O que é raro e o que é banal no caso Raríssimas

Disse Marcelo no domingo que não devia ser “necessário haver denúncias para o Estado saber o que se passa nestas instituições”. Pois não devia. Mas a pergunta é outra: será que o Estado quis saber? Tudo indica que não.

A reportagem de Ana Leal sobre a presidente da associação Raríssimas deixou o país de queixo caído, e por boas razões. Nada é mais perturbante do que ver alguém a desbaratar dinheiro que é posto ao serviço de uma boa causa. Há um excesso absolutamente caricatural nos abusos de Paula Brito e Costa e na forma como punha e dispunha de pessoas e bens na associação que fundou: usou o cartão de crédito da Raríssimas em vestidos e gambas; exigia o pagamento de quilómetros para se deslocar de casa para o trabalho num carro que nem sequer era seu; empregou o marido e o filho; assumia publicamente que o filho seria “o herdeiro” da casa; impunha especiais deferências aos seus funcionários (a história de o pessoal ter de se levantar das cadeiras sempre que ela entrava ou saía do gabinete é digna de telenovela venezuelana). Tudo isto compõe um retrato catastrófico de alguém que se convenceu de tal forma do mérito do seu trabalho (e esse mérito é inegável), que adquiriu tiques ditatoriais. O poder absoluto corrompe sempre, seja na Assembleia da República, seja na Casa dos Marcos.  

A reportagem da TVI está tão bem fundamentada, não só em documentos mas também em gente que dá a cara (honra lhes seja prestada por não se terem limitado à confortável denúncia anónima), que o único caminho para Paula Brito e Costa é mesmo a porta da rua. Convinha, contudo, que o caso não ficasse por aí. Porque se há coisas raras na história da Raríssimas, há outras que são tristemente banais. Reparem como a senhora em causa percebeu depressa como Portugal funciona. Primeira regra: ter o poder político ao seu lado. A Raríssimas conseguiu o alto patrocínio de Maria Cavaco Silva e a partir daí foi construindo uma rede de amizades políticas: deputados, futuros secretários de Estado, talvez um dia ministros. Note-se que muitas dessas ajudas podem ter sido desinteressadas, e até generosas. O Estado começou por cumprir o seu papel – apoiar alguém com uma história pessoal trágica que desejava e tinha capacidade para trabalhar em prol da sociedade (Marco, um dos filhos de Paula Brito e Costa, morreu de uma doença rara) –, mas as coisas rapidamente descarrilaram, e as necessidades de financiamento estimularam as tentações e convidaram ao disparate.

O actual secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, recebeu uma avença de três mil euros mensais a partir de 2013 (num total de 63 mil euros) para “colaboração técnica na área de organização e serviços de saúde” (sem esclarecer que trabalho em concreto foi esse); o actual deputado do PSD, Ricardo Baptista Leite, que faz parte da Comissão de Saúde, já estava na calha para ser o próximo vice-presidente; a deputada do PS Sónia Fertuzinhos teve os custos de uma viagem de trabalho à Suécia adiantados pela Raríssimas (segundo a deputada, a associação terá depois sido ressarcida); e como Portugal é muito pequenino, Fertuzinhos é mulher de Vieira da Silva, ministro da Segurança Social, antigo vice-presidente da assembleia geral das Raríssimas e absoluto desconhecedor (diz ele) de tudo o que se passava na instituição. Note-se: não há indícios de que alguma destas pessoas tenha praticado maldades. Limitaram-se a ser políticos portugueses, no que isso significa de inércia e amiguismo. Disse Marcelo no domingo que não devia ser “necessário haver denúncias para o Estado saber o que se passa nestas instituições”. Pois não devia. Mas a pergunta é outra: será que o Estado quis saber? Tudo indica que não.