Meryl Streep responde a Rose McGowan: “Eu não sabia”

McGowan chamou “hipócritas” às actrizes “que, como Meryl Streep”, trabalharam para Weinstein.

Foto
Reuters/MARIO ANZUONI

Depois de Rose McGowan ter criticado as actrizes que decidiram usar preto na próxima gala dos Globos de Ouro, em especial Meryl Streep, esta enviou um comunicado ao Huffington Post lamentando a posição de McGowan. Streep declara que “não sabia” o que se passava entre o produtor Harvey Weinstein e dezenas de actrizes que vieram entretanto a público denunciar casos de abuso, assédio e violação.

O tweet que McGowan escreveu foi entretanto apagado. Nele, a actriz chamava “hipócritas” às actrizes “que, como Meryl Streep”, trabalharam para o produtor e que em 2018 se preparam para vestir de negro. “Desprezo a sua hipocrisia. Talvez devessem usar Marchesa”, escreveu, numa referência à marca de moda criada pela ex-mulher de Weinstein, Georgina Chapman.

Ao Huffington Post, Meryl Streep aponta, num longo comunicado, que lamenta ter sido atacada por Rose McGowan mas que quer dizer-lhe que não sabia o que se passava. “Eu não conhecia os crimes de Weinstein, nem nos anos 90, quando ele a atacou, ou nas décadas seguintes, quando atacou outras”, escreve a actriz, acrescentando que o seu silêncio não foi propositado, porque não sabia. “Não aprovo tacitamente a violação. Eu não sabia. Eu não gosto que jovens mulheres sejam assediadas. Eu não sabia que isso estava a acontecer”, reforça.

“Eu não sei onde vive Harvey, nem ele esteve em minha casa. Na minha vida, nunca fui convidada para ir para um quarto de hotel [com ele]. Estive no seu escritório uma vez, para uma reunião com Wes Craven para Música do Coração, em 1998”, continua Meryl Streep, acrescentando que o produtor distribuiu filmes que a actriz fez com outras pessoas. “Nem todos os actores, actrizes e realizadores que fizeram filmes que Harvey Weinstein distribuiu sabiam que ele abusava de mulheres, ou que ele violou Rose nos anos 90, outras mulheres antes e outras depois. Só soubemos quando nos disseram. Não sabíamos que o silêncio das mulheres era comprado por ele.”

A actriz lembra que o produtor precisava que nada se soubesse para continuar a trabalhar. “Ele precisava de mim muito mais do que eu precisava dele e ele certificou-se de que eu não sabia”, sublinha. Streep lembra que Harvey Weinstein contratou a agência de segurança privada israelita Black Cube, fundada e maioritariamente formada por ex-oficiais da Mossad, para investigar as actrizes que o acusavam de violação e jornalistas que se preparavam para divulgar essas denúncias.

Entretanto, foi criado um fundo para a defesa legal para as vítimas, para o qual “contribuíram centenas de pessoas de bom coração da nossa indústria”, com o objectivo de “derrubar os sacanas e ajudar as vítimas a combater este flagelo”, escreve Streep.

A actriz conta ainda que tentou, todo o fim-de-semana, falar com Rose McGowan, amigos comuns deram-lhe o seu número de telefone, mas aquela nunca a atendeu. Por isso escreveu o comunicado. Streep gostaria de ter expressado pessoalmente a McGowan o seu “profundo respeito por ela e a bravura das outras ao expor os monstros entre nós e o meu pesar pela dor incalculável e contínua que ela sofre”.

Meryl Streep termina o texto apelando à união de todas as mulheres da indústria cinematográfica, que devem recusar o regresso ao statu quo, no qual “as mulheres eram usadas, vítimas de abusos e a quem era recusado o envolvimento na tomada de decisões”.