A jovem advogada andaluza que quer governar a Catalunha

Inspira paixões e ódios. No parlamento fala com o à vontade de uma política experiente, à frente de um partido feito por gente sem passado político. Depois de cinco anos como deputada, quer mudar-se para o Palácio da Generalitat.

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Inés Arrimadas foi aclamada este domingo pelos apoiantes do Cidadãos Reuters/JON NAZCA
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A jovem candidata a presidente da Generalitat entrou para a política pela mão de Albert Rivera Reuters/JON NAZCA
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O francês Manuel Valls e o peruano Mario Vargas Llosa entraram na campanha catalã LUSA/ENRIC FONTCUBERTA

Em 2015, a imprensa espanhola chamou-lhe “a melhor criação de Albert Rivera”. Quando foi eleita porta-voz do grupo do Cidadãos no parlamento autonómico da Catalunha, tornando-se líder da oposição, com 25 deputados, Inés Arrimadas contava com três anos de experiência parlamentar. Tinham passado cinco desde que decidira ir a um comício do partido fundado por Rivera no Teatro Romea, de Barcelona.

Andaluza, como gosta de se afirmar (também se diz “salmantina” em homenagem aos pais, da aldeia de Salmoral, Salamanca), apaixonou-se pela capital catalã através das memórias dos pais, Rufino Arrimadas e Inés Garcia, que ali viveram parte da vida. Arrimadas, a andaluza que entretanto se fez catalã, nasceu em Jerez de La Frontera há 36 anos. Antes da política, exerceu como advogada empresarial, trabalhando desde 2008 em empresas de Barcelona.

A actual líder do C’s na Catalunha, candidata à presidência da Generalitat nas eleições de quinta-feira, dia 21, acredita que sem o surgimento deste partido não teria entrado na política. O pai, pelo menos, sempre lhe pediu que não o fizesse, tentando convencê-la que dava muito trabalho e chatices – foi conselheiro no primeiro governo autárquico de Jerez depois de Franco, pela União de Centro Democrático, do então presidente Adolfo Suárez, a grande referência de Arrimadas.

Ela, contou a mãe, ouvida pelo El Mundo, “sempre teve o seu critério, não a calávamos nem debaixo de água, como era pequena, tinha de se pôr em bicos de pés para discutir com os irmãos”. Segundo Inés mãe, a filha já mostrava habilidade para o debate e pouca tendência para os pólos. “Nunca foi de extremismos de esquerda ou direita. Sempre gostou de discutir tendo em conta o que é justo”.

Um dia depois de ter recebido os apoios do Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa (o peruano foi um dos impulsionadores da manifestação pela unidade de Espanha em Barcelona a 8 de Outubro, uma semana depois do referendo sobre a independência organizado pelo governo deposto de Carles Puigdemont e Oriol Junqueras) e do ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls (nascido em Barcelona), num comício que encheu o Teatro Goya, este domingo, Arrimadas subiu ao palco aos gritos de “presidenta” no maior acto eleitoral do C’s nesta campanha.

O dia grande desta campanha tão estranha – as eleições foram antecipadas e marcadas por Mariano Rajoy depois de destituir parlamento e governo; o ex-president e candidato auto-exilou-se em Bruxelas, o seu antigo vice e igualmente candidato está na prisão – que nem foi possível encontrar um domingo para as realizar, foi passado por Arrimadas num dos seus bastiões, L’Hospitalet de Llobregat, perante 5000 pessoas.

A segunda cidade em população da Catalunha é um dos símbolos da transformação da chamada “cintura vermelha” de Barcelona, que costumava votar nos socialistas, para a nova “cintura laranja”, a cor do partido de centro-direita fundado em 2006 por Rivera precisamente para combater o independentismo que Arrimadas quer agora derrotar de vez.

“Partir-me o coração”

Entre a audiência (para além de Rivera e toda a cúpula do partido) estiveram muitos nascidos fora da Catalunha, ou filhos de pais que vieram de outras regiões, especialmente a Andaluzia (como a maioria dos catalães), e se concentram na área metropolitana de Barcelona. “Tentaram partir um coração em que cabem três bandeiras. A mim cabe-me a bandeira andaluza, e sei que a muitos de vocês também”, afirmou a candidata.

Recuperando uma ideia que repete com grande frequência, Arrimadas, a mais nova de cinco irmãos, recordou a sua grande família andaluza. “Não quero que ninguém tenha de trazer um passaporte para nos vir ver”, disse. “Os que roubam foram sempre os corruptos [referência ao argumento dos soberanistas de que Espanha não devolve o suficiente dos impostos cobrados na Catalunha] e não os nossos familiares do resto de Espanha.”

As últimas sondagens mostram o C’s ligeiramente à frente da ERC, de Junqueras. As anteriores, um pouco atrás. A quatro dias do 21-D, Arrimadas insistiu na importância de ir votar (mesmo se já se antecipa uma participação recorde): “Asseguro-vos que não se vão arrepender e que o explicarão aos vossos netos com orgulho”.