Yvonne Rainer: “Os anos 60 estão-me nos ossos”

Estava no lugar certo, no momento certo, a fazer uma revolução na história da dança chamada Judson Dance Theater. Não se ficou por aí: foi para a rua protestar contra a Guerra do Vietname, fez-se escritora, activista, feminista e cineasta. Aos 83 anos traz a Serralves The Concept of Dust, uma conferência e um livro de poemas.

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Um corpo funcional, implicado nas acções e nos gestos do quotidiano: falar, caminhar, comer, manusear objectos — a estética do Judson Dance Theater Jack Mitchell/Getty Images

Anos 60 e os Estados Unidos ferviam. Estava tudo a acontecer: o Movimento dos Direitos Civis contra a segregação racial, a segunda vaga do feminismo, os protestos contra a Guerra do Vietname, a contracultura hippie e o rock’n’roll, o movimento LGBT, a Pop Art e o Minimalismo, a par de uma série de manifestações artísticas que aconteciam nas ruas, em caves, bares, galerias e espaços improvisados.

Yvonne Rainer estava em Nova Iorque e estava a ver tudo isto a acontecer, enquanto fazia a sua própria revolução numa igreja desactivada de Greenwich Village, a Judson Memorial Church, na companhia de coreógrafos, compositores e artistas visuais como Trisha Brown, Steve Paxton, Robert Rauschenberg, Lucinda Childs, Robert Morris, John Herbert McDowell, Simone Forti e Deborah Hay. Um grupo que ficou conhecido como Judson Dance Theater, responsável por uma revolução a que se chamou de dança pós-moderna – e que viria a mudar não só o curso da história da dança como a lançar premissas éticas e estéticas para as artes contemporâneas nas suas várias frentes. Eram corpos que se abriam ao quotidiano, a gestos banais e à imprevisibilidade, a processos de pesquisa e de trabalho fundados na colaboração artística e na permeabilidade interdisciplinar. Corpos que aproximavam a arte à vida, movidos por um desejo de democracia e partilha.

“Foi uma altura tão fértil para a rebelião, em todos os sentidos. Socialmente, politicamente, sexualmente, artisticamente… Foi muito formativo para mim. Os anos 60 estão-me nos ossos”, diz Yvonne Rainer, 83 anos, ao Ípsilon, dias antes de mostrar no Museu de Serralves, no Porto, parte daquilo em que se tornou: numa das mais influentes coreógrafas do século XX, pioneira que abriu portas para a dança contemporânea, mas também numa escritora e activista política insaciável. Sábado dá uma conferência chamada Revision: A Truncated History of the Universe for Dummies. A Rant Dance (Revisão: Uma História Truncada do Universo para Totós. Uma Dança Inflamada), seguida de uma leitura do seu livro de poesia, Poems (2011). No domingo, apresenta pela primeira vez em Portugal o seu trabalho coreográfico, na primeira pessoa e com os seus bailarinos. É a estreia nacional de The Concept of Dust: Continuous Project – Altered Annually, peça parcialmente iluminada por uma criação sua de 1969-70, Continuous Project – Altered Daily, que foi reconstruída em Serralves, em Setembro de 1997, pelo colectivo Quatuor Albrecht Knust no âmbito do programa 30 Anos de Dança, comissariado por António Pinto Ribeiro, em que Yvonne Rainer esteve presente para mostrar (e falar sobre) os seus filmes, outra etapa fundamental e incontornável do seu trabalho artístico transdisciplinar.

