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O Natal dos outros

O Natal é de quem percebe que ele não se vive exclusivamente numa noite quente à lareira com troncos de chocolate, bacalhau, prendas e muita família. Mas que se sente

Enquanto a maioria das pessoas está nas suas casas, no conforto e amor da família e dos amigos, existem outros que trocam esse aconchego para dar de si a quem nada tem, ou a quem precisa; por amor ao próximo, por amor à profissão, por dever, por altruísmo ou, na maioria na das vezes, por obrigação.

O Natal é sobretudo deles, da capacidade de viverem a época mas de uma outra realidade, de a conciliarem com a vida e a transformarem ainda mais especial ou diferente.

— A Maria é enfermeira e apesar das trocas com os colegas, é o terceiro ano seguido que trabalha na noite de Natal. No ínicio foi mais difícil, mas o tempo e o amor por aquilo que faz facilitaram este processo. A Maria dá sempre prioridade aos doentes, são quase sempre assim os enfermeiros. O marido da Maria é polícia e para não passar o Natal sozinho nunca se importa de fazer o turno dessa noite. Fazem uma vídeo-chamada, jantam um com outro e deixam sempre a prenda de cada um no carro para que a possam abrir tradicionalmente à meia noite. Criaram outros hábitos e vivem o Natal presentes, ainda que ausentes.

— O vizinho deles trabalha no INEM e, quando não está escalado para a noite de Natal, vai para junto dos sem-abrigo, leva-lhes comida e agasalhos; faz-lhes companhia e só volta para casa já depois do pequeno-almoço. Gosta de se sentir útil e do sorriso no rostos dos outros. Ainda que a família goste de o ter por perto, aceita-lhe este comportamento altruísta com orgulho.

Porque não é fácil optarmos pelos outros quando nos vemos perante a possibilidade de escolher a família, os que nos conhecem de cor e nos dão abraços com o olhar, mas que nos ensinaram também a fazer isso para podermos partilhar com aqueles que realmente precisam de sentir o calor do coração ou um olhar que vale por 50 cobertores e um abraço que é tão importante como dois pratos de sopa.

Na hora de escolher, o vizinho da Maria preferiu dar a receber e esse pode ser o lado mais bonito e solidário do Natal.

— A Rita vive a três quarteirões destes três e o companheiro dela é segurança das piscinas municipais e dos museus de todo o concelho, há onze anos que passa a noite de Natal a trabalhar. A Rita sai de casa pelas 19h do dia 24, com dois pratos fartos e uma garrafa de vinho dentro de uma cesta, antes de colocar a toalha de xadrez sobre a mesa onde comem há onze natais, dão um beijo de sorriso largo, abraçam-se e é sempre ele que serve o vinho. Quando acabam de jantar, a Rita vai ter com as irmãs e os dois filhos para passar a meia-noite, e o companheiro só chega a casa de manhã, cansado, mas feliz.

— O Rui passa o Natal no ar e é assim desde que escolheu ser piloto, há quase tantos anos como aqueles que tem o seu filho. Este ano vai estar a menos milhas de Madagáscar do que de casa. Apesar de lhe contarem que as estrelas no Natal têm poderes e ele as poder ver de mais perto, é no filho que ele deixa sempre o coração.

— O meu primo André é bombeiro e tem vidas para salvar na maior parte dos dias do ano e na noite de Natal também as tem; ele gosta verdadeiramente daquilo que faz e a paixão com que vive as outras noites e dias não fazem com que esta seja diferente, mas todos vamos sentir a falta dele, nem que seja na parte em que ele trazia os melhores doces de sempre.

— A Joana e a Catarina são primas e, apesar de todas as distâncias que se lhes remetem, vão passar o Natal a trabalhar na pior das coincidências. Ainda não se habituaram à ideia, porque é o primeiro ano longe da família. A primeira trabalha num call center e há pessoas que lhe telefonam à mesma hora que o menino Jesus nasceu… só para saberem se o tarifário pode ter mais gigas do que aqueles que já adquiriu. Porque afinal de contas a era do Natal com smartphones é bem diferente da era apenas com Natal incluído (sem pacotes ou mensalidades, redes sociais e múltiplos insta stories com renas). A outra prima trabalha num hotel e trabalha por obrigação e pela necessidade.

— Perderam o filho com leucemia quando este tinha nove anos e desde essa altura que a Carla e o Luís passam a noite com outras crianças que sofrem do mesmo problema. Porque se o Natal acabou para o filho deles e de alguma forma para eles, abre-se cheio de esperança, sonhos e recuperação para tantas outras crianças que lhes encontram nos ombros e no sorriso um Natal melhor. Trazem apenas a presença e balões de várias cores para aquela que passou a ser a melhor noite do ano para eles. Se a vida lhes levou tudo, a noite de Natal trouxe-lhes qualquer coisa.

São estas pessoas que fazem do Natal uma época diferente, capaz de unir gente que nunca se viu, de gerar ondas de solidariedade, de multiplicar abraços e acrescentar sacrifício, paz, mas sobretudo amor por cada gesto que se tome.

O Natal é de quem percebe que ele não se vive exclusivamente numa noite quente à lareira com troncos de chocolate, bacalhau, prendas e muita família. Mas que se sente, porque o Natal sente-se sem que tenha espaço, morada ou um lugar fixo. A chaminé deve ser o coração de cada um de nós.

O Natal pode ser família e amigos, mas também é trabalho e voluntariado, desde que o saibamos sentir.