Crítica

Antes do funeral

Depois das adolescências de Boyhood e Todos Querem o Mesmo, Richard Linklater vira-se para os adultos, num filme-gémeo e complementar que é também dos seus melhores filmes

A referência é, ainda e sempre, o Vietname, “ferida aberta” na sociedade americana
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A referência é, ainda e sempre, o Vietname, “ferida aberta” na sociedade americana

Há uma referência curiosa nesta nova obra do polifacetado Richard Linklater, o autor da trilogia Antes do Anoitecer/Antes do Amanhecer/Antes da Meia-Noite (1995/2004/2013) e do maravilhoso Boyhood – Momentos de uma Vida (2014), texano que tem cumprido um dos percursos mais idiossincráticos e interessantes do cinema americano neo-independente dos últimos anos. Derradeira Viagem assume-se como uma espécie de “sequela espiritual” de um dos grandes títulos da “nova Hollywood” dos anos 1970, O Último Dever de Hal Ashby (1973). Ambos se baseiam em romances do mesmo autor, o escritor e argumentista Darryl Ponicsan, ambos mergulham a fundo na dimensão pessoal da instituição militar, ambos evocam a dimensão do “pauzinho na engrenagem” que não engole tudo o que lhe contam.

A referência é, ainda e sempre, o Vietname, “ferida aberta” na sociedade americana, mas Derradeira Viagem – no papel uma sequela directa de O Último Dever, na tela nunca o assumindo – faz a ponte com as intermináveis intervenções americanas no Médio Oriente, traçando um contínuo dramático entre os anos 1970 e os nossos dias. O novo filme passa-se em 2003 e coloca três veteranos que foram fuzileiros no Vietname frente a frente com as cerimónias fúnebres do filho de um deles, morto em combate no Iraque. Mas podia perfeitamente estar a falar de hoje, porque não é tanto um filme sobre a tropa (embora, sim, isso esteja lá, sempre) como sobre o pequeno quotidiano dos americano, sobre o constante e peculiar vai-vem entre a inocência e a experiência, o optimismo e o desencanto, o modo como a América acredita para logo a seguir questionar essa crença.

Derradeira Viagem pode parecer uma escolha estranha para um Linklater que raramente vemos tão sério, tão adulto. Mas se quisermos ir buscar a referência ao poeta William Blake que os U2 fizeram sua nos seus últimos discos, Derradeira Viagem seria as Canções de Experiência por contraste com as Canções de Inocência de Boyhood, espécie de filmes complementares separados por um outro filme descomplexado, Todos Querem o Mesmo (2016) – aqueles olhando para o futuro, este olhando para o passado e perguntando o que aconteceu entre um e outro para tudo mudar. De caminho, recorda-nos como Linklater é um grande director de actores, arrancando interpretações de antologia a Steve Carell, Laurence Fishburne e, sobretudo, ao furacão de energia que é Bryan Cranston, todos eles reflexos (mesmo que indecisos) de uma América que procura perceber onde ficou o norte que não percebeu que perdeu. Richard Linklater não podia ter feito este filme antes, ainda bem que o fez agora.