Opinião

Anacoreta

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa
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A manhã está fria, mas a claridade é espantosa. É de um Novembro seco, sem sombra de nuvens. Com uma caixa a tiracolo que poderia ser a do entomologista mas que é apenas a do protogastrónomo que viaja com o seu próprio farnel, parto para um campo um pouco distante onde se vai começar a construir uma ramada. Dispensei o meu mordomo de me acompanhar, tranquilizando-o, a custo, dos seus receios de me ver surpreendido, num folhedo mais cerrado, numa curva mais traiçoeira do caminho, por um javali, um porco-espinho ou um jornalista. E dei-lhe a missão de vigiar os fogos florestais do alto da nossa torre e substituir os guardas-florestais que o Estado não tem para poupar nas despesas.

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Viajando sozinho, não me deixarei distrair da contemplação dos pormenores preciosos que nos escapam quando temos de dar atenção a conversas banais ou responder por polidez a comentários escusados de parceiros circunstanciais de caminhada. Saio para o pátio traseiro. O som das minhas botas pesadas sobre o granito das lajes maciças corta o silêncio matinal com a cadência que vai reger a minha marcha até ao destino. O ar frio torna-me mais consciente do nariz de que não chego a ser senhor. Impelido pelo calor do chá recentemente ingerido à mesa coberta por um toalha de linho de uma brancura definitiva, e pela energia de uns crepes espessos com mel devidamente saboreados, embrenho-me no que o campo tem que faz dele campo, muito para além do que imaginam os da cidade que nele encontrariam, incluindo palavras como vale, colina, outeiro, serrania, cabeço, orvalho, queiró, carqueja, urze, tojo, giesta, hortelã-pimenta, língua-de-ovelha, alfazema, hipericão, cidreira, trevo, tremoço, dedaleira.

Quando, a seguir a uma oliveira presa ao chão pela força da história, cortei à esquerda e iniciei a subida de mais uma colina, avistei, sobre um rochedo, um homem sentado que perscrutava interessadamente o horizonte com uma expressão manifestamente desinteressada. Algo me fez estacar e estudar a fácies daquele homem, na qual se lia tranquilidade e sabedoria e algo mais que me faltava apurar, mas que estava no ar. Dei-lhe os bons-dias, ao que ele, inesperadamente, não respondeu, não sei se ressentido pelo meu uso desavisado de advérbios de modo (que qualquer bom escritor deve evitar tanto como os desgraçados em regime de emagrecimento as bolas-de-berlim com creme), se pela minha intrusão durante uma possível oração profana de comunhão íntima com a natureza. Ocorreram-me também as hipóteses de estar perante uma pessoa na condição desafiadora de ser surda-muda em férias, um arguido a monte a exercer o seu direito de não prestar declarações ou mesmo um ex-ministro tarimbado na lida de matilhas esfaimadas de jornalistas estagiários acossados por editores rivais entre si.

Uma pessoa que não responde pode ser um sério obstáculo às relações humanas, a não ser que faça parte de uma estratégia comunicacional. Vejamos: quando não se fala, há mais probabilidades de acertar. E quantos mais examinarem o que dizemos nos seus tribunais interiores e secretos que julgam em causa própria, mais é assim. Para passarmos por inteligentes, é preciso termos a persistência de não dizer nada, por mais que nos empurrem. Quando cedemos e damos o nosso palpite, esse é o ponto alto a partir do qual é sempre a descer, de desilusão em desilusão. Cada frase custa uma dúzia de admiradores, pelo menos, àqueles que os tinham. Agora imaginem os outros... Por isso é que só dou entrevistas com a condição, que negoceio antecipadamente, de não falar. E tenho-me dado bem. Quando pergunto às pessoas em geral (e sabe Deus como é cada vez mais difícil encontrar pessoas em geral, nestes dias de engenharia social efervescente de engenheiros, cantores, actores, escritores, humoristas e “youtubers” emergentes), quando pergunto a estas três ou quatro pessoas em cada rua que não são empreendedoras nem artistas o que acham das entrevistas que tenho dado, elas mostram-se satisfeitas porque se sentem à vontade para pôr na minha boca as palavras que eu não disse, algumas que nunca teria dito e outras “que nunca te direi”. O sucesso é isto: vender uma tela em branco (ou, vá lá, com reproduções de latas de sopa americana), um livro em branco, uma música que é só silêncio. É assim que o mundo pula e avança ou sacoleja muito e avança um pouco ou vai avançando trepidantemente para o estrépito final, o qual, afinal, ainda não é para já, porque o Orçamento do Estado não cativou verbas para tal despesa (“aquela cativa que me tem cativo...”). Mas adiante, para prosseguir com uma história que confirma o poder da palavra não dita.

