Um homem perdido no teatro e no cinema de João Lourenço

Pela quarta vez, o encenador traz Conor McPherson ao Teatro Aberto. Noite Viva intensifica as contaminações que há muito vem explorando em palco.

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Filipe Vargas e Vítor Norte e Anna Eremin Daniel Viana Martins
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Numa das cenas cinematográficas mais marcantes do último quartel do século XX, o arqueólogo Tom Baxter atravessa a tela do cinema onde Cecilia se refugia com frequência para fugir ao seu quotidiano e vai ter com ela. Esse momento de A Rosa Púrpura do Cairo, que Woody Allen estreou em 1985, evoca belissimamente o poder que as figuras ficcionais podem ter em qualquer existência real.

João Lourenço não mimetiza a cena em Noite Viva, a sua mais recente encenação para o Teatro Aberto, mas não esconde que essa imagem lhe assaltou o espírito durante a preparação desta nova incursão no universo dramatúrgico do irlandês Conor McPherson. A peça que estreia esta quarta-feira na sala lisboeta leva mais longe do que nunca as contaminações entre teatro e cinema que o encenador há muito explora em palco. A um tal ponto que aquilo a que assistimos é, alternadamente, uma peça de teatro e um filme. Ou uma peça de teatro atravessada por uma série de cenas, projectadas em tela, e que fornece o dispositivo necessário para as várias elipses desenhadas pelo texto.

Depois de Água Salgada (1997), Lucefécit (2000) e Luzes na Cidade (2005), João Lourenço e Vera San Payo de Lemos voltaram-se agora para Noite Viva. Desde que primeiro adaptaram e apresentaram McPherson no Teatro Aberto, seguem atentamente cada nova peça do dramaturgo, fascinados com “o espaço que este autor dá para a criação” e com a utilização de simples “palavras do quotidiano" debaixo das quais "está uma série de coisas que têm de ser sublinhadas e pensadas”.

Em Noite Viva, começamos por assistir a um trecho filmado em que Tomás presencia um episódio de violência entre uma prostituta (Ana) e o namorado. A partir daí, o palco tem a forma de uma garagem onde este pai divorciado, sem rumo definido, sonha com uma hipotética viagem à Finlândia; a tela desce sempre que há necessidade de escapar àquele lugar e abrir portas para narrativas e personagens paralelas. E assistimos então a sequências filmadas durante 15 noites – das 10h às seis da manhã –  com um grupo mais alargado de actores, tendo a realização estado a cargo de Lourenço e Nuno Neves. Sempre à noite por esta suscitar “mais mistério, sombras, medo, tempo para reflectir, amor e calor”.

Tomás (Vítor Norte) tem, na versão do Teatro Aberto, 60 anos – ligeiramente mais do que os “50 e poucos” sugeridos por McPherson. “Quis que tivesse uma diferença maior para a rapariga”, justifica João Lourenço, pensando na relação que se estabelece entre Tomás e Ana. “É mais interessante ver como um homem daquela idade ainda sente desejo, pensa em fugir, quer começar uma vida nova.”

Às tantas, Tomás coloca um vinil no gira-discos e escuta-se What’s going on?, o clássico de Marvin Gaye que parece oficializar a pergunta instalada desde o início. Aquilo que se passa entre Tomás – tipo solitário que sobrevive graças a uns biscates – e aqueles que orbitam à sua volta é sempre difuso e algo desgovernado. “Estes homens existem em todo o lado”, argumenta o encenador, “e são pessoas um pouco perdidas, sempre à procura de qualquer coisa, mantendo a crença de que talvez estejam a resolver o mistério da vida”.

Ana (Anna Eremin) é o elemento que chega para agitar esta dormência em que Tomás vive e para agitar os seus dias uns iguais aos outros. É ela também que reforça a convicção de João  Lourenço de que este “é um daqueles espectáculos para quem gosta de viajar aos cantos escuros que há por aí; não é para ser apreciado por aqueles que querem narrativas limpas e finais felizes”. Noite Viva tem um final que pouco explica. E em que, por fim, teatro e cinema se encontram e sobrepõem. Como se os dois planos, exterior e interior, finalmente deixassem de ter entraves e passassem a coincidir.