Editorial

Isto não é a Santa Casa. Ou é?

A Costa, o escudo de Santana Lopes bastou: o Governo continua sem explicar a entrada da Santa Casa no Montepio.

Há um ano, Santana Lopes deu uma entrevista à revista Sábado com uma confissão: ele, enquanto provedor da Santa Casa, equacionou juntar-se ao Montepio para comprar uma participação no… Novo Banco. A ideia era “assegurar que determinados centros de decisão ficavam em mãos nacionais, pelo menos em parte”, dizia Santana, garantindo que nunca concretizaria nenhuma opção desse tipo, como é evidente, sem comunicar” à tutela.

A Santa Casa não entrou no Novo Banco (o projecto, disse-nos Santana, “não passou dos preliminares”). Mas abriu a porta para entrar no próprio Montepio Geral. Enquanto ainda era provedor, Santana Lopes não se cansou de defender a ideia, chegando a ironizar com os que o criticavam por isso (“antes, quem tivesse a possibilidade de se tornar acionista de um banco era considerado detentor de um privilégio e era meio caminho andado para aumentar a fortuna. Agora não, entrar num banco é um acto de loucura”, escreveu em Junho no Negócios).

Nesse mês, ainda longe da derrocada autárquica do PSD, Santana garantia numa entrevista ao PÚBLICO que ninguém o obrigaria a fazer o que não queria. Dois dias depois, porém, assinava um protocolo com o Montepio, obrigando-se a estudar as condições desse negócio. O Negócios fazia as contas: “A Santa Casa terá de mobilizar 135 milhões de euros para ficar com 10% da Caixa Económica Montepio Geral”. 

Passaram uns meses, Santana já não é a Santa Casa - é candidato à liderança do PSD. O processo, que ele próprio assumiu que estava a ser negociado pelo seu adjunto (hoje seu sucessor) manteve-se em cima da mesa. Mas Santana começou a estranhar. Primeiro, dizendo na RTP que não percebia os 200 milhões de euros de que se falava, “no máximo poderiam estar em causa 50 milhões”. E há dois dias, num comunicado, dizendo que foi o Governo e o Banco de Portugal que lhe pediram “uma decisão”, o que o levou na altura a pedir uma auditoria - e a manter Marcelo “informado”.

Ontem, no debate quinzenal, António Costa fez de Santana Lopes o seu escudo, para se defender das críticas do próprio PSD sobre a entrada da Santa Casa no Montepio. Bastou-lhe citar o comunicado, dizer que foi o ex-provedor quem lhe perguntou “se havia incoveniente” e contar o início da história: o interesse de Santana em entrar no Novo Banco. 

Não sabemos, em verdade, quem pediu o quê a quem. Mas a Costa, o escudo bastou: o Governo continua sem explicar como a Santa Casa já sabe quanto vai investir, quantos lugares vai ter na administração, sem que exista sequer a auditoria prometida. Ou sem que existam outros parceiros sociais, como definia o protocolo assinado. Diz que isto anda tudo ligado, não sei. O que parece é que isto é a Santa Casa.