Se está difícil educar a nossa ignorância alimentar, mais vale taxá-la!

99% do nosso orçamento relativo à saúde é gasto no tratamento de doenças e apenas 1% à prevenção.

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Há algumas semanas, a “taxa do sal” foi chumbada no Parlamento, mesmo tendo o Ministério da Saúde feito um grande esforço de mobilização da opinião pública com a presença de várias caras conhecidas. Tendo em conta que em 2016 um imposto semelhante foi aprovado para as bebidas açucaradas, torna-se difícil compreender esta decisão, mesmo quando os números são alarmantes — 4 milhões de portugueses sofrem de hipertensão, há 96 mortes por dia por doença cardiovascular e consumimos o dobro da quantidade de sal recomendada — e existe evidência q.b. da utilidade desta taxa e o seu apoio por parte da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Nutricionistas.

Tentando colocar a “pele” de nutricionista de lado, e analisando friamente a questão, numa sociedade ideal, não deveria ser necessário taxar alimentos nutricionalmente desequilibrados, uma vez que a opção pelo seu consumo faz parte da liberdade individual de cada um. Ainda assim, quanto aos problemas decorrentes do seu consumo crónico e excessivo, todos somos chamados a pagar a factura (os custos do Serviço Nacional de Saúde com a hipertensão e com morbilidades associadas é tremendo), torna-se necessário olhar para estes alimentos com os mesmos olhos do que para as bebidas alcoólicas e para o tabaco. É certo que podemos todos tentar ter a visão “romântica” e pedagógica de que mais vale educar do que taxar, mas todos sabemos (em vários contextos) que tal não resulta. Toda a gente sabe que tem de cumprir os limites de velocidade, mas só abranda quando se aproxima do radar e só passa a ter cuidado em algumas zonas depois de chegar uma multa a casa. Também sabemos que há um limite de alcoolemia a cumprir, mas só quando se tem “azar” numa operação STOP é que nos consciencializamos de que é melhor não arriscar. Quem já teve a oportunidade de trabalhar no desporto de alta competição sabe perfeitamente que, por mais pedagogia que seja feita, nada resulta tão bem na mudança de comportamentos do que cortar no ordenado dos atletas.

Se formos sérios e honestos, sabemos perfeitamente que os números de hipertensos e indivíduos com excesso de peso e obesidade no nosso país é muito mais fruto do desleixo e não de falta de (in)formação. Ninguém pode dizer em consciência no século XXI que acha ser saudável ingerir diariamente bolachas, gelados, refrigerantes, batatas fritas, bolos, folhados e afins. Nem vale a pena tão-pouco culpar a indústria pelas nossas escolhas e fazer dela um “bicho papão”, pois até ao dia de hoje não parece ter existido nenhum relato de indivíduos destacados pela indústria alimentar a colocarem junk food às escondidas nos nossos carrinhos de hipermercado ou em nossas casas a obrigarem-nos a comer determinado alimento. Outra das razões pelas quais a culpa é maioritariamente individual e não deve ser imputada à indústria é que cada pessoa tem a sua própria história de aumento de peso e hipertensão e que dessa história podem fazer parte variados alimentos. Por exemplo, a manteiga dos Açores, os vários enchidos, queijos e mel de denominação de origem protegida e a doçaria tradicional portuguesa são tudo alimentos que estão longe da alçada desta “indústria malvada” que está no nosso imaginário e que possuem quantidades de açúcar, gordura e sal elevadíssimas. Aliás, em adição à taxa do açúcar (já em vigor e que não perde nada em acrescentar o leite achocolatado à lista) e à do sal (já recusada), faria também falta uma relativa à gordura.

A indústria faz o seu papel, que é tentar vender o mais possível como qualquer empresa tenta ter o maior lucro possível. Por isso, mais do que desresponsabilizarmo-nos e culpar a indústria, temos de perceber de uma vez por todas que quem cria tendências de consumo e “manda” na indústria somos nós, consumidores. Querem um exemplo? Em 2016, foram lançados os famosos iogurtes “SKYR” apenas por uma determinada marca que se tornaram tão famosos que foram apelidados “iogurtes-fantasma”, pois às primeiras horas de abertura do supermercado desapareciam por completo. Um ano depois, existem dezenas de marcas diferentes em todas as grandes cadeias de distribuição a comercializá-los, o que significa que a indústria se adapta facilmente às vontades do consumidor se isso se traduzir em mais vendas. Outro bom exemplo é o resultado da taxa de açúcar colocada em vigor este ano, que fez com que o consumo de bebidas açucaradas caísse cerca de 20%, sendo substituídas por outras versões menos açucaradas. O resultado foi uma poupança da ingestão de 4200 toneladas de açúcar, o que é bem revelador de que taxar estes alimentos é uma medida que tem impacto e que muda significativamente o nosso comportamento alimentar.  

Gastamos 99% do nosso orçamento relativo à saúde no tratamento de doenças e apenas 1% à prevenção. Não deixa de ser irónico que, quando se tenta mudar o estado de coisas, seja um conjunto de deputados sem competências técnicas a travar estas medidas, baseados em argumentos injustificáveis. Por isso, se não conseguimos educar a nossa ignorância alimentar, mais vale mesmo taxá-la. 

A rubrica Estar Bem encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO