Opinião

As voltas de um conto que não era de Natal

Um conto de Luiz Pacheco adaptado ao teatro por Cesariny teve por cenário Jerusalém, onde há hoje um rastilho aceso.

Contos de Natal há muitos. E histórias em que o Natal surge há muitas mais. Ainda agora voltou ao cinema o velho Ebenezer Scrooge, o avarento redimido que Charles Dickens inventou em 1843, não na enésima versão da história mas num filme centrado no próprio acto da sua criação (O Homem Que Inventou o Natal, de Bharat Nalluri). Não é porém de Dickens ou de filmes que trata esta crónica, e sim de um conto português que até nem era de Natal, mas foi por ele absorvido.

Antes, convém recordar que a tradição do Natal na literatura portuguesa é bem antiga. Vasco Graça Moura, no prefácio à antologia Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, que ele próprio organizou (num volume editado pelo PÚBLICO na Colecção Mil Folhas, em 2003), escreveu que “é na poesia e no teatro que desponta literariamente aquela exaltação religiosa, com mestre André Dias (1348-1437), e depois nalguns autos vicentinos de devoção, para não mais parar”. Dessa antologia constavam contos de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, José Régio, Maria Judite de Carvalho, Miguel Torga, Jorge de Sena, O’Neill, José Rodrigues Miguéis, José Saramago ou José Eduardo Agualusa.

Não constava, porém, o conto História Antiga e Conhecida. Primeiro porque não era, na verdade, um conto de Natal, mas sim uma “parábola bíblica” (assim o classificou, depois, o seu autor) que surgia integrada numa colectânea de poemas, contos e teatro intitulada Bloco, editada em Lisboa no ano seguinte ao fim da II Guerra Mundial, 1946. O seu autor? Luiz Pacheco (1925-2008), que na altura tinha apenas 20 anos. Foi, diria mais tarde, o seu primeiro trabalho “com algum fôlego e ambição”. Do que tratava, então, o conto? De uma fuga de casa do Menino Jesus, aos 12 anos, para ir à Academia confrontar os Doutores com as maldades de Herodes. Não lhe valeu de muito. Os Doutores, que segundo o conto se reuniam num café judeu, depois da saída da Repartição, para discutirem “filosofia ou religião ou política — e Ortografia” (convém lembrar que em Portugal acabava de ser aprovado o acordo ortográfico de 1945, e daí a referência irónica), confrontados com os apelos do Menino, responderam: “Se é só isso que nos vieste dizer perdeste o teu tempo. Olha a novidade! Isso já nós sabemos; mas que podemos fazer? Herodes é uma praga maldita que nos mandou o Senhor; ele é um tirano e um déspota. Mas tem por si a força dos Romanos, dos centuriões, dos escribas e dos fariseus do Templo. Qu’é que nós podemos fazer?” Mas se eles não sabiam, a PIDE sabia — e apreendeu o livro. Mário Cesariny, “indignado com a apreensão”, disse a Luiz Pacheco que ia adaptar o conto para teatro. E adaptou. Chamou-lhe Um Auto para Jerusalém e, comparando os dois, vê-se que grande parte das falas do Menino estão lá, ipsis verbis. A edição do Auto surgiu em 1964, pela Minotauro, mas também aqui a PIDE se impôs. Nota do censor: “Esta obrinha de um dos próceres do surrealismo português parece-me absolutamente inaceitável, isto é: francamente censurável (digna da mais severa censura) não só pela irreverência em matéria religiosa ou de fé, como pela chocante intromissão satírico-política no tema filosófico-moral que o A. se propôs. A ‘fala’ de Jesus (págs. 34 a 53) é absolutamente definidora do espírito achincalhante da obrinha, que, por isso, bastantemente por isso, me parece de proibir.” E foi proibido, claro.

O conto de Luiz Pacheco viria a ser publicado em volume próprio em 2002, pela Oficina do Livro, sob o título Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus, com o subtítulo “conto de Natal”. Mas antes disso ainda teve vida atribulada, e nessa edição ele recorda-o: inserido na revista Crítica de Circunstância, foi esta apreendida; e programado para se estrear, em palco, no dia 11 de Março de 1975 (já após o 25 de Abril), viu a estreia adiada por causa da intentona ou inventona desse dia. Mesmo assim, viu palcos: o do São Luiz, onde se estreou; depois os do Villaret e do D. Maria II.

No prefácio à edição de 2002, escreve Luiz Pacheco que o conto chama a atenção para outras verdades; como a “de que, entre nós, os homens passam mas os problemas ficam — irresolvidos”. Não só entre nós. Veja-se hoje Jerusalém, cenário do conto: ódios reavivados, armas aperradas e os Doutores no sítio do costume. Um rastilho aceso no já tão gasto sapatinho do Mundo.

Sugerir correcção