Ir ao restaurante e levar os restos para casa ajuda a combater a seca

Combater o desperdício alimentar é mais do que não deitar comida ao lixo: ajuda a controlar o desgaste do solo, as emissões de CO2, a mão-de-obra, a água. Há uma Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício que acabou de ser entregue ao Governo. Falta uma semana para ser posta em prática.

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No restaurante Zé da Mouraria, em Lisboa, já é habitual os clientes levarem para casa o que sobrou da refeição Nuno Ferreira Santos

O restaurante Zé da Mouraria, em Lisboa, fez do tamanho das doses uma imagem de marca. Dispostas em grandes travessas, as refeições enchem o olho e o estômago — bifes, costeletas, bacalhau, comida típica portuguesa, muita carne na grelha. Cada dose dá para mais do que uma pessoa. Por isso é normal ver os clientes a sair com saco e marmita de plástico, levando o que sobrou do jantar. Se não acontece, o que fica nas travessas é dividido entre os empregados ou é oferecido a alguns clientes fixos da zona, na Rua Gomes Freire: sem-abrigo ou gente que passa dificuldades.

Dono de restaurantes em Lisboa como o Il Matriciano, em São Bento, o italiano Alessandro Lagano é um cliente assíduo do Zé da Mouraria 2, o seu “sítio preferido” na cidade, diz cheio de entusiasmo, rodeado de crianças e de um amigo. “Não é meu hábito levar para casa, mas aqui a dose é enorme e não gosto de deitar para o lixo”, diz à saída, com o seu saco na mão. Alessandro Lagano acha que se “desperdiça muita” comida em geral. Ele próprio tem um acordo com a Santa Casa da Misericórdia para levar as sobras do seu restaurante. O que chega das mesas tem necessariamente que ir para o lixo, segundo as regras de segurança alimentar.

No Natal há sempre comida a mais, é um facto. Os olhos comem mais do que a barriga. Mas se hesitar em pegar numa marmita e enchê-la para dar a alguém para comer no dia seguinte, pense na água que se poupa neste período de seca em que estamos, na comida que se aproveita, no ambiente que se protege.

De todos os alimentos que se produzem no mundo, um terço é desperdiçado, estima a Agência Europeia do Ambiente. E, dizem os estudos, os grandes desperdícios estão justamente nas famílias, nas cantinas, nos restaurantes, ou seja, na fase final da cadeia, sublinha Iva Miranda Pires, uma das investigadoras do PERDA (Projecto de Estudo e Reflexão sobre o Desperdício Alimentar, de 2012, do Centro de Estudos e Estratégias para a Sustentabilidade).

O desperdício custa à economia mundial 990 mil milhões de dólares. Em termos de quantidade, as perdas na União Europeia são de 89 milhões de toneladas de alimentos, ou seja, 179 quilos per capita, estima a Comissão Europeia.

O único estudo, Do campo ao garfo, que existe em Portugal com dados sobre desperdício, foi feito pelo PERDA e aponta para 17% de desperdício daquilo que se produz ao longo da cadeia alimentar, ou seja, um milhão de toneladas — abaixo porém das estimativas europeias, que estão entre os 30 a 50%. Isto significa 96,8 quilos de desperdício alimentar per capita. A maioria ocorre na actividade agro-pecuária e piscatória (32,2%), logo seguida do consumo (31,4%), sendo que há ainda uma forte percentagem na distribuição (28,9%).

Por isso há muito que se pensa em políticas de combate ao desperdício alimentar, a nível nacional e local. Criada em Novembro de 2015 para “promover a redução do desperdício alimentar através de uma abordagem integrada e multidisciplinar”, a Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, composta por 18 entidades, elaborou a proposta de Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar e um Plano de Acção, que acabou de ser entregue, em Novembro, ao ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, por Eduardo Diniz, director do gabinete de políticas e planeamento. Tem várias fases, mas o arranque começa no início do ano.

