Crítica

Uma antologia com o título doutra

José Mário Silva escolheu cem poetas dos últimos cem anos, propondo uma lista de nomes discutível, como o são todas, mas que consegue ser diversificada sem se tornar complacente. Já na selecção dos poemas, algumas escolhas felizes não parecem compensar as mais desconcertantes.

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José Mário Silva: uma belíssima lista de poetas, com escolhas de poemas quase sempre inesperadas, mas também não raras vezes falhadas e, em alguns casos, desconcertantes Inês Bernardo

Nas Breves Notas em Jeito de Introdução que redigiu para a antologia Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos, José Mário Silva avisa que o adjectivo “melhores” é “problemático”, já que em poesia, argumenta, todas as escolhas são discutíveis. Decerto que o são, mas isso não deveria desobrigar esta antologia de procurar corresponder ao que o seu próprio título promete.

Ora, o simples facto de estes cem poemas terem sido escritos por cem autores diferentes — na verdade são apenas 97, já que foram autonomizados três heterónimos pessoanos — sugere que esta não pretende ser uma selecção dos melhores poemas, mas antes dos melhores poetas do período em causa. Doutro modo teríamos de acreditar que o antólogo não encontrou, por exemplo, em Álvaro de Campos um segundo poema (talvez a Ode Marítima?) que pudesse não ser pior do que aquele que escolheu de, digamos, Matilde Campilho.

Reconheça-se que o prefácio procura justificar esta opção. Argumenta José Mário Silva que tentar “uma correspondência entre o número de textos escolhidos de cada autor e a sua importância relativa na história da literatura portuguesa” implicaria “encurtar a variedade das vozes”, e que se correria ainda o risco de o leitor assumir que um determinado poeta é mais significativo do que outro só por estar representado com mais poemas. Foi “para evitar tais equívocos”, diz, que optou pelo “critério radical” de escolher apenas um poema por autor. A solução é tão legítima como outra qualquer, e nem se vê bem o que tenha de radical. O problema é que, ao evitar equívocos que talvez não o fossem, criou um evidente equívoco entre o que esta antologia diz ser e aquilo que efectivamente é.

De resto, o facto de os poemas se organizarem em torno de quatro núcleos temáticos — Retratos, Relatos, Desacatos e Hiatos —, sendo um dos aspectos mais originais do livro, é também um tanto contraditório com o puro objectivo de apresentar os melhores textos, que só por acaso permitiriam uma tal distribuição.

Mas já se gastaram talvez palavras a mais a insistir na inadequação do título e é tempo de olhar para as escolhas concretas, que são, afinal, o que mais importa numa antologia. E quanto a elas, este leitor confessa ter terminado a leitura do volume com sentimentos contraditórios, que talvez possam resumir-se assim: é uma belíssima lista de poetas, com escolhas de poemas quase sempre inesperadas, mas também não raras vezes falhadas e, em alguns casos, francamente desconcertantes.

Começando pelos nomes representados, é claro que dificilmente se encontrariam dois leitores de poesia que chegassem a uma lista rigorosamente idêntica, mas a escolha de José Mário Silva tem vários méritos: é suficientemente ecléctica para acolher de modo equilibrado poetas de várias gerações e de registos muito diversos, mas é também rigorosa o bastante para deixar de fora alguns autores cronicamente sobreavaliados. E a sua é talvez a primeira antologia com esta ambição que, a par dos poetas mais interessantes revelados no final dos anos 90 e nos primeiros anos do século XXI, como Rui Pires Cabral, José Miguel Silva, Daniel Faria, Manuel de Freitas, Daniel Jonas, Rui Lage ou Vasco Gato, propõe já, com o risco (mas também a coragem) inerente a todas as apostas precoces, uma escolha dos nomes que acredita devermos reter entre aqueles que se estrearam em livro nos últimos dez anos, como Margarida Vale de Gato, Inês Dias, Miguel Cardoso, Inês Fonseca Santos, Miguel-Manso, Raquel Nobre Guerra, Matilde Campilho ou Andreia C. Faria.

Haverá dois ou três nomes que se dispensariam entre estes (mais ou menos) novíssimos, mas em contrapartida não ocorrem ausências demasiado óbvias. A excepção talvez seja Diogo Vaz Pinto, cujo fortíssimo livro de estreia, Nervo (2011), bastaria para justificar a inclusão.

Mas a maior concentração de ausências controversas está justamente no outro extremo cronológico, e a mais estranha de todas ficou quase de certeza a dever-se a uma imprecisa explanação dos critérios da antologia. Segundo o prefácio, “a baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917”. E como José Mário Silva não acrescenta quaisquer outras restrições, não se percebe a exclusão de Mário de Sá-Carneiro, cuja melhor poesia foi publicada em livro vinte anos após essa data, ainda que o poeta tivesse morrido em 1916.

O autor desta recensão também admitiria prescindir de Judith Teixeira em favor de António Botto, e ter-se-ia certamente esforçado por arranjar lugar para Irene Lisboa ou José Régio. E se as recusas de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge em integrar antologias são tão recorrentes que talvez se comece a admitir que os antólogos se abstenham de as justificar, o caso de António Franco Alexandre é bastante menos óbvio. Se não é por vontade própria que não figura neste volume, a sua ausência é injustificável.

Mas as grandes perplexidades desta antologia prendem-se menos com os poetas do que com os poemas. Sem fazer disso uma regra absoluta, José Mário Silva parece ter tido o cuidado de escolher textos pouco antologiados. Mas as vezes em que nos faz descobrir um bom poema que nos poderia ter passado despercebido – Ana Hatherly, Alberto Pimenta ou Rui Nunes constituem bons exemplos dessas escolhas mais felizes — são infelizmente menos frequentes do que os casos em que não parece ter conseguido fazer justiça aos poetas seleccionados. As escolhas de Eugénio de Andrade ou Armando Silva Carvalho são quase incompreensíveis, e muitas outras também não espelham o melhor dos poetas em causa, como as de Ruy Cinatti, Sophia, António Osório, Ruy Belo, Gastão Cruz, Al Berto ou Luís Miguel Nava, para referir apenas algumas.

Outras fragilidades deste volume são o grafismo e a revisão. A capa não faria má figura num prospecto da secção de frutas e legumes do Continente, a paginação não é especialmente cuidada e escaparam algumas gralhas. Cinatti tanto é Rui como Ruy, a última estrofe do poema de Vasco Graça Moura ficou colada à anterior, o poema de Miguel — Manso é atribuído na bibliografia a um livro de Manuel de Castro, e um verso do célebre poema Um Adeus Português, de Alexandre O’Neill, recebeu um bizarro acrescento: onde deveria ler-se “sem a moeda falsa do bem e do mal”, lê-se “sem a moeda falsa do bem e do mal-entendido”. 

Resumindo: um resultado um bocadinho decepcionante para uma ementa que se anunciava bastante prometedora.

Crítica corrigida no dia 19 para alterar o título do poema de Alexandre O'Neill, que é Um Adeus Português, e não Um Amor Português, como se escreveu por lapso (apetecia dizer por mal-entendido). L.M.Q.