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The Concept of Dust: Yvonne Rainer a olhar o mundo e a transmitir aos bailarinos o passado que lhe está nos ossos Kayode Okeyode
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Kayode Okeyode

Neste regresso de Rainer ao Porto, a escolha de The Concept of Dust como momento central da programação não surge por acaso. “Esta obra é representativa do processo de pesquisa, do desenvolvimento do trabalho criativo e do posicionamento político da artista”, sintetiza Cristina Grande, programadora de artes performativas de Serralves. Levada a palco pela primeira vez em 2014, The Concept of Dust é uma peça viva, em contínuo desenvolvimento e configuração – princípio que Rainer foi recuperar a Continuous Project – Altered Daily (também o título de uma escultura de Robert Morris). As soluções coreográficas, entre a fragmentação e a repetição, obedecem a algumas regras, mas são activadas de modo diferente em cada apresentação “consoante os desejos dos bailarinos”, explica a coreógrafa. “Nenhum dos bailarinos sai de cena, mas podem optar por fazer ou não fazer num determinado momento, por ficar de lado à espera de uma ideia ou de uma oportunidade para voltar a entrar. Deixo alguns mecanismos de controlo nas mãos deles. Eles não inventam os seus movimentos, mas improvisam em termos de sequência. Fazem decisões no tempo e no espaço.”

Este processo de tentar distribuir o poder de decisão entre coreógrafos e bailarinos –problematizado durante o decorrer da própria performance – é também um reflexo dos valores democráticos que norteavam o ambiente criativo da Judson Dance Theater, que funcionava como uma espécie de cooperativa artística sem líderes. Sobretudo no caso de Yvonne Rainer, esse desapego pelas hierarquias e pelos complexos autorais acabaria também por dar lugar a métodos de criação a favor da sobreposição e colisão de referências, de uma assemblage de discursos paralelos que geram ou não relações com o discurso dançado. Em The Concept of Dust, isso materializa-se no cruzamento de coreografias da própria autora com outras de nomes tão distintos como Isadora Duncan, Fritz Lang, Michael Douglas Peters (via Michael Jackson), Les Twins ou Jacques Tati, que por sua vez se misturam com a música The Sinking of the Titanic, de Gavin Bryars, que parece trazer uma certa dimensão afectiva à peça, associada aos possíveis significados da palavra dust/ pó (essência da vida, erosão, envelhecimento), e com pedaços de textos de vários autores, incluindo da própria Rainer.

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Yvonne Rainer, 1982 Jack Mitchell/Getty Images

“Não há uma narrativa, há o que a [escritora e ensaísta nova-iorquina] Susan Sontag chamava de ‘justaposição radical’”, afirma a coreógrafa. Por causa da idade avançada, Yvonne Rainer não dança durante a peça. “Leio os textos, caminho, ocasionalmente interrompo o que os bailarinos estão a fazer e participo na performance da maneira que consigo”, esclarece. Contudo, The Concept of Dust não é só Yvonne Rainer a transmitir aos seus bailarinos o passado que lhe está nos ossos. Também é presente, também é Yvonne Rainer a olhar o mundo. “É uma peça política onde há referências pessoais à idade da artista e ao seu corpo, à doença e à morte, mas também ao impacto ambiental, às migrações dos povos, à invisibilidade de algumas culturas face ao mundo ocidental”, descreve Cristina Grande.

“Os textos que leio têm a ver com os acontecimentos políticos actuais e com um pensamento crítico sobre o que se está a passar nos EUA”, assinala a artista. “O meu foco muda consoante o que está a acontecer no mundo”, acrescenta, assinalando que as suas últimas reflexões políticas estão expostas no texto da conferência que irá apresentar em Serralves. Nele, a artista encarna o deus Apolo, que desce à terra e ao século XXI para falar sobre a situação na Síria, o genocídio da comunidade muçulmana Rohingya levado a cabo na Birmânia, o assédio e abuso sexual de mulheres, ou a constante troca de ameaças entre o Presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e Donald Trump, a quem Rainer chama de “esse idiota-de-merda-saco-de-peidos de um presidente”, deixando ainda um recado certeiro a Kim Jong-un: “Posso assegurar-te que chamarem nomes um ao outro em público, como miúdos da escola malcriados, não te leva a lado nenhum”.

