Crítica

Quartetos iluminados

O trabalho que o quarteto Chiaroscuro partilha neste registo discográfico, e que parte de uma edição urtext da Henle, é um ousado arejamento do que Haydn oferece.

Um ousado arejamento do que Haydn oferece
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Um ousado arejamento do que Haydn oferece

Se o reduzido número de cinco títulos na discografia do Quarteto Chiaroscuro — formado em 2005 por músicos de quatro nacionalidades distintas– não constitui um baixo indicador de popularidade, muito menos revela sobre a qualidade deste impressionante agrupamento.

O primeiro aspecto a sobressair do trabalho do Chiaroscuro, até perante ouvidos não muito atentos, é a peculiaridade do som, transparente e imaculado, despido dos mais discretos excessos. As cordas de tripa e o despojamento não chegam, no entanto, para definir a assinatura do vigoroso quarteto. Há nas suas interpretações uma energia, a princípio quase desconcertante, que acaba por se revelar galvanizadora. O próprio nome do quarteto quase traduz um princípio de orientação: a hermenêutica suportada por pleno domínio da técnica, a colocação das ideias essenciais em primeiro plano, uma nova perspectiva dos objectos que contrastam luminosamente com o fundo que lhes dá vida.

O quarto álbum discográfico do agrupamento, lançado em 2016 pela BIS, dava já conta de uma relação de profundidade estabelecida com Joseph Haydn (1732-1809), focado nos primeiros três quartetos Op. 20. Este ano, a tarefa foi concluída com o registo, para a mesma etiqueta, dos últimos dos seis quartetos Sol op. 20 (4 a 6).

Terceiro conjunto de quartetos escritos por Haydn em Eszterháza, os quartetos op. 20 foram compostos em 1722 e apenas adquiriram o título Sol graças à imagem de capa de uma edição dos mesmos por Hummel, já em 1779. Mais sofisticados do que os Opus 9 e Opus 17, os quartetos Opus 20 reflectem a crescente afirmação de um espírito individualista e são marcados por um sentimento um tanto sombrio que se abatia sobre Haydn (e a generalidade dos músicos que saíam de Viena para Eszterháza por largos meses). Exemplo de inovação destes quartetos são as dissonâncias métricas, a afirmação do violoncelo como tenor solista e a definição do quarto andamento (final) como o culminar de um ciclo — três deles (os números 2, 5 e 6) como fugas perfeitas.

O trabalho que o quarteto Chiaroscuro partilha neste registo discográfico, e que parte de uma edição urtext da Henle, é um ousado arejamento do que Haydn oferece. O primeiro impacto da audição de um andamento como o Menuet alla Zingarese (III do Quarteto op. 20 nº 4, caracterizado pela acentuação de tempos fracos) é de verdadeira surpresa. Uma estranha epifania ocorre numa segunda audição, ao escutar as notas prolongadas ao limite em arcadas intencionalmente cruas, sublinhadas pela planura do som, estabelecendo-se um contraste mais pronunciado do que na maioria das interpretações com a leveza da secção central. As fugas, límpidas e assertivas, são duas pérolas em que a estrutura não se impõe rígida, sendo pretexto para mais um dinâmico equilíbrio entre impulsos de luz e escuridão. Mas a mais bela e melancólica expressão do mundo sensível chega-nos do quarteto central, em tonalidade menor (fá menor). Nele, ouvimos Alina Ibragimova raiar o virtuosismo, quase improvisando livremente com a leveza emprestada dos concertos barrocos, sobre a base segura que o resto dos elementos mantém, no terceiro andamento. Óptima oportunidade para testemunhar a singularidade do quarteto de que é primeiro violino (não com Haydn, mas com Bach, Mendelssohn e Beethoven) é a passagem do Chiaroscuro pelo Festival dos Quartetos de Cordas, no próximo mês, na Fundação Calouste Gulbenkian (29 de Janeiro, às 21h00).