Luís tem hoje alta, outros alcoólicos terão de esperar

Com um corpo médico envelhecido e um sistema informático que não permite a referenciação dos doentes a partir dos médicos de família, a coordenadora do Centro de Alcoologia do Centro avisa que manutenção na ARS é "um erro" que pode deitar a perder um trabalho de anos a recuperar alcoólicos.

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Ana Feijão: “Este Governo disponibilizou-se para estudar a reversão dos erros cometidos pelo anterior, mas, até agora, não aconteceu nada" Adriano Miranda
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Luís já não acorda com o corpo a tremer. “Olho-me ao espelho e sinto-me outra pessoa. Espero nunca mais tocar em álcool”, conta este emigrante, 42 anos, que veio propositadamente de Inglaterra, onde trabalha, para se submeter a um tratamento de três semanas na Unidade de Alcoologia do Centro (UAC), cujo serviço de internamento é suspenso a partir desta sexta-feira, por falta de assistentes operacionais.

Esta sexta-feira, Luís recebe alta médica. Na conversa com o PÚBLICO, na enorme mesa da biblioteca da instituição, conta que, no período mais negro, chegou a gastar 600 libras (cerca de 700 euros) por mês em vinho. “Cheguei às quatro garrafas por dia. Escondia-as no carro para a minha mulher não perceber." Ela percebeu, claro. E, depois de uma tentativa falhada de tratamento em Inglaterra (“deram-me um copo com medidas e disseram-me para voltar quando tivesse conseguido diminuir a dose para, no máximo, uma garrafa por dia”), conseguiu uma dispensa no hotel onde é manager de house keeping para ser internado nesta unidade de saúde, cuja área de influência cobre os 2,3 milhões de habitantes da região.

Muito para além da suspensão do internamento, a preocupação maior da coordenadora da unidade, a médica Ana Feijão, é que o Governo opte por manter esta unidade sob a alçada da Administração Regional de Saúde (ARS), deixando cair a oportunidade de recriar uma estrutura vertical que, à semelhança do antigo Instituto da Droga e da Toxicodependência, agregue todas as intervenções na área das dependências.

“Este Governo disponibilizou-se para estudar a reversão dos erros cometidos pelo anterior, mas, até agora, não aconteceu nada. E se o serviço não se desagregou com esta integração nas ARS foi porque o pessoal fez um esforço incrível para que os estragos não fossem maiores”, declara Ana Feijão. Os quatro assistentes operacionais ao serviço (os restantes dois estão de baixa com doença prolongada), por exemplo, trabalharam tantas horas extraordinárias que, a partir de hoje e até dia 2 de Janeiro, foram mandados para casa em gozo de folgas compensatórias. Por causa disso, antecipa Ana Feijão, o tempo médio de espera para internamento nesta unidade que é de 45 dias vai agravar-se.

Apesar do desafogo da paisagem arbórea à volta do edifício, a sete quilómetros do centro de Coimbra, no interior, a decoração é espartana. Quase pobre. Móveis escuros e antigos, paredes pontuadas aqui e ali por frases motivacionais, do género “Tem coragem, tu podes”. Numa vitrina, esculturas em cerâmica feitas por doentes no tempo em que o corpo profissional comportava um ceramista. Noutra, várias taças “oferecidas por um atleta que considerou que só as ganhou por se ter conseguido tratar”.

Depois da primeira notícia do PÚBLICO, em Novembro, sobre a suspensão do internamento, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, passou por aqui, no passado dia 6, e predispôs-se a dar luz verde à contratação dos assistentes operacionais em falta. “Precisamos de quatro operacionais, num total de 32 horas por dia, mas estávamos muito em cima do acontecimento. Era preciso integrar estes operacionais, dar-lhes a conhecer o serviço e os doentes. Achámos que tentar evitar a suspensão do internamento só porque tinha havido algum alarmismo não valia a pena”, justifica Ana Feijão.

Não é, de resto, a primeira vez que a UAC encerra por falta de pessoal. Da reunião, ficou o compromisso da ARS contratar os profissionais em falta, o que leva Ana Feijão a confiar que não será necessário “voltar a suspender o internamento”. Assim, o que preocupa agora esta médica é o futuro da unidade. Numa altura em que o Ministério da Saúde está prestes a esgotar o calendário definido para tomar uma decisão quanto ao novo modelo organizativo para a área das drogas e dependências, Feijão sustenta que insistir em manter estas unidades sob tutela das ARS é um erro crasso: “Se isso acontecer, o que este Governo vai fazer é pôr em prática o que o anterior Governo não conseguiu e que é deitar a perder uma estratégia nacional que funcionou extremamente bem e que é fundamental.”

