Entrevista

“Não sei o que se ganha com a divulgação do famoso capítulo sexto”

Para António Leuschner, a divulgação pública do polémico capítulo do estudo do investigador Domingos Xavier Viegas onde se descrevem as circunstâncias em que 64 pessoas morreram em Pedrógão pode ter “mais efeitos maléficos do que benéficos”.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Diz que a repetição sistemática da imagem da estrada N236-1, onde morreram 47 pessoas em Junho, é altamente patogénica. Porquê?
Porque acho que desperta sentimentos que não ajudam as pessoas e, nesse sentido, é patogénica. Não estou a acusar ninguém, mas estar a recordar tudo passado um mês, dois, três, quatro, cinco e seis meses... Aquela imagem não faz bem às pessoas. Não contribui em nada para a felicidade de quem sofreu muito. Como é que vamos sair de uma crise que deixou marcas nas pessoas directamente afectadas, no país? Não nos podemos deixar tomar por um excesso de colagem ao problema em concreto. É preciso objectividade e frieza de espírito. A justificação para apresentar esta imagem é alegadamente a de que é preciso mostrar a verdade, só que as pessoas esquecem o efeito lateral. Ainda estou para perceber a importância que tem a divulgação do famoso capítulo sexto [do relatório do investigador Domingos Xavier Viegas]. Pode ter importância para a investigação, para as autoridades judiciais, para se perceber o que correu mal, mas divulgar os detalhes... Confesso que ainda não consegui entender o que é que se ganha com isso. Receio que tenha mais efeitos maléficos do que benéficos.

Mas são alguns dos próprios familiares das vítimas que exigem a divulgação desse capítulo.
Pois, mas isso é um bocadinho preocupante. Nem sempre a circunstância de as pessoas quererem manifestar o seu sofrimento é sinal de que estão a ser capazes de enfrentar a dureza da realidade. A componente da manifestação dos sentimentos não é sempre um bom sintoma. Bom sinal é quando as pessoas que sofrem perdas tentam enfrentar a realidade do futuro com a dureza do passado. Temos que ser capazes de viver o nosso futuro, o dia após dia. Morrem em Portugal por ano mais de 100 mil pessoas, a esmagadora maioria deixa alguém a quem faz falta e a verdade é que a maior parte nem sequer ao médico vai, quanto mais ao psiquiatra. O luto é um processo natural de reparação, quando não temos capacidade de dar a volta habitualmente falamos com aqueles que nos são mais próximos — familiares, vizinhos, amigos. Por vezes, porém, temos que procurar uma ajuda profissional ou uma ajuda mais diferenciada.

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