No fundo, aos 83 anos, Yvonne Rainer continua a ser aquela rapariga inconformista, rebelde com causa, que nas décadas de 60 e 70 saía para as ruas em protesto contra Guerra do Vietname – agora talvez com uma ironia e desfaçatez mais afiadas, cortesia da escola da vida. “Aquando da Invasão do Iraque ordenada por George W. Bush, e mesmo depois do Trump ter sido eleito, fui para a rua manifestar-me ao lado de milhares de pessoas”, recorda. “Eu não sou uma líder ou uma oradora muito experiente, mas escrevo bastante e junto-me a manifestações sempre que posso. Há uma atitude de resistência ao status quo que tem estado sempre comigo, ao longo da minha vida. Afinal, cresci entre radicais.”

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(Em primeiro plano) Twyla Tharp, Martha Graham, Jose Limon e (atrás) Merce Cunningham, Erick Hawkins, Paul Taylor, Yvonne Rainer e Don Redlich Jack Mitchell/Getty Images

De John Cage a Rauschenberg

Yvonne Rainer cresceu em São Francisco numa família de anarquistas. Desde pequena que os pais a levavam a piqueniques e festas anarcas italianas (o pai era imigrante italiano nos EUA), a par de idas à ópera, ao ballet e ao cinema, conta a artista na sua autobiografia Feelings Are Facts (2006), um valioso documento para conhecer mais a fundo o seu percurso artístico e descobrir a sua personalidade intensa e militante. Rainer escreve abertamente sobre as suas experiências sexuais e o seu desejo tanto por homens como por mulheres (“as mulheres da minhas fantasias sexuais eram parecidas com a Marilyn Monroe e a Jayne Mansfield”), os pensamentos suicidas, as depressões e as consultas de psicoterapia, o aborto feito por uma médica que a humilhou – também por isso, anos mais tarde, manifestou-se pela legalização do aborto e pelos direitos reprodutivos das mulheres ao lado do grupo feminista No More Nice Girls.

Em Feelings Are Facts, Rainer descreve também a sua chegada a Nova Iorque, em 1956. A dança começa a tornar-se num assunto sério. Tem aulas com Martha Graham, depois com Merce Cunningham. Entretanto, vai estudar com Anna Halprin na Califórnia. É lá que conhece outros bailarinos que viriam a formar a geração Judson e onde se familiariza com o uso da improvisação, as experiências de criação colectiva, a apresentação de performances nas ruas, em parques e noutros espaços até então considerados não convencionais para fazer dança (nada é por acaso: Halprin estava com os sit-ins e todas as marchas do Movimento dos Direitos Civis na cabeça).

De regresso a Nova Iorque, começa a aproximar-se do circuito das artes visuais. Conhece gente como Robert Morris, Andy Warhol e Robert Rauschenberg, e vê exposições no loft de Yoko Ono, onde assiste também a concertos de músicos experimentais como Terry Riley e La Monte Young. As coisas começam a crescer. Em Julho de 1962, na sequência de trabalhos experimentais criados em aulas de improvisação e coreografia orientadas pelo músico Robert Dunn, por sugestão de John Cage, Rainer e os colegas dão início ao Judson Dance Theater. As actividades do grupo decorrem oficialmente até 1964, mas as colaborações entre muitos dos seus membros continuam nos anos seguintes, a par das suas carreiras individuais.

