Crítica

Socos eléctricos, amor limpinho

Inspirada pelo boxe, a digressão conjunta dos Linda Martini e The Legendary Tigerman só teve amor rock’n’roll, como se viu no Coliseu dos Recreios.
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Há quatro “putos bons” nos corpos de adultos dobrados sobre os instrumentos, contorcendo-se na vertigem punk. Chamaram ao palco um guitarrista, um saxofonista e mais quatro braços para duas pandeiretas, gente de outras frentes da mesma luta pelo prazer simples de ouvir guitarras a relinchar. Repetem em gritos uníssonos: “é a puta da gravidade, é a puta da gravidade!”. O fervor juvenil não há-de sair desta gente, provou à saciedade Gravidade, nova canção dos Linda Martini, ponto final na digressão conjunta do quarteto e dos The Legendary Tigerman.

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Num palco posto no centro do Coliseu dos Recreios, em Lisboa (ao melhor jeito do ringue de boxe onde, em 1974, no então Zaire, George Foreman e Muhammad Ali protagonizaram um combate lendárioinspiração desta tour conjunta), cada banda tocou ora sozinha ora com músicos emprestados pela outra. “Há dias felizes, hoje é um deles”, resumiu Hélio Morais, baterista dos Linda Martini.

A felicidade rock’n’roll começou com Legendary Tigerman. A aventura que principiou como banda de um só homem (Paulo Furtado, que se mostrou ajeitado com impecáveis camisa e calças brancas – e óculos de sol) é hoje banda de pleno direito, como se ouve em Misfit, acabado de editar. Mostrou-o logo na inicial Wild beast: o riff reduz os blues ao osso, o saxofone de João Cabrita, que não estava no original incluído em True (2014), abre suavemente as portas do inferno. Abertas as portas, mergulhámos nos pecados e pecadilhos do rock. Black hole explora a psique de Furtado, é balada que se desfaz em explosão hiperdramática de chinfrim eléctrico (com a contribuição dos dois guitarristas dos Linda Martini) e saxofone às curvas. These boots are made for walkin’ teve Hélio Morais a fazer de Maria de Medeiros (em Femina, de 2010) a fazer de Nancy Sinatra (no original de 1966).

Os Tigerman de 2017 são uma experiência de banda, visível sobretudo na disputa de atenções entre o saxofone de Cabrita e a guitarra de Furtado. Eis Cabrita a dar mais fogo e fúria a I finally belong to someone; ei-lo em despiques com a guitarra de Furtado em Gone; ei-lo a fazer de Child of lust, outra novidade, uma delícia orgulhosamente antiquada. Tudo acaba com Fix of rock’n’roll, transformado em mantra infinito, Furtado a gritar “rock’n’roll” vezes sem conta, o microfone preso pela boca, como um pastor transviado, electrificado pelo transe (e em transe pela electricidade), secundado pelos acólitos Linda Martini.

Celebrado o rock (e sujas as calças de Furtado, já não impecavelmente brancas), o palco foi tomado pelos Linda Martini. O concerto serviu para mostrar temas daquele que será o quinto álbum do grupo, ainda sem título, agendado para Fevereiro, e recuperar canções que se tornaram clássicos instantâneos da música portuguesa – há muito que os Linda Martini não são só banda de culto e esta é já a segunda vez que tocam no Coliseu dos Recreios.

Foram a 2013 (Turbo Lento) buscar Panteão, de repente tão 2017, e Ratos; foram a Sirumba reavivar os Putos bons, com Hélio a usar a bateria toda como vulcão metronomicamente activo e André Henriques a cantar como um fadista ébrio, e Unicórnio de Sta. Engrácia, lição de como alimentar tensão nos segundos anteriores ao refrão; foram ainda mais lá atrás, ao início do grupo, para cantar com o Coliseu inteiro Amor combate, canção arraçada de paisagismo épico pós-rock, canção que solicita comoção na plateia – e recebe-a inteirinha, sem pudores. O mesmo povo que canta (grita), também sem pudores, “foder é perto de te amar/ se eu não ficar perto”, mais uma frase memorável das muitas que os Linda Martini põem em canções – no coro de vozes estavam todos os Legendary Tigerman.

As novidades apresentadas mostraram uma banda capaz de se reinventar suavemente. Quase se fez uma casa mostrou André sem medo de cantar. Domingo desportivo teve Paulo Segadães, o baterista dos Tigerman, na guitarra – um “sonho de criança” para André, que entrou na música muito por culpa dos X-Acto, a banda hardcore de que Segadães fez parte nos anos 1990. Em Boca de sal, ouvimos Geraldes quase funk (ouvimos bem?) e nova frase memorável, à espera de se tornar slogan geracional – “quero tudo ao mesmo tempo”. Os novos Linda Martini prometem.

Antes de Belarmino vs., a baixista Cláudia Guerreiro disse que aquela não era uma canção “sobre porrada”, tal como não houve “porrada” nesta digressão inspirada pelo boxe, “só amor, daquele limpinho”. Amor eléctrico, uma corrente rock que liga gerações.