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Um saco e um vídeo: a receita para tramar um ministro russo

Um dos julgamentos mais dramáticos da história recente da Rússia culminou com a condenação de um ex-ministro a oito anos numa colónia penal.

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Uliukaiev foi condenado a uma pena de oito anos de prisão Reuters/SERGEI KARPUKHIN

O ex-ministro da Economia russo, Alexei Uliukaiev, foi condenado esta sexta-feira a uma pena de oito anos de prisão num caso de corrupção, que também envolve um dos empresários mais próximos do regime.

Uliukaiev foi detido de forma surpreendente em Novembro do ano passado, tornando-se no primeiro ministro russo em funções a ser preso desde a queda da União Soviética. O momento dramático da sua detenção foi filmado e transmitido nos noticiários, e, na altura, até o primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, pareceu ter sido apanhado de surpresa.

O ministro é acusado de ter recebido dois milhões de dólares do director-executivo da petrolífera Rosneft, Igor Sechin, para viabilizar a aquisição de uma outra empresa. Segundo o veredicto, Uliukaiev “fez uso da sua posição para pedir ao líder da Rosneft um suborno”. “Ao mesmo tempo, disse a Sechin que iria no futuro obstruir as actividades da empresa, caso este recusasse”, continuou a juíza que leu a sentença, Larisa Semionova.

A acusação pedia uma pena de dez anos de prisão e a aplicação da multa máxima por corrupção, de 500 milhões de rublos (sete milhões de euros). Porém, o tribunal decidiu condenar Uliukaiev a uma pena de oito anos numa colónia penal e a uma multa de 130 milhões de rublos (1,9 milhões de euros).

Jogos de poder

Ao envolver personalidades tão poderosas dentro do mundo político-empresarial da Rússia, o caso depressa assumiu um estatuto histórico. Uliukaiev negou desde o início as acusações e diz ter sido vítima de uma trama dentro do círculo de poder do Kremlin.

A defesa alegou que o ex-ministro pensava que o saco que recebeu de Sechin onde estava o dinheiro do suborno continha apenas vinho e salsichas – prendas que o empresário costuma oferecer para celebrar negócios.

Sechin é uma das figuras mais poderosas na Rússia contemporânea, onde muitas vezes o universo da política e dos negócios se cruzam. O empresário é muito próximo do Presidente russo, Vladimir Putin, desde os tempos em que pertencia ao KGB, nos anos 1980. Parte da carreira de Sechin foi passada em Moçambique, onde trabalhou como tradutor – domina fluentemente o português.

A sua proximidade ao regime de Putin valeu-lhe a inclusão na lista de personalidades alvo de sanções internacionais por causa da anexação da Península da Crimeia.

Apesar de ser uma peça-chave no caso contra Uliukaiev, Sechin não compareceu a qualquer sessão do julgamento. Na conferência de imprensa anual de fim de ano, Putin desvalorizou as ausências do chefe da Rosneft, dizendo que o tribunal tinha provas suficientes para chegar a um veredicto.

Durante o julgamento, a defesa enquadrou as acusações contra o ex-ministro como um jogo de poder para o afastar. Numa das sessões, Uliukaiev disse que “se tornou muito fácil” remover rivais na luta por influência no topo do Kremlin: “Um saco, um cesto, um vídeo de baixa resolução, três cliques, e está pronto.” Para acentuar a injustiça de que dizia ser alvo, Uliukaiev chegou a trazer para o tribunal exemplares do conto de Tchekhov O Assassínio e do livro de Kafka O Processo, diz o Moscow Times.

Numa altura em que Putin se prepara para entrar no seu último mandato como Presidente, vários analistas antecipam que os próximos anos serão marcados por uma feroz competição pelo poder na cúpula do Kremlin.

Nas alegações finais, Uliukaiev voltou a negar as acusações, apesar de ter pedido perdão. “Sou culpado de ter comprometido muitas vezes, ao procurar uma saída fácil, a minha carreira e bem-estar em nome dos meus princípios.”

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