O ritual de Lia Rodrigues para manter o céu lá em cima

De quarta a sexta-feira, a última criação da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues chega à Culturgest, em Lisboa. Para que o Céu Não Caia é uma peça para lembrar a responsabilidade individual no mundo que temos.

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Para que o Céu Não Caia de Lia Rodrigues Sammi Landweer
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Para que o Céu Não Caia de Lia Rodrigues Sammi Landweer

Lia Rodrigues gosta do verbo “outrar”. Não é um verbo que se encontre em qualquer dicionário. Mas é frequente no léxico da coreógrafa brasileira e conhecido dos bailarinos que a acompanham no Centro de Artes da Maré, a favela do Rio de Janeiro onde sediou a sua companhia em 2009. Outrar, não custa a adivinhar, significa qualquer coisa como transformar-se no outro. Alguém fazer o esforço para habitar um corpo e uma condição que não lhe pertence. Tentar sair de si.

Esse conceito tem acompanhado as suas mais importantes criações, Pororoca, Piracema e Pindorama, todas criadas já na Maré, e volta a surgir na sua última paragem na letra P: Para que o Céu Não Caia, peça que teve estreia nacional no Teatro do Campo Alegre, Porto, no final da semana passada, e se apresenta de quarta a sexta-feira na Culturgest, em Lisboa.

Para que o Céu Não Caia teve início, precisamente, num trabalho desenvolvido pelos bailarinos com os alunos da escola de dança da Maré e que se baseou numa experiência que Lia lhes colocou nas mãos. “Dividimos todos em grupos e eles foram andando pela favela e perguntando”, conta a coreógrafa ao PÚBLICO. “Chamei a isso questionário afectivo-cultural e eles iam fazendo vários tipos de perguntas sobre a vida das pessoas – se iam no Centro de Artes onde a gente trabalha, aquilo de que mais gostavam, o que era a dança para eles, perguntas sobre tudo. Foram mais de 200 perguntas e mais de 200 entrevistas. Depois organizaram uma resposta estética para esse questionário.”

Aconteceu que, pouco depois, os olhos de Lia Rodrigues passeassem pelas páginas do livro A Queda do Céu, do xamã yanomami Davi Kopenawa, primeira obra a representar a voz da tribo que habita o maior território indígena coberto por floresta em todo o mundo – numa região que abarca tanto o Norte do Brasil quanto o Sul da Venezuela. Esse livro, que regista as conversas de Kopenawa com o etnólogo francês Bruce Albert, foi um dos principais “disparadores” para a nova criação. O manifesto xamânico contra a destruição da floresta da Amazónia “fala a partir de um ponto tão diferente daquele que é o do homem branco”, justifica a coreógrafa, “que basta ser sensível ao que ele diz para que mude a percepção que temos sobre nós e sobre o mundo, até nas questões climáticas e de destruição da natureza”.

A essa leitura juntar-se-ia ao caldeirão da coreografia uma outra, também fundamental: Há Mundo por Vir?, livro de ensaio “sobre os medos e os fins” em que Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro dissertam sobre as narrativas que apontam para o fim do mundo, coligindo teorias populares e científicas. “Estávamos todos mergulhados nesse universo”, conta Lia acerca do período em que as leituras e as ideias circulavam acelerada e livremente por toda a equipa criativa.

Seguiram-se nove meses de trabalho, com muitas experiências e algumas reciclagens de obras anteriores – como o uso de café e farinha. De facto, há três momentos em Para que o Céu Não Caia em que os bailarinos, alinhados, sopram para as mãos cheias de café, farinha ou curcuma, lançando os pós sobre o rosto e o corpo, segundo esse tal movimento de “outrar”. Parecem mesmo colocar uma máscara, preparar-se para um ritual, para só depois avançarem sobre o público. Não de uma forma violenta ou impositiva, mas num contacto criador de uma tal intimidade, olhos nos olhos, que não poucas vezes “os bailarinos ficam muito emocionados, têm experiências muito fortes fazendo isso”.

Foi a partir de vários rituais, investigados e recolhidos num “país riquíssimo em danças populares e de uma diversidade enorme”, que os bailarinos acabaram por gerar o seu próprio ritual. “Cada pessoa trouxe um pedaço da dança e aquela coreografia foi criada assim”, descreve Lia Rodrigues, como se o processo fosse o mais natural e fácil do mundo. “A gente mastigou bastante e depois cuspiu outra coisa.” Tão simples quanto isso.

E é através da dança, então, de uma dança sempre virada no sentido do outro, e preocupada em assumir uma responsabilidade individual de cada um “no seu quotidiano e no que está acontecendo no mundo”, que se podem reunir os vários contributos para manter o céu lá em cima. Para que o Céu Não Caia apela a essa acção descomplicada – de com uma palavra ou um gesto ajudar a que o céu não desabe em cima do outro, esperando que alguém o faça também por nós.