Roy Moore é um teste à imagem do Alabama

O candidato republicano na eleição desta terça-feira para preencher um lugar no Senado foi acusado de assédio sexual por sete mulheres. Tem o apoio explícito de Donald Trump.

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Roy Moore num comício no domingo à noite JONATHAN BACHMAN/Reuters
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Música no comício de domingo JONATHAN BACHMAN/Reuters
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Bannon foi dar o seu apoioa Moore JONATHAN BACHMAN/Reuters

Para muitos eleitores do Alabama, pouco habituados às atenções que merecem umas eleições disputadas, a luta azeda entre o republicano Roy Moore e o democrata Doug Jones tornou-se mais pessoal do que o mero preenchimento de um lugar que ficou vago no Senado. É um referendo sobre a identidade do estado.

Os apoiantes de Jones dizem com preocupação que uma vitória, esta terça-feira, do incendiário Moore pode comprometer os esforços do estado para escapar à sua dolorosa história e redefinir-se como um lugar progressista, sede de empresas da Fortune 500 e com uma força de trabalho altamente qualificada. E sentem-se incomodados por uma vitória de Moore poder ser um sinal desencorajador de que o Alabama permanece preso ao seu passado.

“Viajamos pelo país e dizemos ‘Alabama’ e passa logo qualquer coisa pela cabeça das pessoas”, diz o actor retirado Jonathan Fuller, um democrata de 61 anos, que vive nos subúrbios de Birmingham. “Não quero passar a vida a desculpar-me por ser daqui só porque há redutos de teimosia”.

Porém, os apoiantes de Moore - entre os quais o Presidente Donald Trump -, olham para o candidato como uma forma de canalizarem a sua rejeição pelos media nacionais e pela elite política que, acreditam, é injusta quando caricaturiza o Alabama como um charco de água estagnada. E encolhem os ombros à ideia de que as acusações de conduta sexual imprópria por parte de Moore — que consideram ser fabricadas por gente de fora — devem ser levadas a sério. Os apoiantes não acreditam ou desvalorizam as acusações de sete mulheres que acusaram o candidato de ter abusado sexualmente delas quando elas eram adolescentes eele tinha pouco mais de 30 anos e elas eram adolescentes. 

“Não acredito numa palavra do que dizem sobre ele”, diz J.W. Poore, um construtor republicano reformado de 77 anos que está junto da Lowe’s Home Improvement em Birmingham. “Os democratas têm estado contra nós desde o princípio. Não aceitam o Presidente, não aceitam ninguém”. Poor diz que as pessoas de fora do Alabama “não têm o direito de julgar”.

Contraste

O contraste entre os dois candidatos é muito nítido: Moore, de 70 anos, lança avisos apocalípticos contra os muçulmanos e é contra os direitos dos homossexuais; Jones, um advogado discreto de 63 anos, é conhecido por há uns anos ter dirigido a última fase da acusação contra os membros do Ku Klux Klan que planearam o ataque à bomba, em 1963, contra a igreja baptista da rua 16 de Birmingham.

Este contraste deu corpo à ideia de que os resultados desta eleição podem dizer muito sobre o Alabama ao resto dos EUA — e ao próprio Alabama.

Um grupo de eleitores que será fundamental esta terça-feira será o dos que se sentem apanhados no fogo cruzado destas duas visões, em especial os que costumam votar no Partido Republicano e se sentem divididos entre os valores tradicionais que perfilham e o desejo de virar a página sobre o passado mais feio do Alabama.

Nas últimas décadas, o Alabama começou a transformar-se. De uma economia agrícola, baseada na criação de aves e na indústria madeireira, está a tornar-se um centro tecnológico e industrial ancorado nos apoios federais a projectos de investigação e desenvolvimento.

Muitas empresas do sector aero-espacial estão nos arredores de Huntsville. A Mercedes-Benz deslocou a sua base logística para Bibb, e a General Electrics Aviação anunciou um investimento de 200 milhões de dólares para a construção de uma fábrica de compósitos de cerâmica. Nos últimos anos, as universidades investiram grandes somas em programas de ciência e engenharias, para alimentar uma indústria emergente de biotecnologia. 

Modernos e antigos

“Temos muitas coisas boas, muitas pessoas morreram a lutar pela igualdade de direitos. E temos muitas que continuam presas nos anos 1930, e isso não vai mudar”, comentou Phillip Hutchins, um democrata de 67 anos, em Titusville, um bairro maioritariamente negro de Birmingham.

Os republicanos brancos do Alabama – que se vêem como modernos e põem a ênfase na educação, no comércio e na tradição – têm-se sentido pouco à vontade com Moore. Têm recuado, também, perante a enxurrada de controvérsias que tornaram estas eleições o culminar de várias situações de mal estar e não um drama repentino.

A competição com outros estados pela captação de investimento é grande, e os empresários do Alabama temem uma fuga de investimento, como o que se passou na Carolina do Norte depois de terem sido proibidas as casas de banho de género neutro. “A margem de erro é muito curta”, disse George Clark, presidente da Made in Alabama, uma associação industrial. “Qualquer factor negativo pode ser usado contra nós.”

O democrata Doug Jones tem cortejado os empresários do estado, muitos deles republicanos, usando argumentos tanto morais como económicos, incentivando-os a abandonar os instintos partidários e a proteger a economia e reputação do Alabama.

Mas Jones, que é a favor do direito ao aborto e cuja sede de campanha tem na parede um poster da Planned Parenthood [uma organização que oferece acesso a meios de planeamento familiar e que é diabolizada pela América mais conservadora], tem dificuldade em convencer republicanos como Jo Ann Turner, uma enfermeira de 71 anos que mora em Vestavia Hills, um subúrbio maioritariamente branco de Birmingham.