De volta ao homem no rochedo. As facetas angulosas da sua fisionomia marcada pelo tempo eram extensões do penedo que lhe servia de cadeira. Sobre aquela peanha, ele era a escultura. Era, sozinho, um novo monte Rushmore. Só os olhos eram de gente, postos no além. Mas em nenhum momento reconheceu a minha presença pela interrupção da sua impassividade. Deixei-lhe ficar uma lata de atum num rebordo da rocha e prossegui o meu caminho, pois era esperado. Ainda olhei para trás para o ver uma última vez e ele lá estava, na mesma posição. Não deve ser nada fácil para a coluna vertebral. Desejo-lhe que tenha um bom médico de família ou, melhor ainda, uma boa médica.

Continuando a subir a encosta, encontro o feitor Pinto que me esperava a meio caminho, num ponto alto de onde se tinha uma visão desafogada do território em redor. Desta vez surpreendeu-me o movimento de pessoas, lá em baixo, uns da esquerda para a direita e outros da direita para a esquerda, num vaivém cadenciado próprios de fábrica, intencionalidade industriosa, militância política, fervor clubístico ou ritual religioso.

– Estas terras são minhas?... – perguntei, na dúvida, ao feitor Pinto.

– São, sim, sr. procurador. Efectivamente... – respondeu.

– E quem são todas estas pessoas?... O que fazem?... – quis saber, confundido.

– São apenas homens que, em determinado momento da vida, sentiram necessidade de fazer voto de silêncio e retirar-se para as montanhas – respondeu, sempre bem informado.

– Mas como é que são tantos? Não é um fenómeno relativamente raro?... – estranhei.

– Era, até um deles publicar fotos no Facebook e outro fazer ‘like’...

– Mas o que andam eles a fazer? É uma actividade frenética...

– Sim. Começaram por ser eremitas. Apanhavam um coelho aqui, uma truta ali. Mas entusiasmaram-se, tonaram-se gananciosos e agora chamamos-lhe ‘os aforradores’.

– “Os aforradores”?...

– Sim. Entram nas matas e levam tudo o que podem para vender ou trocar: folhas caídas, agulhas de pinheiro, pinhas, fetos, silvas, queirós, tojos, árvores secas, guano, gingko-biloba, sementes de chia (Salvia hispânica), segurelha, cogumelos, trufas, musgos e líquenes. Alguns deles, após apenas cinco anos, vendem a sua posição no bosque em bitcoins e fundam uma “start-up” cotada na bolsa.

– E qual é o nosso ganho? Por que é que nós permitimos este exército de marabuntas humanas em constante ciranda?

– Não temos incêndios florestais, sr. comendador. Nunca tivemos. Já cá vieram investigadores norte-americanos, já cá vieram brigadas dos antigos guardas-florestais, mas o jipe deles foi completamente desmantelado em 12 horas, não sobrando um pneu, um puxador de porta, uma única peça para comprovar a sua presença aqui. Acabámos por instalar uma estância turística para acolher estas visitas de técnicos de todo o mundo, adoradores celtas, celebradores de equinócios, devotos de solstícios, estudiosos de silvicultura, organizadores de convenções de caçadores de lebres, observadores de pássaros, observadores de aviões low cost e amestradores de sapos-conchos.