Meio século a tratar alcoólicos

A UAC recua a 1964. Surgiu, enquanto serviço de recuperação de alcoólicos, no Hospital Sobral Cid, por iniciativa da psiquiatra Maria Lucília Mercês de Mello para quem era importante “despsiquiatrizar” a alcoologia. “Muitas camas na psiquiatria estavam ocupadas por doentes alcoólicos, os quais, porque não tinham nenhum tratamento específico, não beneficiavam muito do facto de estarem internados. Por isso, e porque a maior parte destes doentes não apresenta nenhuma patologia psiquiátrica prévia, considerou-se que não fazia sentido tratá-los no contexto da psiquiatria mais pesada, o que, de resto, podia ser muito estigmatizante”, contextualiza Ana Feijão.

A autonomização deste serviço, que viria a desembocar na criação de três centros regionais de alcoologia (além do Centro, no Porto e em Lisboa), manteve-se até que, em 2007, o então ministro da Saúde, Correia de Campos, decidiu incorporar os tratamentos do álcool no Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). “Na altura, foi um bocado dramático, porque os centros estavam directamente dependentes da Direcção-Geal da Saúde e dispunham de autonomia técnica e financeira." Corrigidos os “desacertos” iniciais (como o facto de os especialistas que trabalhavam com consumidores de substâncias ilícitas tenderem a desvalorizar os dependentes de álcool), os serviços “ganharam com o facto de ter passado a haver uma coordenação nacional”, segundo Feijão.

No final de 2011, porém, no quadro da intervenção da troika, o Governo liderado por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas extinguiu o IDT, a pretexto da necessidade de poupança. No lugar daquele instituto público, surgiu uma direcção-geral, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), que ficou, porém, reduzida à produção de guidelines, com o pessoal e as competências ao nível do tratamento a serem pulverizados pelas cinco ARS.

Com a transição, a Unidade de Alcoologia de Lisboa perdeu pessoal que estava com avenças, a recibo verde ou com contratos temporários. No Porto, o serviço foi fundido com a unidade de desabituação de substâncias ilícitas, numa mistura contraproducente “porque as dependências são diferentes nos seus efeitos e também porque para consumir substâncias ilícitas é preciso ter uma muito maior capacidade de afrontamento”, segundo Ana Feijão. A degradação das respostas daí resultante levou, de resto, à demissão de todos os coordenadores dos serviços no Norte, num total de 13. Olhando para trás, Feijão acusa: “Foi exclusivamente por razões ideológicas que o IDT foi extinto. Os sectores mais à direita em termos de políticas sempre tiveram uma visão mais punitiva, proibicionista, e, portanto, a postura do IDT, mais inclusiva e humanista, desagradava-lhes fortemente."

Sistemas informáticos diferentes

A opção de integrar estes serviços nas ARS foi apresentada como provisória. Aquelas não estavam, de resto, preparadas para absorver unidades com internamento. “Já não sabiam propriamente lidar com escalas de prevenção de médicos, com serviços por turnos, com compra de alimentação; tudo o que um serviço de internamento implica”, recorda Feijão, para sintetizar: “Criou-se, por um lado, uma cabeça sem corpo e, por outro, um corpo sem cabeça."

O atabalhoamento nesta mudança, que visava uma progressiva aproximação aos cuidados de saúde primários, criou situações tão caricatas quanto esta: “Os centros de alcoologia não estão incluídos no sistema de referenciação do Serviço Nacional de Saúde. Quando, nos centros de saúde, um médico pede uma consulta de alcoologia no ALERT o doente é, no nosso caso, encaminhado para a psiquiatria do CHUC [Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra], onde não há serviços diferenciados para os alcoólicos." Porquê? “Porque mantivemos o sistema informático do IDT quando passámos para as ARS."

Num cenário de descontentamento generalizado, o actual Governo consentiu em alterar o modelo organizacional na área das drogas e já tem nas mãos o segundo relatório do grupo de trabalho que encarregou de estudar o melhor modelo. No primeiro relatório, refira-se, as opiniões dividiram-se entre quem defende a recriação de uma estrutura vertical que, à semelhança do ex-IDT agregue todas as respostas na área das dependências, e os que preferem um aprofundamento desta integração nas ARS.

“Os profissionais do ex-IDT criaram uma situação kafkiana. Esforçaram-se tanto para manter o serviço a funcionar que acabámos por dar a sensação de que, afinal, a actual solução até é boa”, lamenta Ana Feijão, cujas preocupações quanto ao futuro do centro assentam também em factores como o envelhecimento do corpo médico. “Os médicos aqui têm todos 55 anos ou mais e, porque não estão a ser admitidas pessoas nos serviços públicos, não há maneira de transmitirmos o nosso know-how. É uma aprendizagem que não se vai buscar aos livros mas a um trabalho ombro a ombro que não está a ser feito”, avisa Feijão.

Sem profissionais que garantam a continuidade deste saber, os futuros utentes poderão não ter a mesma sorte de Luís, que vai continuar, entre consultas e acompanhamento psicológico, a munir-se de estratégias capazes de lhe travar o passo, sempre que se sinta tentado a entrar na estação de gasolina em frente a sua casa. “Fazia de conta que ia comprar leite para a minha mulher, comprava uma daquelas garrafas pequeninas de brandy e bebia-a de rajada, para poder deixar a garrafa no caixote do lixo antes de voltar a entrar em casa."

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