Estado francês impede exportação do manuscrito dos 120 Dias de Sodoma

Rolo de papel no qual Sade escreveu a obra quando estava preso na Bastilha deveria ser leiloado esta quarta-feira em Paris, mas a sua classificação como "tesouro nacional" ditou a retirada do lote.

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O manuscrito autógrafo dos 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade, que deveria ser leiloado esta quarta-feira nas instalações da firma Drouot em Paris, acabou por ser retirado do leilão após o Ministério da Cultura francês ter anunciado que classificara a peça como “tesouro nacional”.

Nos últimos meses de 1785, o Marquês de Sade, então preso na Bastilha, dedicou-se a passar a limpo aquela que é hoje uma das mais célebres obras da literatura erótica de todos os tempos, os 120 Dias de Sodoma, que o crítico Jean Paulhan considerou “um gigantesco catálogo de perversidades” e que Pasolini adaptaria livremente ao cinema em 1976 com o título Saló ou os 120 Dias de Sodoma. O valioso manuscrito compõe-se de 33 folhas, escritas na frente e no verso, que foram coladas umas às outras de modo a formar um rolo de mais de 12 metros de comprimento por 11,3 cm de largura.

Foi este singular objecto que o Estado francês decidiu agora proteger, atribuindo-lhe uma classificação que impede a sua exportação. A mesma decisão foi tomada para um conjunto de manuscritos de André Breton, que incluem os dois Manifestos do Surrealismo, e que também deveriam ir à praça no leilão desta quarta-feira. O estatuto de “tesouro nacional” não impede a venda das peças, desde que estas se mantenham no país, mas faria certamente baixar as respectivas licitações. Logo que o Estado anunciou estas classificações, o leiloeiro responsável, Claude Aguttes, optou por retirar ambos os lotes.

O leilão irá inaugurar a venda do espólio da firma Aristophil, cujas 130 mil peças deverão abastecer sucessivos leilões nos próximos seis anos. Mesmo sem o rolo de Sade e os manuscritos de Breton, esta primeira sessão inclui peças como o testemunho de uma sobrevivente do Titanic, Helen Churchil Candee, que inspirou o filme de James Cameron, correspondência privada de Napoleão ou o manuscrito do romance Ursule Mirouët, um dos dois únicos originais de obras de Balzac ainda no domínio privado. Esta última peça, que o Estado renunciou a classificar, está estimada pela leiloeira entre 800 mil e 1,2 milhões de euros.

Fundada por Gérard Lhéritier em 1990, o negócio da Aristophil era adquirir manuscritos valiosos, revendendo depois a diferentes investidores participações na propriedade das peças que comprava. Na sequência de uma investigação a suspeitas de que a empresa se baseava num esquema de pirâmide fradulento, Lhéritier e a filha foram detidos e a Aristophil foi declarada falida em 2015, deixando um passivo de 1200 milhões de euros e cerca de 18 mil credores, para os quais reverterão as receitas deste e de posteriores leilões.

Segundo o jornal Le Figaro, o Estado francês estaria na disposição de pagar até oito milhões de euros pelo manuscrito dos 120 Dias de Sodoma, que Gérard Lhéritier adquirira por sete milhões e que a leiloeira estimava que pudesse atingir entre quatro e seis milhões.

Já pelos manuscritos de Breton, o Estado ponderaria desembolsar cinco milhões de euros, quando a soma de todas as participações que os investidores da Aristophil tinham no conjunto destas peças atingia um total de 22 milhões de euros.

O rolo do Marquês de Sade tem uma história acidentada e que poderia fornecer argumentos para uma contestação da classificação agora anunciada pelo Ministério da Cultura, já que terá sido vendido ilicitamente a um bibliófilo suíço em 1982, e quando a Aristophil o adquiriu, em 2014, o Estado cobrou direitos alfandegários pela reentrada da peça em França, como se esta fosse estrangeira. O Le Figaro adianta que os vendedores não deverão, todavia, contestar a decisão, sugerindo que a não classificação do manuscrito de Balzac pode ter servido de moeda de troca para garantir essa aquiescência.  

Originalmente guardado num estojo e escondido entre duas pedras da cela de Sade na Bastilha, o rolo ali ficou quando o seu autor foi inesperadamente transferido para o manicómio de Charenton, no dia 4 de Julho de 1789, dez dias antes de a Bastilha ser tomada e incendiada num dos episódios centrais da Revolução Francesa. O rolo foi encontrado, segundo algumas fontes por um guarda da Bastilha, segundo outras por um dos revolucionários que participava no assalto à prisão. O certo é que passou depois para as mãos do marquês de Villeneuve-Trans, em cuja família permaneceu durante várias gerações, até ser vendido, em 1900, a um coleccionador alemão.

Quatro anos mais tarde, o manuscrito permitirá ao dermatologista e psiquiatra alemão Iwan Bloch publicar, sob o pseudónimo Eugen Dühren, a primeira edição (incompleta) dos 120 Dias de Sodoma. Volta a saber-se do rolo em 1929, quando o académico Maurice Heine, um especialista em Sade, é mandatado pelo aristocrata e mecenas Charles de Nouailles – cuja mulher, Marie-Laure, descende do Marquês de Sade – para comprar o manuscrito. Ao longo da primeira metade dos anos 30, Heine publica uma cuidada edição da obra em três volumes, ainda hoje referência para todas as edições subsequentes.

Quando Charles e Marie-Laure morrem, o depravado rolo é herdado pela filha do casal, Nathalie, que o emprestou a um editor, Jean Grouet, que o terá ilegalmente contrabandeado para a Suíça, vendendo-o ao coleccionador suíço Gérard Nordmann. O filho de Nathalie, Carlo Perrone, envolve-se numa longa batalha judicial para reaver o manuscrito, mas embora a Justiça francesa lhe dê razão, os tribunais suíços consideram Nordmann o seu legítimo proprietário.

Após ter estado depositado durante algum tempo na Fundação Bodmer, em Genebra, o rolo é finalmente objecto de uma transacção entre a família de Nordmann e Perrone e, em Março de 1914, é adquirido pela Aristophil e regressa a França. De onde agora está definitivamente impedido de voltar a sair.