Eu estava muito longe de imaginar que a minha propriedade pudesse gerar tantas oportunidades de negócio. E isto sem experimentar o universo das quintas para casamentos, o que ficará como reserva para um dia mau. Entretanto, ia tentar passar o meu castelo a fundação. Era outra categoria. Tinha-me inspirado naquela senhora que a sabia toda...

De repente, vi passar um homem com um enorme saco de serapilheira às costas e pedi para lhe falar, para conhecer a sua história particular. Era um ex-juiz que se tornara eremita para não ter os seus acórdãos escrutinados por especialistas em questões de género e a sua vida particular devassada por vendedores de ferragens. O que levava no saco eram nozes que tinha colhido das minhas nogueiras. Às minhas objecções por ver um ex-juiz envolvido em furto de frutos secos, respondeu-me logo: “E os políticos com os bolsos cheios da coisa pública que deveriam administrar em nosso nome? E os amigos dos políticos com os bolsos cheios da coisa pública que dividem com eles, políticos, que deveriam administrar em nosso nome? Não, prefiro andar aqui ao frio e à chuva e ter a minha liberdade. Dantes era pior, era cada um por si e andávamos magros como cães a comer apenas pinhões e raízes de sassafrás. Agora já temos o Sindicato dos Anacoretas Migrantes, já temos associação – a Caríssimas – e estamos quase a fazer uma fundação, para reconquistar o poder de representação que já tivemos na sociedade portuguesa, quando tivemos na Assembleia da República o Anacoreta Correia. E estamos quase a conseguir um subsídio de reintegração do Governo do Costa.

E, dando a sua saudação vespertina, voltou a ocupar o seu lugar naquela gigantesca coreografia que poderia ser uma adaptação do Filipe la Féria da fuga dos judeus do Egipto do filme “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, descontando os bandos de patos e de gansos.

Tive de me sentar para recuperar o fôlego e mandei mensagem para não me esperarem para a construção da ramada. Há limites para as emoções que se conseguem viver num só dia.

Correio Premente

De Sétimo Severo, lugar da Taberna Seca, freguesia de Benquerenças, concelho de Castelo Branco: “Sou muito franco e devo dizer que estou bastante desiludido com a sua crónica que deveria ser sobre palavras erradas, palavras esquecidas, palavras duras, palavras moles, mas encontro cada vez menos disso e cada vez mais fait-divers, piadolas, uma espécie de boletim meteorológico sem a parte da meteorologia, e, irritantemente, nenhuma alusão aos signos do Zodíaco. Sou-lhe franco: a sua peça é o último fio que me segura a ler o PÚBLICO, seja o irreverente P3, o irrevogável P2 ou a pastilha do P1. Se o senhor me falhar, cancelo na hora a minha assinatura que não tenho, mas que toda a gente que gosta de ler deveria ter, para apoiar um jornal diário que até tem uma página de Ciência para dar ao povo e que o povo não lê. Não falando do Internacional, que é um Mundo, e da Política, que tem a sua piada… Só lhe peço uma coisa: aprume-se porque eu estou vigilante!...”

Caro senhor, eu não passo de um bombeiro voluntário que acha piada a extintores de incêndio mas que ainda não os comercializa no quartel. Enquanto cliente, o senhor está coberto de razão, mas que raio de cliente é alguém que não faz uma assinatura do seu jornal favorito e lê de graça aquilo que custa dinheiro a fazer? Por exemplo, esta minha crónica: quantas horas pensa que são necessárias para extrair estes fios de ouro retóricos a partir de calhaus e pedras áridos, duros e estéreis, quantas vezes destinados a não mais do que uma vista de olhos pedante por parte de figuras antropomórficas petrificadas a que, com boa vontade, chamamos leitores? Esta crónica é sobre palavras e nunca enganei ninguém dando-lhe outra coisa. Para seu benefício (não para o meu, note) vou acrescentar mais algumas: bate-chapas, gorgulho, delico-doce, alçaprema, chanato, occipúcio, corandel e sextário. E para não cometer a indelicadeza de terminar subitamente, acrescento: cirial. Cumprimentos.