mas faz algum sentido apagá-la e com isso impedir a compreensão da história do cinema?”

A Cinemateca, lembra o director, enquadra sempre os filmes. Quanto a Polanski, diz José Manuel Costa, não quer pronunciar-se sobre se a obra precisaria de um contexto em que se explicasse que é um fugitivo da justiça. “Acho que esse assunto está mais do que gasto. Não tenho que me pronunciar agora sobre isso. O que me parece relevante é que a obra do Polanski tem importância na história do cinema e que qualquer Cinemateca do mundo a pode e a deve exibir. Não estou com isto a dizer que estas questões não sejam importantes ou não devam ser discutidas. Acho é que não devem ser confundidas com a decisão de fazer uma retrospectiva. Há fóruns para discutir cada coisa.”

Tal como a Cinemateca francesa, o director da Cinemateca tem agendado um ciclo dedicado Jean-Claude Brisseau, autor de obras como Os Anjos Exterminadores e A Rapariga de Parte Nenhuma, condenado em 2005 a um ano de prisão por assédio a duas actrizes, tendo surgido posteriormente novas queixas. “Quando chegar a altura faremos o ciclo sem qualquer hesitação.” 

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