Sem o seu braço-direito no Governo, Theresa May fica ainda mais sozinha

Damian Green foi forçado a demitir-se depois de ter mentido sobre pornografia encontrada num computador de trabalho. Mas este ainda não será o golpe fatal para a primeira-ministra

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May exigiu a demissão do seu adjunto após ter recebido as conclusões do inquérito que ela própria tinha pedido WILL OLIVER/EPA
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Damian Green era o "número dois" do Governo desde as eleições de Junho ANDY RAIN/EPA

Ele foi o seu bombeiro de serviço, um mediador entre a fragilizada primeira-ministra britânica e um partido que, após perder a maioria no Parlamento, pedia a sua cabeça. Mas nem o facto de ser “o que mais se assemelhava a um amigo de Theresa May na política” salvou Damian Green – acusado por uma jornalista de conduta imprópria e apanhado a mentir sobre conteúdos pornográficos descobertos em 2008 num computador de trabalho, o ministro-adjunto foi forçado a demitir-se, num golpe que deixa ainda mais isolada a líder conservadora.

Foi May quem exigiu a saída, dois dias depois de ter recebido as conclusões do inquérito que tinha pedido às suspeitas lançadas em Novembro contra Green e de ter solicitado um último parecer ao seu conselheiro para as questões de ética.

“Foi com profundo pesar e duradoura gratidão pela contribuição que me deu ao longo de muitos anos que lhe pedi para se demitir do governo e aceitei a sua demissão”, lê-se na carta divulgada quarta-feira à noite, na véspera das férias parlamentares de Natal e em cima da hora do fecho das edições diárias dos jornais – o que não os impediu de darem manchete àquela que é a terceira demissão no executivo em apenas dois meses.

Ao contrário de Michael Fallon, o ex-ministro da Defesa que foi o primeiro a cair quando a vaga de denúncias por assédio sexual atingiu Westminster, ou de Priti Patel, a ministra para o Desenvolvimento Internacional demitida por causa de reuniões secretas com governantes israelitas, esta saída não obriga May a escolher já um substituto, uma vez que Green não tutelava um ministério, desempenhando sobretudo funções de coordenação dentro do executivo.

O porta-voz de Downing Street deu a entender que a primeira-ministra não vai anunciar uma decisão antes do início do próximo ano, o que lhe pode dar tempo para fazer a remodelação governamental que muitos consideram inevitável desde que em Junho venceu, sem maioria, as legislativas.

Foi no auge dessa crise que May se viu obrigada a afastar os seus até aí intocáveis chefes de gabinete e chamou Green, seu amigo desde os tempos de faculdade, para assumir o lugar de “número dois” do executivo, com a missão de fazer a ligação com um partido que a culpava pelo desaire eleitoral. Defensor da permanência do Reino Unido na União Europeia, o ministro-adjunto assumiu também o discurso de May de que o “Brexit” é agora irreversível, servindo muitas vezes de mediador entre os ministros mais eurocépticos e a ala mais moderada.

“Ela é uma política muito reservada. Perder uma das poucas pessoas que a compreende, em quem ela confia, deixa-a ainda mais sozinha”, escreveu a editora de Política da BBC, Laura Kuenssberg. Hugh Muir, colunista do Guardian sublinha que, sem Green por perto, a líder conservadora “perde o equilíbrio político e um aliado enquanto caminha aos tropeções para o ‘Brexit’”.

Mas Anand Menon, professor de Política Europeia do King’s College, disse à Reuters não acreditar que este seja um golpe fatal para a primeira-ministra, que chega ao fim de um ano turbulento sem um rival claro e depois de ter conseguido o aval da UE para o tão desejado início da segunda fase das negociações. “May sobrevive não por causa de Damian Green, mas porque há um número suficiente de deputados no seu partido que não quer escolher uma nova líder enquanto o ‘Brexit’ está a decorrer”, afirmou o analista, sublinhando que, para já, “esse cálculo fundamental ainda não mudou”.