Um terço dos condutores que morreram tinha excesso de álcool no sangue

Quase um quarto dos condutores que morreu entre 2010 e 2015 conduzia numa situação considerada crime. Prevenção Rodoviária alerta juízes para as penas leves. Só neste ano morreram 483 pessoas nas estradas, mais 14% do que no ano passado.

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Diogo Baptista

Um terço (33,2%) dos condutores que morreram ao volante entre 2010 e 2015 tinha uma taxa de álcool no sangue igual ou superior ao valor permitido por lei para conduzir veículos particulares, 0,5g/l. E 24% conduziam mesmo numa situação considerada crime (igual ou superior a 1,2g/l), dizem os dados do Instituto de Medicina Legal, compilados pela Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP).

No total, tinham excesso de álcool 609 pessoas que morreram ao volante nestes cinco anos, das quais 440 circulavam com taxa crime de alcoolemia.

Os dados “são alarmantes”, constatou o presidente da PRP, José Manuel Trigoso. Ainda que os condutores identifiquem o álcool como o factor que mais pode provocar acidentes rodoviários, “isso não tem correspondência no seu comportamento”, disse nesta quarta-feira na apresentação da campanha de prevenção “Aprecie a condução sem álcool”.

Este é também um problema para quem anda a pé na estrada. Quase 20% dos peões que morreram entre 2010 e 2015 tinham uma taxa de alcoolemia que seria considerada ilegal se estivesse a conduzir. Para 16% seria mesmo crime. O que levou José Manuel Trigoso a redobrar o aviso: “Se beber não conduza, mas também não vá a pé. Procure alternativas seguras.”

Cem condutores apanhados por mês

De facto, 92,4% dos portugueses inquiridos pela ESRA – European Survey of Road users’ Attitudes, em 2015, concordaram que a condução sob influência de álcool dificulta uma reacção adequada em caso de perigo. Ainda assim, mensalmente, as autoridades detectam em média 100 casos de condutores com níveis ilegais de alcoolemia. Destes 10% constituem crime – o que aumenta em mais de 100 vezes o risco de acidente, reforça José Manuel Trigoso.

Dados que levaram o presidente da Prevenção Rodoviária a insistir na necessidade de legislar no sentido de permitir a instalação de um “alcolock” nos veículos de infractores reincidentes. Este mecanismo impede que o veículo arranque caso o condutor tenha taxa de alcoolemia acima do permitido.

José Manuel Trigoso deixou também um recado aos juízes que “em situações de crime, normalmente aplicam penas inferiores” àquelas que estão preconizadas na lei. “Sei que corre entre eles que é preferível beber mais e ter [uma taxa de alcoolemia considerada] crime” do que "beber menos e ter que fazer as formações" nos processos de contra-ordenação em que incorrem os condutores apanhados com taxa de álcool de 0,5 até 1,2 g/l, não inclusive. “É perfeitamente lamentável”, disse o responsável da PRP.

“Problema dos motociclos”

Só este ano, até à última sexta-feira, morreram 483 pessoas nas estradas, mais 61 (14%) do que no ano passado. Um aumento que tem sido “especialmente preocupante” nos motociclos: o número de mortes mais do que duplicou face ao ano passado. Morreram 82 este ano, até Outubro, mais 45 que no mesmo período de 2016. Também houve mais feridos graves e ligeiros.

E é o “disparar” do número de motos em circulação que explica este aumento das mortes na estrada, acredita José Manuel Trigoso e o presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, Jorge Jacob. Esta autoridade não dispõe, no entanto, de dados que comprovem a percepção de que existe um “problema dos motociclos”, nas palavras de ambos.

O incentivo dos modos de transportes alternativos ao carro, o aumento dos lugares de estacionamento e o facto de este ter sido um ano de pouca chuva podem explicar o facto de um maior número de pessoas optar por este tipo de transportes ou ter mesmo trocado o carro pela moto, diz o responsável da PRP. Apesar de reconhecer o contributo destes veículos “em termos de consumo, energia e mobilidade”, José Manuel Trigoso salientou o seu risco acrescido de acidente.