“Passar tempo nas redes sociais é mau para nós?”, pergunta o próprio Facebook

Empresa diz que quer continuar a estudar os efeitos das interacções online.

O Facebook começa a interrogar-se sobre um lado mais escuro das redes sociais
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O Facebook começa a interrogar-se sobre um lado mais escuro das redes sociais Benoit Tessier/Reuters

O Facebook parece estar com dúvidas existenciais. A rede social colocou agora uma questão que muitos têm vindo a fazer: “Passar tempo nas redes sociais é mau para nós?” Em alguns casos, pelo menos, a resposta é sim. E a pergunta surge quando se avolumam os apelos para que as pessoas cortem, ou diminuam, a sua ligação a estas plataformas.

Num texto publicado nesta sexta-feira no site da empresa, dois investigadores do Facebook referem alguns estudos científicos (a maioria de universidades dos EUA) que tentaram perceber o impacto de passar tempo em redes sociais e de interagir com pessoas através da plataforma. As conclusões citadas vão sobretudo ao encontro do senso-comum: passar muito tempo a consumir informação nas redes sociais pode ser mau, mas interagir com outras pessoas pode ter efeitos positivos; terminar um relacionamento e ver as actividades do antigo companheiro é um problema; percorrer os perfis de outras pessoas leva os utilizadores a fazerem comparações desfavoráveis consigo próprios; e os efeitos sobre as crianças estão essencialmente por descobrir.

“De acordo com a investigação, resume-se a como se usa a tecnologia. Por exemplo, nas redes sociais, é possível percorrer as publicações, de forma muito semelhante a ver televisão, ou interagir activamente com amigos – enviar mensagens e comentar nas publicações uns dos outros”, observam os dois investigadores. “Tal como quando é cara-a-cara, interagir com pessoas que nos dizem algo pode ser benéfico, ao passo que simplesmente ficar de lado a ver os outros pode-nos fazer sentir pior.”

O texto publicado pelos dois investigadores do Facebook surge na mesma semana em que foram amplamente noticiadas as declarações de um ex-executivo, que argumentou que a empresa está a destruir a forma como as pessoas se relacionam. “O circuito perpétuo de validação social movido a dopamina que criámos está a destruir a forma como a sociedade funciona”, alertou Chamath Palihapitiya, que trabalhou no Facebook entre 2007 e 2011, e era responsável por aumentar o número de utilizadores. “Não há discurso cívico, não há cooperação, [há] desinformação, mentiras. Isto não é um problema americano. Não são os anúncios russos. É um problema global. Está a erodir os alicerces de como as pessoas se comportam umas com as outras”, apontou, perante uma plateia de alunos universitários.

Também há poucas semanas, o jornalista norte-americano Nick Bilton, autor de um livro sobre a história do Twitter, publicou um artigo em que dizia ter praticamente abandonado as redes sociais e argumentava que estas plataformas estavam a “dividir a sociedade”, ao facilitarem o abuso, permitirem o recrutamento de terroristas, aumentarem os níveis de ansiedade dos utilizadores e condicionarem eleições.

Os investigadores do Facebook dizem que a plataforma fez várias alterações ao feed de notícias para “proporcionar mais oportunidades de interacções significativas e reduzir o consumo passivo de conteúdo de baixa qualidade”. Isto inclui a despromoção de notícias falsas e títulos criados sobretudo para apelar ao clique, bem como dar prioridade aos conteúdos publicados pelos amigos. Nesta sexta-feira, foi lançada uma funcionalidade chamada snooze, que permite esconder durante 30 dias todas as publicações de uma pessoa ou página. Foi apresentada como uma alternativa mais branda às opções de esconder conteúdos permanentemente, ou de deixar de seguir ou “desamigar” alguém.

O texto também refere que o objectivo do Facebook é aumentar as interacções positivas para os seus utilizadores e não necessariamente o tempo que estes passam na plataforma – uma estratégia que trará desafios para um negócio que assenta em mostrar publicidade. A empresa afirmou que vai estreitar laços com a academia para estudar o assunto. "Não temos todas as respostas, mas dado o papel proeminente que os media sociais agora têm na vida de muitas pessoas, queremos ajudar a elevar a discussão."