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Hiroyuki Ito/Getty Images

Juntos ou separados, os representantes da geração Judson questionam as definições hegemónicas do que é ou não é dança. Entram em confronto directo com a artificialidade expressionista, o simbolismo e as mitologias da dança moderna de Martha Graham, dando lugar a um corpo que é ele próprio. Um corpo funcional, implicado nas acções e nos gestos do quotidiano: falar, caminhar, comer, manusear objectos banais. Contudo, apesar dos princípios partilhados, “a estética da Judson nunca foi monolítica”, lembra a historiadora de dança Sally Banes no livro Democracy’s Body: Judson Dance Theater. No caso de Yvonne Rainer, além da influência dos métodos de composição de John Cage baseados no acaso e na indeterminação, é evidente uma forte ligação ao Dadaísmo e, sobretudo, ao Minimalismo. Não só pelas peças que criou (ou que dançou) com Morris e Rauschenberg, entre elas Parts of Some Sextets (1965), mas também pelas conexões teóricas que estabeleceu entre as novas tendências na dança americana e as esculturas minimalistas. É a partir dessa reflexão que Rainer escreveu, em 1965, um texto celebrizado como o “Manifesto do Não” (“Não ao espectáculo, não ao virtuosismo, não à transformação e magia e faz de conta…”) e que, um ano mais tarde, cria a performance Trio A, parte de The Mind Is a Muscle. Ambos ficam para a história como emblemas da dança pós-moderna e do próprio trabalho de Rainer – o que não sendo injusto, é bastante redutor.

Uma provocateur

A caminho dos anos 70, altura em que co-criou o colectivo de dança Grand Union, a inquietação política de Yvonne Rainer crescia a passos largos e começava a contaminar de forma mais imbricada a sua produção artística. Em protesto contra a Guerra do Vietname e o então presidente dos EUA, Richard Nixon, faz WAR, uma peça onde empregou várias metáforas de guerra e tácticas militares. No mesmo período, em solidariedade com os cidadãos que foram presos por terem queimado a bandeira americana, cria uma performance de rua para quarenta pessoas em Manhattan, chamada M-Walk e inspirada numa sequência do filme Metropolis, de Fritz Lang. A isso acrescenta uma remontagem de Trio A na Judson Church, dançada sem roupa, apenas com bandeiras dos EUA atadas ao pescoço – um protesto com várias acções em que participaram também o pintor Jasper Johns e a escritora feminista Kate Millett.

Contudo, a dança deixa mesmo de ser suficiente para canalizar a subjectividade política de Yvonne Rainer, que vai ganhando cada vez mais consciência do meio privilegiado e demasiado branco em que se insere. Em 1972 lança-se numa carreira como cineasta, à qual se dedica exclusivamente entre 1975 e 1996, realizando uma série de valiosos filmes sobre temáticas feministas, questões pós-coloniais e a identidade lésbica (entre eles Privilege, de 1990, que foi premiado no festival Sundance). “Por causa da ideia abstracta da coreografia e da minha dança, o filme oferecia-me formas mais concretas para construir algo à volta das questões políticas e sociais”, explica a artista. O movimento feminista serviu de impulso. “O feminismo estava a abrir toda uma nova paisagem de resistência, diálogo e discurso, e isso deu-me permissão para fazer uma série de investigações e também extrapolações ficcionais a partir da minha vida.”

Em 2000, Rainer regressa à dança. É convidada por Mikhail Baryshnikov, super-estrela do ballet, para coreografar o espectáculo After Many a Summer Dies the Swan. Desde então que se tem focado nas suas criações, ao seu ritmo. “Agora já não é tanto sobre a minha presença física, mas sobre a minha presença intelectual”, diz. Como resume na sua biografia, “o corpo entra declínio, a mente continua a expelir linguagem”. Olhando para trás, Yvonne Rainer sabe que esteve no lugar certo, no momento certo. E que “foi muito privilegiada”. “Não invejo os jovens bailarinos de hoje. Nos anos 60 podíamos alugar um estúdio por dois dólares à hora e havia bolsas de apoio à criação muito maiores. Pelo meu apartamento em Nova Iorque pagava uma renda mensal de 40 dólares, o que hoje seria totalmente impensável”, exemplifica. “Além disso, tínhamos muitas paredes estéticas por partir e atravessar. Isso não é tão claro actualmente.”

Olhando para trás, Yvonne Rainer só tem uma reclamação a fazer. “Acho que quando morrer vou ser lembrada por duas coisas: o Trio A e o manifesto. É o meu destino”, graceja. Contraproposta? “Nunca me fizeram essa pergunta… Talvez gostasse de ser recordada por ser uma provocateur. E por ter contribuído para algo, que é mais do que podemos pedir."