Entrevista

Antonio Ledezma: “O que reforça Maduro é a dispersão da luta da oposição”

Antonio Ledezma recebeu em nome da oposição venezuelana o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento atribuído pelo Parlamento Europeu. Pede aos seus companheiros que ponham de lado as lutas pessoais para reorganizar a resistência ao regime.

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Antonio Ledezma IAN LANGSDON/EPA

Quando chegou ao aeroporto de Madrid, trazia a bandeira nacional sobre o ombro esquerdo. Acabava a fuga clandestina da Venezuela ao fim de mais de mil dias de prisão, recomeçava o caminho à procura da “indispensável” unidade para uma desunida oposição ao Presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Antonio Ledezma, ex-presidente da área metropolitana de Caracas, um dos principais rostos da resistência, está exilado em Espanha desde Novembro. “Os presos políticos não fogem, libertam-se a si mesmos”, dizia depois de aterrar em solo espanhol, vindo da Colômbia. Com Julio Borges, presidente da Assembleia Nacional, cujos poderes foram esvaziados pela nova Assembleia Constituinte, recebeu nesta quarta-feira do Parlamento Europeu o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento de 2017. Numa curta conversa com o PÚBLICO em Estrasburgo, descreve um país sequestrado, ensombrado pela violência contra as liberdades.

Ledezma, de 62 anos, foi preso em Fevereiro de 2015, passou pela cadeia militar de Ramo Verde, foi mais tarde posto em prisão domiciliária, a aguardar uma sentença sob acusação de crimes contra a paz, a segurança e a Constituição. A 1 de Agosto deste ano foi de novo levado para a cadeia, voltando à prisão domiciliária dias depois. Preparou a fuga. Chegou à Colômbia pela ponte Simón Bolívar, passando por 29 postos de controlo. Voou para Espanha. Não conta grandes pormenores da fuga, ainda passou pouco tempo. Tem esperança.

A oposição está profundamente dividida. Perante a turbulência interna da coligação Mesa da Unidade Democrática (MUD), como é que a oposição se organizará para chegar às presidenciais?
Primeiro, temos de ter uma ambição partilhada. O facto de persistirem pontos de vista individuais prejudica a unidade – e a unidade é indispensável. Para se poder lutar contra um regime ditatorial é fundamental que todos os sectores, por mais diversos que sejam, tenham um ponto de encontro, um ponto de partida. A luta pela liberdade e pela democracia é razão suficiente para que acima dos nossos projectos pessoais esteja o sagrado interesse do país.

Mas como é que se garante essa unidade?
Falando, assumindo as regras do jogo que nos permitem conviver na diversidade, tendo espírito de sacrifício, deixando de lado os interesses individuais – o grande erro que se cometeu [na oposição].

Neste momento, a ausência quase absoluta das forças críticas a Maduro nas duas últimas eleições
… Foi uma maneira de protestar contra a fraude. O que houve no domingo [eleições municipais] foi um acto nulo. Primeiro, porque foi convocado por uma Assembleia Nacional Constituinte ilegítima, por sua vez consequência de uma fraude em que se trocaram pelo menos um milhão de votos; em segundo lugar, porque a eleição do último domingo foi convocada por um poder eleitoral fraudulento, ensombrada por [um sistema determinado a] debelar a vontade dos cidadãos venezuelanos. Em terceiro lugar, o povo está sitiado, a Venezuela está sequestrada militarmente, as pessoas estão sequestradas por esta ditadura. E ao mesmo tempo em que o Governo usa a força militar para conter o povo mobiliza os grupos colectivos para intimidar quem dele discorda.

A abstenção é uma posição de firmeza. Não pode acabar por reforçar Maduro?
Não, o que reforça o Governo é a dispersão das nossas lutas. É preciso mobilizar o povo depois das manifestações cívicas em Caracas em Abril, Maio, Junho e Julho. O que reforça o Governo foi termos caído na armadilha de um falso diálogo, que lhe permitiu ganhar tempo e centrar a intriga na oposição.

Neste momento é possível uma transição pacífica para a democracia através do diálogo?
Seria lógico haver uma transição em que se pudesse convocar um processo eleitoral sem armadilhas, sem sombras, organizado por um poder eleitoral confiável e não por comissários políticos do regime. Uma eleição com a presença de observadores internacionais respeitáveis, que dê garantias de que a vontade dos eleitores é respeitada. Vim para o exílio e estou a colaborar com quem está a lutar nesta trincheira, a ajudar a organizarmo-nos melhor, para fazermos a ponte com quem está no território nacional para tirar a Venezuela desta tirania.

As posições das Nações Unidas, da Comissão Europeia, dos Estados Unidos não travaram Maduro. O Prémio Sakharov dá um novo alento à oposição neste momento?
É um reconhecimento, um testemunho da luta digna em nome do povo da Venezuela. O passo seguinte é lutar sem tréguas, pedir à comunidade europeia que aplique sanções, como fizeram os EUA e o Canadá, que atinjam as das pessoas ligadas ao narcotráfico, à corrupção, ao terrorismo e à violação dos direitos humanos. Um relatório da ONU, como outro que a Organização dos Estados Americanos acaba de divulgar, mostra como se cometeram crimes contra os direitos humanos na Venezuela.

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Manifestação em Caracas em Abril Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Depois das manifestações deste ano passámos para uma segunda fase de violência?
Há hoje na Venezuela uma violência de toda a ordem. Violência contra a liberdade de expressão, com o encerramento de meios de comunicação e a perseguição dos comunicadores. Violência contra a liberdade e o pensamento – eu fui preso simplesmente por emitir uma opinião. O acto de opinar na Venezuela é um delito. Há violência social quando há cidadãos que não conseguem comprar os alimentos porque ganham um salário miserável ou simplesmente porque estão desempregados ou não têm dinheiro. Há violência nas prisões. Há violência nas ruas. A Venezuela converteu-se no país mais inseguro do mundo. É o país com a mais alta inflação, isso é violência. Veja-se a evolução da moeda: hoje um dólar equivale a 100 milhões de bolívares, algo verdadeiramente absurdo e inacreditável.

Há uma crise sistémica, porque esta é uma crise institucional, em que as instituições estão sequestradas, e é uma crise social porque 90% das famílias vivem em condições de pobreza; é uma crise económica porque temos um país na bancarrota, com uma hiperinflação e uma recessão económica; e é uma crise moral porque [as pessoas] do núcleo governamental estão a ser investigadas por narcotráfico ou corrupção.

Falemos da sua experiência pessoal. A fuga clandestina para a Colômbia foi uma decisão tomada sozinho. Como é que se avança para uma decisão destas?
Foi uma decisão tomada perante a minha própria consciência. Dizia para mim próprio: “É um acto de responsabilidade para com a Venezuela. Enfrentei a injustiça. Estive privado da liberdade mais de mil dias. Aqui não há justiça. Vou sair da Venezuela e passar ao exílio”. E por isso decidi fugir e correr todos os riscos, porque isso implicava sair de um edifício onde pelo menos 20 homens me vigiavam, ou [ser identificado] na estrada em qualquer ponto de controlo que tivesse de atravessar.

Passou por dezenas de controlos militares. Pensava como seria o final?
Pelo menos 29 controlos, entre polícia e guarda nacional. O fim teria de ser como um filme com final feliz: alegria, entusiasmo, esperança. A fé com que o povo da Venezuela tem lutado faz-me acreditar que a Venezuela possa sair deste capítulo triste.

Vai continuar em Espanha.
Por agora sim, mas percorrendo o mundo. 

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Faltam alimentos, faltam medicamentos: aqui, à venda numa feira, na rua Carlos Eduardo Ramirez/REUTERS