Crítica

Um chuto de rock’n’roll (e outras coisas mais)

Um álbum de sombras e explosões. É o homem tigre a mostrar-nos que a caminhada continua e que a paisagem se altera a cada passo.

O homem tigre continua a caminhar, continua a mostrar-nos o seu mundo, a levar-nos até ele
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O homem tigre continua a caminhar, continua a mostrar-nos o seu mundo, a levar-nos até ele

A tentação será vê-lo como o fim de qualquer coisa e o início de algo novo em Legendary Tigerman. Afinal, Misfit é o primeiro álbum em que o homem tigre, que nasceu como one man band, se transforma em banda completa durante todo o processo de criação. No calor do concerto tornava-se cada vez mais evidente que o solitário caminhando em direcção incerta enquanto carrega na mala a guitarra, companheira fiel, era cada vez mais criação colectiva, com João Cabrita, no sax barítono, Paulo Segadães, na bateria, ou Filipe Costa, nas teclas, a tornaram-se figuras vivas, definitivamente presentes, no universo que Paulo Furtado criou e foi desenvolvendo desde 2000.

Misfit, o álbum que teve edição nas plataformas digitais no final da semana passada e que será lançado em formato físico a 19 de Janeiro, é resultado dos últimos passos desta já longa caminhada. Mas este Misfit não abandona aquilo que tem sido Legendary Tigerman, músico forjado no mito e envolto em névoa misteriosa, como os antigos bluesman em que se inspirou. Névoa dissipada num momento e ei-lo cru e directo em Naked blues, o álbum de estreia, ei-lo caminhando lado a lado com muita gente (ou seja, ele e as mulheres que fizerem Femina), ei-lo regressado novamente, emergindo como figura majestosa, anjo e diabo sem redenção em busca de total transparência emocional (ouçamos True, o álbum anterior).

Gravado com João Cabrita e Paulo Segadães, Misfit foi composto nas noites dos dias que Furtado passou no deserto californiano a rodar Fade into Nothing com Rita Lino e Pedro Maia. Essa sensação de abandono no imenso espaço selvagem, aliado à exiguidade de quartos de motel perdidos no mapa, transfere-se para estas histórias de acelerações na auto-estrada (Motorcycle boy), de trips de blues no deserto, enquanto o som de um assobio chega de parte incerta (The saddest girl on earth), de devastação emocional sem ponto de fuga aparente (Black hole). Transportado tudo isso para um estúdio, o Rancho de La Luna, em Joshua Tree, e trabalhado no seio de um combo sôfrego por agitação, desejoso de transformar a devastação em catarse e a trip em exaltação eléctrica, surge como resultado este Misfit que agora ouvimos.

A guitarra serpenteia pelo blues, a guitarra explode em riffs cheios e graves, tornados mais graves ainda, mais ameaçadores, pelo sax que ora os persegue passo a passo, ora zumbe e dardeja livremente sobre a melodia. As canções são um jogo de tensão, insinuando-se lentamente em tensão crescente antes de desaguarem numa enxurrada de som libertador – tudo pecado do bom, tudo vida a explodir (um fix of rock’n’roll resolve a coisa).

Legendary Tigerman continua a ser homem de deambulação por espaços diversos, continua a ser homem assombrado pelos pensamentos que lhe assaltam a cabeça enquanto os pés avançam, um a seguir ao outro, incertos do destino mas seguros na caminhada. Misfit mostra-o, porém, a expressar essa existência divagante, a sua, de uma outra forma. Entram sons ambientais, órgãos e sequenciadores primitivos, e algo borbulha sobre a superfície de Red sun, esperando o momento certo para se revelar. Chegam fantasmas de baladeiros de outros tempos, animados por caixa de ritmo vintage, e há espectros de Roy Orbison a sobrevoar o cantor despeitado de Sleeping alone – coros a ampararem-no para que não se perca sem redenção. Temos o sentido dramático exemplar de Black hole, toda ela sombras e caos emocional – “no more dreams, no more love, no more pain, just a black hole”, desesperá o homem que canta -, temos o turbilhão eléctrico de I finally belong to someone, rock’n’roll directo, tonitruante, e temos dança bem medida, rhythm’n’blues no horizonte, em Child of lust, e dança com passos medidos de forma diferente, rave’n’roll, em About Alice (“I need to feel alive”, não é?).

O homem tigre continua a caminhar, continua a mostrar-nos o seu mundo, a levar-nos até ele. Reconhecemos o que permanece, mas ele faz questão de nos assegurar, sem discrição, que nunca será igual o que nos mostra. Este Misfit é outro. Legendary Tigerman não caminha sozinho. Passo a passo, vemo-los avançar sem olhar para trás, todas as vozes unidas no mesmo desejo: “Until we all fade into oblivion”, despedem-se. Há alegria nas suas vozes.