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Doggy bag”: um preconceito a quebrar

Do outro lado do balcão do Zé da Mouraria está o fogão e a grelha de uma cozinha à vista de todos. Entre o pão e as azeitonas, Leo conta que talvez 80% das pessoas que ficam com comida na travessa levam-na para casa. À sua frente está um pequeno monte com 12 caixas transparentes — ao cliente custa um euro cada, com o saco. Aqui, ao contrário do que acontece em vários outros restaurantes, não há preconceito em levar aquilo que nos Estados Unidos se vulgarizou chamar de “doggy bag”, prática ali antiga que começa a ser mais vulgar em Portugal, mas que ainda é associada à ideia de que quem o faz é porque não tem dinheiro.

Foi justamente para desmistificar o preconceito que a Lipor — empresa responsável pela gestão, tratamento e valorização dos resíduos urbanos produzidos por oito municípios no Grande Porto — colocou em marcha o projecto Embrulha. O Embrulha distribui pelos restaurantes umas caixas feitas a partir de milho, com um autocolante e um saco para os clientes depois levarem o que “é bom demais para deitar fora”, como se lê.

Começou como uma experiência em 2016, com 15 restaurantes no Porto. Durante uma semana, distribuíram 102 embalagens. Resultado: evitou-se a produção de 30,7 quilos de resíduos alimentares e de 4,91 kg de emissões de CO2. Agora, e desde Setembro, que têm 32 restaurantes associados ao projecto, ainda sem balanço. O investimento da Lipor de 30 cêntimos por caixa, que aos restaurantes e aos clientes sai de borla, já representou quase quatro mil euros. “É uma forma de reaproveitar a comida, a mão-de-obra, a água, o desgaste do solo, a emissão de CO2”, diz a responsável Susana Freitas. É que os alimentos desperdiçados que acabam nos aterros emitem metano e gás com elevado efeito de estufa, segundo o PERDA.

O objectivo era despertar a consciência dos donos dos restaurantes sobre o tamanho das doses que se servem. Mas é um hábito difícil de mudar, porque “quando vamos jantar fora também comemos com os olhos". Por isso este "é um trabalho dos dois lados”: de quem serve e de quem é servido, acrescenta Susana Freitas.

A longo prazo, o ideal seria distribuir cada vez menos caixas porque significava que os restaurantes estavam a servir doses mais ajustadas. Mas Paulo Pereira, gerente do restaurante Cufra, que aderiu ao Embrulha, diz que diminuir as suas doses conhecidas por serem "generosas” não está nos planos. Antes de aderirem ao Embrulha, já disponibilizavam caixas, pagas, mas agora o facto de serem oferecidas "vem reforçar o hábito”, analisa. 

Um problema sem sentido

O desperdício, no fundo, é um problema “que não faz sentido” e que, ao contrário de outros problemas ambientais, “não tem nenhuma vantagem [para quem desperdiça] nem a nível moral nem ambiental”, afirma Sofia Guedes Vaz, que fez parte da equipa de investigadores do PERDA.

Depois há outra questão: apesar de a produção que existe ser suficiente para alimentar a população mundial, há 800 milhões de pessoas subnutridas. Quando, em 2050, o mundo tiver cerca de nove mil milhões de habitantes, segundo estimativas da ONU, a produção de géneros alimentícios deverá aumentar em 50%. 

Por outro lado, “o desperdício é evitável porque as pessoas podem ser ensinadas a cozinhar menos, a usar as sobras para o almoço, a usar os talos dos legumes para as sopas”, continua Iva Pires, que defende ser necessário educar com base numa visão holística. “Quanta água é preciso para produzir carne? E quais os recursos naturais e materiais usados para aquele alimento que vamos deitar fora?” Contabilizar ajudaria a visualizar o nosso acto. Nos Estados Unidos, aquilo que uma família de quatro pessoas desperdiça num ano corresponde a mais de dois mil dólares, o que já “dava umas boas férias”, diz Iva Pires, também coordenadora do mestrado e doutoramento em Ecologia Humana na Universidade Nova de Lisboa.