Mário Laginha e Tcheka: “Há um prazer genuíno em fazermos música juntos”

O piano de Mário Laginha e a voz e a guitarra de Tcheka unem-se em duo no Teatro da Trindade, em Lisboa, em duas noites que prometem. Esta sexta e sábado, às 21h30.

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Tcheka e Mário Lagina em ensaios DR

Mário Laginha e Tcheka voltam a tocar juntos em Lisboa. Se em 2016 os vimos no CCB, numa noite de Carta Branca, agora terão duas noites no palco do Teatro da Trindade, naquele que será o último espectáculo do ciclo Há Música no Trindade. Chamaram-lhe Strada, canção que fecha o mais recente álbum do cantor e compositor cabo-verdiano Tcheka, Boka Kafé (2017). Laginha, pianista e compositor de horizontes largos, diz: “O Strada já estava feito quando surgiu a Carta Branca, a nossa cumplicidade vem um bocado de trás. Em duo não temos tocado muito, mas as vezes que tocámos correram tão bem que nos apetece fazer mais e mais.” Tocaram no Festival de Jazz de Marciac, em França, tocaram também em Budapeste e em Belgrado. E agora aqui.

A diferença entre o que vimos no CCB e o que ouviremos agora é, sobretudo, de repertório, diz Mário. “No CCB era só música minha, e ele cantava. Aqui é mais música dele do que minha.” Tcheka, por sua vez, valoriza muito a parceria: “Tem sido uma experiência muito importante, para mim e para a música de Cabo Verde. O que eu faço, junto com o Mário, dá uma dimensão incrível, uma música plena de cor, mágica. Só temos a ganhar, com este projecto.” Em duo, já têm feito composições, mas cabe sempre a um deles a iniciativa. Mário: “Normalmente, há logo uma autoria, minha ou dele. E depois vêm as ideias, que o outro dá.” Acresce a isto o facto de a música de Tcheka não se encaixar no habitual cânone crioulo, e surpreender por isso. “É fora do estereótipo cabo-verdiano, mas eu sinto na música que o Tcheka faz uma ligação com a música africana que eu ouvia na adolescência, os discos de recolha, das tribos, de que eu sempre gostei. E sinto com a música dele uma afinidade de paixão musical. Ouço e digo: adoro isto.”

Disco? “Havemos de fazer”

A rítmica que Tcheka imprime à guitarra acústica é outro dos pontos distintivos, diz Mário: “Ele toca de uma maneira incrivelmente rítmica, mas em que o tempo pode estar num ponto ou noutro. Eu também acho que sou rítmico, mas ele a tocar guitarra não é nada óbvio e tem um tipo de virtuosismo e uma riqueza que são muito sofisticados, de uma complexidade inesperada.”

Tcheka retribui o elogio: “O conhecimento do Mário é muito importante para a minha música. Tocar com ele dá-me a certeza do ponto em que estou. E é isso que eu sinto.” A primeira vez que se encontraram foi em Cabo Verde, recorda Mário: “Eu tinha ido tocar na Praia, a solo, a convite de um adido cultural que fazia o que deve ser feito: mostrar em Cabo Verde artistas portugueses e mostrar aos portugueses os artistas cabo-verdianos. E, mais do que isso, tentar que dessa troca nasçam algumas cumplicidades.” Foi esse adido que recomendou a Laginha que ouvisse Tcheka, e Mário foi à discoteca local e comprou os dois discos que havia. Levou-os para o hotel e ficou fascinado. “Ele então convidou o Tcheka para ir ao concerto à noite e eu, entusiasmado que estava, tentei decorar uma das músicas dele e no meio do concerto toquei esse tema.”

Depois conheceram-se e a ligação não parou mais: Tcheka convidou Mário para tocar com ele no São Jorge, em Lisboa, como convidado, Mário retribuiu com outro convite, e depois foram “fazendo mais coisas”, alargando o espectro. “Em vez de dois temas, começámos a tocar mais. Foi uma aventura incrível.” Falta um disco a dois, hipótese que ambos admitem. “Há um prazer genuíno em fazermos música juntos”, diz Mário. “Em Marciac todos nos perguntavam se não havia disco dos dois”, lembra Tcheka. “Havemos de fazer”, conclui Mário.

No Há Música no Trindade actuaram, desde Junho, Tatanka, Yamandu Costa, José Manuel Neto, Dead Combo, Vitorino com João Paulo Esteves da Silva e Filipe Raposo, e Frankie Chavez. Laginha e Tcheka encerram o ciclo.