“Vivo no Alabama há 42 anos e estou farta de tanta publicidade negativa. Nós não somos assim, é embaraçoso”, disse Turner sobre as acusações de abusos sexuais de que Moore é alvo, mas também sobre as tensões sociais associadas ao estado. “A geração actual deixou para trás o passado. Veja este bairro. Aqui vivem bons cristãos.”

Jo Ann Turner diz que não pode votar pelo Roy Moore. “Mas também não posso votar por Doug Jones. Passei a vida a ajudar bebés a nascer. É uma questão de consciência.” 

Billie Hopper,  republicana de 73 anos de Fultondale, disse que apoia Moore porque não acredita nas notícias sobre os seus avanços sexuais. Eleger Moore, diz, é fundamental para que seja nomeado outro juiz conservador para o Supremo Tribunal e para ajudar o Presidente Trump a pôr em prática o seu programa.

“Ele defende coisas em que eu acredito, valores cristãos”, disse Hopper. Acrescenta que se sente desgostada pela forma como o Alabama é retratado nas notícias e pelos anúncios de televisão que diz retratarem o estado como um lugar onde só vivem “supremacistas brancos, gente que odeia tudo”. “Eu não odeio ninguém. Gosto de toda a gente.”

Republicanos divididos

Trump apoiou Moore, tal como o ex-estratega da Casa Branca Stephen Bannon. O outro senador republicano do estado, Richard Shelby, considera as acusações feitas contra o ex-juiz Moore – que por duas vezes foi obrigado a sair do Supremo Tribunal estadual – “credíveis e inquetantes”.

Shelby diz estar preocupado com a forma como as empresas vão olhar para o Alabama. “As empresas  procuram um bom local para investir. Um bom local para viver, para fazer negócio, um bom sistema de educação. Já percorremos um bom caminho, temos de continuar a andar. Não podemos viver no passado.”

Outros republicanos do Alabama não partilham esta preocupação. A governadora Kay Ivey, que enfrenta uma corrida arriscada em 2018, diz que vai votar em Moore.

Os democratas negros, com cujo voto Jones está a contar, dizem acreditar que o democrata tem hipóteses de ganhar, mas não esperam uma mudança na cultura do estado. “Estamos indiferentes”, disse sobre a candidatura de Jones Ron Pace, um veterano do exército que está no restaurante Fife, em Birminghams. “Daqui a cinco anos vai haver outro Roy Moore, e vão votar nele.”

Uma sondagem Washington Post/Schar School de 2 de Dezembro mostrava Jones e Moore em empate técnico, enquanto uma média de sondagens do site RealClearPolitics dava Moore ligeiramente à frente. A raça é o factor mais divisivo, com Roy Moore a ser apoiado por mais de seis em cada dez eleitores brancos, incluindo uma clara maioria de mulheres brancas.

Dana Billingsley, uma vendedora de imobiliário sentada no Starbucks com amigos no subúrbio de Vestavia Hills, está mais aberta a votar em Jones. “Gosto de Donald Trump, porque ele adora o sector imobiliário e não tem medo de se divorciar”, comenta Billingsley a rir. “Mas já antes das acusações não gostava de Roy Moore.” Não tem seguido a campanha de Jones, mas diz saber o suficiente: “O que ele fez no caso do ataque na rua 16 foi a coisa certa.”

Fora de Birmingham, e em povoações na zona rural a leste desta cidade – onde ficam enormes igrejas evangélicas e churrasqueiras familiares sempre a deitar fumo negro das chaminés – o apoio a Moore é mais forte, sobretudo na cidade de Gadsden, à beira do rio Coosa.

“Conheço Roy Moore pessoalmente. É tipo simpático, não acredito que tenha feito aquilo de que o acusam”, disse Michael Newsome, um corpulento soldador de 22 anos que vive na zona de Gadsden. “Fiz alguns trabalhos em casa dele, e conhecemo-lo como um tipo gentil, que é religioso. Honestamente, de boa-fé, acredito nele.”

Ava Lyles, uma avó de 71 anos que se inclina para os republicanos, ecooa as palavras de Newsome enquanto compra prendas de Natal no centro comercial de Gadsden – o mesmo que Moore frequentava quando era um jovem procurador, a altura das acusações das várias mulheres.

“Vou votar em Moore”, disse Lyles. “Seja lá o que for que tenha acontecido, o passado é o passado e Deus perdoa-nos a todos.” Nega a sugestão de que a raça tenha motivado discussões sobre o carácter do Alabama. “Oh, por favor. Sempre disseram que somos maus... que até havia primos a casarem com primos. Não era verdade, mas as pessoas dizem o que lhes apetece. Sempre nos julgaram”.

Otis Dupree, reformado de 53 anos que trabalha em part-time no Burger King de Gadsden, diz que se sente “enojado” com a forma como a cidade está a abraçar Moore. “Da maneira como eu vejo as coisas, os brancos estão a apoiá-lo - é isso que se está a passar”, disse Duprre. “As pessoas no Alabama estão a colaborar nesta fantochada.”

A mais de 160 km para sudoeste, na Universidade do Alabama em Tuscaloosa, centenas de estudantes saem dos dormitórios para as aulas. Muitos vêm de famílias financeiramente estáveis e brancas – e republicanas, num sentido tanto cultural como ideológico. Vêem-se como o futuro do Alabama e estão ansiosas por poderem defini-lo. Roy Moore não faz parte dos seus planos, diz Ella Jernigan, uma estudante de marketing de 19 anos e republicana.

“Não suporto que nos tratem como saloios ou incultos”, diz. “Sempre que pensamos que estamos a avançar, aparece uma coisa como Roy Moore que nos puxa para trás.”

Exclusivo PÚBLICO/Washington Post